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ReligiaoCatolica.com - De
maneira geral, é comum que os adeptos de uma determinada religião
considerem sua doutrina ou filosofia como o verdadeiro cominho
espiritual a seguir. Frank: Uma resposta satisfatória à pergunta sobre a relação entre muçulmanos e não-muçulmanos teria que levar em conta a história complexa do Islã e os múltiplos padrões que se têm manifestado sob condições culturais em diferentes partes do mundo. Deixando esses detalhes de fora, pode-se resumir o seguinte: A sharî´a, ou seja, o sistema clássico de lei islâmica tem seu ponto de partida na visão de uma sociedade muçulmana homogênea. Nessa sociedade, os verdadeiros cidadãos são os muçulmanos, enquanto os "Adeptos do Livro", como são chamados os seguidores de religiões não-islâmicas cuja base é, como no caso do Islã, um livro sagrado, constituem uma segunda camada social. Os membros desta segunda camada desfrutam de uma certa liberdade religiosa, mas sofrem também certas restrições. Encontram-se nessa categoria em primeiro lugar, os judeus e cristãos, além disso os zoroastrianos, os samaritanos e os sabires, adeptos de uma denominação que existia na região mediterrânea até por volta de 1900. Do ponto de vista do Alcorão, todos eles são os "protegidos" em oposição aos praticantes de cultos politeístas que foram forçados, sob pena de morte, a converter-se ao Islã. Somente a escola jurídica dos Hanabalitas faz uma exceção, incluindo politeístas de origem não-árabe na categoria dos "protegidos". Os "protegidos" têm o direito de educar seus filhos de acordo com a sua tradição religiosa familiar. Eles podem construir seus templos ou suas igrejas onde quiserem. Não existem problemas para muçulmanos se casarem com uma mulher que seja adepta de uma das religiões não-islâmicas acima mencionadas. Todavia, como a sura 5,5 do Alcorão indica, devido ao dever da mulher se submeter ao homem, o casamento entre uma muçulmana e, por exemplo, um cristão tem sido proibido, para não pôr em risco a fé da esposa e a educação dos filhos que têm que se orientar na religião do marido. Resumindo: mesmo que se possa afirmar, do ponto
de vista iluminista, o não-reconhecimento da igualdade, autonomia
e liberdade de todos os seres humanos, encontra-se no Islã uma
atitude muito mais tolerante do que muitas vezes sugerida pela
mídia. ReligiaoCatolica.com - Como
surgiu o wahhabismo, grupo ao qual Bin Laden é líder? Frank: Manifestaram-se, no decorrer dos séculos, quatro escolas jurídicas principais, entre elas a dos hanibalitas, a mais conservadora, fundada por Ibn Hanbal que morreu em 855. Sua subcorrente mais radical é o wahhabismo, uma linha cujo nome se refere ao Hanbal al-Wahhāb (1703-1787). Os wahhabitas agiram em favor da fundação do Reino da Arábia Saudita em 1932 e a sua ideologia opera lá como doutrina de Estado. Há somente mais um Estado wahhabita, isto é o Qatar. Os wahhabitas defendem um Islã dos seus tempos iniciais, rejeitando todas as inclusões mais recentes, ou seja, