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entrevista

Thomaz Magalhães

 

Thomaz Magalhães com Papa

 

“...minha sogra, Maricy Trussardi, plantou a semente de Deus em meu coração e minha mulher, Clara, foi a jardineira que regou a semente todos os dias...”

“Ó Deus, como são insondáveis para mim vossos desígnios!

E quão imenso é o número deles!”

(Salmo 138, 17)

... prepara a tua alma para a provação;

humilha teu coração e espera com paciência,

dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria;

não te perturbes no tempo da infelicidade,

sofre as demoras de Deus;

dedica-te a Deus, espera com paciência,

a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça.

Aceita tudo o que te acontecer.

Na dor, permanece firme;

na humilhação, tem paciência.

Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata,

e os homens agradáveis a Deus, pelo caminho da humilhação.

Põe tua confiança em Deus e ele te salvará;

orienta bem o teu caminho e espera nele.

Conserva o temor a ele até na velhice.

(Eclo 2 )

Thomaz Magalhães nasceu no Rio de Janeiro, em 30 de junho de 1954. Filho de importante empresário estudou em colégio católico, formou-se em Administração de Empresas e começou a trabalhar com o pai. Acreditava mais em sua própria capacidade do que no poder de Deus.

Nessa entrevista, Thomaz conta de que maneira, a partir de um tombo que o deixou paralítico, deixou de ser uma pessoa que andava com as pernas, mas era paralítico do Espírito, para tornar-se uma pessoa paralítica das pernas, mas que caminha com o Espírito.

ReligiaoCatolica.com – Thomaz, diga alguma coisa sobre você, sua família, como conheceu sua esposa...

Thomaz – Quando tinha treze anos, meus pais se separaram e eu passei a me sentir muito sozinho. Meu pai era um empresário bem sucedido. Não tínhamos uma vida religiosa na família. Eu acreditava em Deus, mas achava que as coisas dependiam muito mais de mim do que dEle. Sempre tive o sonho de constituir uma família, mas era só um sonho, pois o exemplo familiar não era dos melhores: basta dizer que, além dos meus pais, todos os meus tios se separaram. Apenas uma tia não se separou, porque não se casou. O casamento, portanto, era algo muito bonito para os outros, não para mim, porque achava que para mim jamais daria certo. Levava a vida por conta própria e era uma pessoa extremamente materialista.

Certa ocasião, uma amiga, a Bia Sales, achando que eu não poderia continuar vivendo dessa maneira, levou-me a conhecer a família de Clara. Lá encontrei um clima exatamente oposto ao de minha família. Todos os filhos – sete mulheres e três homens – tinham a mesma educação tradicional e a base da sustentação familiar era a fé.Aos poucos, esta semente foi gerada em mim. Minha sogra, D. Maricy, foi a responsável por plantar uma das sementinhas de Deus em meu coração e a Clara, minha mulher, foi a jardineira que regou essa sementinha todos os dias. E um dia a árvore nasceu e cresceu.

ReligiaoCatolica.com Quer dizer que sua visão sobre o casamento mudou?

Thomaz – Quando decidi me casar com Clara, disse a mim mesmo que iria quebrar o tabu de minha família e que meu casamento iria dar certo.  Mas logo no início do nosso casamento, ocorreram três fatos que marcaram muito minha vida. Minha irmã se suicidou, na minha frente. Depois, meu pai, com um tiro no peito, e meu tio, com veneno de rato. Tudo isso em menos de três anos. Isso marcou muito minha vida, porque ao mesmo tempo em que estava me aproximando de Deus, a dor me fez questionar o motivo desses acontecimentos.

ReligiaoCatolica.com Em outras palavras, você quis descobrir qual a “lógica” de Deus.

Thomaz – Quando fiquei paralítico, em 25 de agosto de 1991, eu me perguntava porque essas coisas aconteceram justamente no momento em que estava me aproximando de Deus. No início chorava muito, cheguei a pensar em suicídio. Mas seria uma covardia acabar com meu sofrimento aqui na terra e causar o sofrimento de meus entes queridos: minha mulher e meus filhos. Convenci-me então de que precisava lutar por eles, não queria que sofressem. Mas eu estava paralítico do peito para baixo, não tinha esperança de cura. Havia levado um tombo com meu cavalo. Como poderia lutar? O que fazer de minha vida?

ReligiaoCatolica.com – Conte-nos como foi que o Espírito Santo lançou a faísca para acender seu coração...

Thomaz – Um dia eu estava chorando muito. Minha sogra estava a meu lado lendo a Bíblia e pediu-me para abri-la. Eu nunca havia lido a Bíblia na vida, abri-a ao acaso e caiu exatamente a passagem do Eclesiástico 2 que fala sobre a Paciência. Quando li aquela palavra, paciência, desabrochou em mim aquilo que minha sogra Maricy havia plantado e minha mulher Clara havia semeado, mas que ainda não havia nascido em mim.

ReligiaoCatolica.com E daí, a semente germinou?

Thomaz – Sim, germinou, porque me mostrou que eu não estava tendo paciência com as coisas de Deus. Queria tudo à minha maneira e no momento em que eu quisesse. Além disso, eu achava que só seria feliz se voltasse a andar. Mas como nunca mais voltaria a andar, nunca mais seria feliz. Paciência... paciência... pensei, porque só poderei ser feliz se voltar a andar? Não posso ter outras fontes de felicidade? E assim fui pensando, ponderando. Sempre sentindo a força que me era transmitida por minha mulher e meus filhos. Aliás, não só por eles, mas por toda a família de Clara, que não é só pai, mãe e filhos, mas também genros, noras, netos e bisnetos, é um time que eu chamo de “infantaria divina” e cuja verdadeira força obviamente vinha de Deus. Descobri que a riqueza não está nas coisas materiais, mas está naquilo que temos dentro de nós e que ninguém tem como nos tirar: chama-se paz de espírito

ReligiaoCatolica.com Qual o melhor caminho para chegar a essa paz de espírito?

Thomaz – Um dos caminhos principais para encontrar a paz de espírito e o desapego, chama-se humildade. Quanto maior a nossa humildade, maior será nossa aproximação com a paz de espírito, porque quanto mais humildes formos, mais seremos desapegados das coisas materiais. As coisas materiais existem na terra para nos servir, para nos ajudar a moldar aqui uma vida exemplar, e não para que nós sirvamos a elas, ou seja, fiquemos escravos delas.

ReligiaoCatolica.com Clara e você receberam o convite para dar testemunho por ocasião da visita do Papa ao Brasil em 1997. Foi uma emoção muito forte?

Thomaz – Quanto nós recebemos o convite do Papa para dar o nosso testemunho no Maracanã diante de milhares de pessoas e de milhões de telespectadores, levei um grande susto.Depois que me

Thomaz  Magalhães
me refiz do susto, não pensei no porque de nós termos sido escolhidos, mas no para que fomos escolhidos. Rezamos muito para receber do Espírito Santo a luz e a palavra certa, já que cada um de nós teria apenas um minuto de tempo para contar a história de sua vida!! Pedimos ao Espírito Santo que agisse como nosso tradutor simultâneo, traduzindo para cada ouvido aquilo que cada ouvido precisasse realmente ouvir.

 

ReligiaoCatolica.com – E vocês foram atendidos pelo Espírito Santo?

Thomaz – Por uma graça especial, sintetizei minha vida para o Papa dizendo que há seis anos atrás eu caminhava muito bem com as minhas pernas, mas era totalmente paralítico de espírito. Foi preciso que eu levasse

Thomaz Magalhães com família
um tombo do meu cavalo e ficasse paralítico das pernas, para que eu começasse a caminhar com as pernas do Espírito Santo. E hoje, graças à garra de minha mulher e de meus filhos, consigo dar passos que eu jamais pensei que pudesse dar e atingir distâncias que nunca imaginei que poderia atingir. Por isso, sou muito mais feliz hoje do que antes.

ReligiaoCatolica.comQuer dizer que hoje você sabe o que é felicidade?

Thomaz – Se eu disser que passei a ser feliz depois que fiquei paralítico, não me julgue louco, mas é a verdade. Antes eu não conhecia Deus, queria tudo à minha maneira. Depois que tudo aconteceu, descobri os verdadeiros valores da vida e, sobretudo, a misericórdia divina. Se tivermos fé e se estivermos em paz com Deus, a misericórdia vem. É preciso ter paciência. Como disse São Paulo, na tribulação, tende paciência. Eu me apeguei muito a São Paulo.

ReligiaoCatolica.com Qual o motivo desse apego a São Paulo?

Thomaz – Talvez porque a conversão de São Paulo aconteceu quando ele caiu do cavalo. E, eu também, cai do cavalo e me converti. Quando fui à Basílica de São Paulo, em Roma, vi uma tela enorme retratando sua queda, e o cavalo pintado é da mesma espécie do cavalo que estava comigo na minha queda. Senti um arrepio, que sinal maravilhoso!

Quando olho pelo retrovisor da minha vida, vejo tantas coisas maravilhosas que passavam por mim, mas que eu ignorava. Hoje, o valor que dou a minha família não tem preço. E quero ser uma pessoa cada vez mais rica do Espírito Santo e anunciá-lo a todos.

ReligiaoCatolica.com As coisas de Deus são assim. Quanto mais amor se dá, quanto mais testemunhos, mais se é preenchido pela força do Senhor.

Thomaz – Depois do convite do papa, minha vida mudou radicalmente. Decidi ser uma pessoa normal e independente, capaz de viver sem a ajuda de ninguém. E consegui. Hoje o meu limite é o limite de qualquer pessoa. É apenas uma questão de tempo, ou seja, se uma pessoa tiver que passar por uma porta estreita, ela vai passar mais rapidamente do que eu. Mas eu também passo: eu desço da cadeira, a desmonto, passo, monto a cadeira e subo novamente. Dirijo o automóvel, viajo, tentei até simular todo tipo de situações para saber como agir no caso de estar sozinho. Por exemplo, uma vez eu imaginei o que faria se pegasse fogo no prédio e eu estivesse sozinho em casa: desci as escadas sentado, degrau por degrau, levando a cadeira!!! Com tudo isso, senti dentro de mim uma força que me dizia que deveria transmitir e testemunhar aos outros todas as graças recebidas.

ReligiaoCatolica.comDe graça recebeste, de graça deveis dar...

Thomaz – Antes do convite do Papa eu trabalhava como empresário de homens. Depois passei a ser empresário de Deus. Passei a dar palestras, testemunhos, fizemos uma loja de artigos religiosos, que é o que nos sustenta. Hoje trabalhamos em todo o Brasil e também em alguns países no exterior. A grande gratificação é ver pessoas que estavam com a vida perdida, algumas até pensando em suicídio, telefonarem e virem a nós para agradecer por termos mudado a vida delas. Essa é a missão que Deus nos deu. Existe riqueza maior?

ReligiaoCatolica.com Realmente, isso não tem preço!

Thomaz – Não tem mesmo e hoje eu sou um empresário de Deus. Costumo dizer que em meu trabalho tenho dois chefes: o papa João Paulo II e o cardeal do Rio de Janeiro. Se minha vida estivesse numa fita de vídeo e se pudesse alterar o que eu quisesse, certamente mudaria muita coisa, mas quatro acontecimentos eu não mudaria: o meu casamento com a Clara, o nascimento dos meus filhos, o meu tombo e o convite do Papa. Sobre o meu casamento e os meus filhos eu não preciso dizer o porquê. Com relação ao meu tombo,  quero deixar bem claro que não utilizo a palavra acidente, pois essa palavra tem uma conotação dramática, e no meu caso foi uma bênção. Uma bênção porque foi a partir daí que se abriu a porta para que eu pudesse entrar nas coisas de Deus. Quanto ao convite do Papa. Eu costumo dizer que foi uma condecoração divina.

ReligiaoCatolica.com Thomaz, , você nos deu um resumo da Bíblia  com suas palavras: paciência, humildade, perseverança, desapego e confiança na Providência Divina. São as virtudes que nos levam a obter a maior de todas as riquezas: “a Paz que vem de Deus”.  Você é de fato um instrumento escolhido por Deus...

Thomaz – Um padre amigo meu me disse que rezava todos os dias para que eu voltasse a andar. Eu lhe disse para rezar para que eu continuasse andando com as pernas do Espírito Santo. É desta oração que eu preciso.

ReligiaoCatolica.com Tomás ,muito obrigada. Foi lindo. Com certeza você dará oportunidade para que muitas pessoas obtenham força e conversão.

Thomaz – Amém.

Entrevista feita por Sílvia Bruno Securato

email: silvia@religiaocatolica.com.br

Texto elaborado por Stefania Contessa Panico

email: stefania@religiaocatolica.com

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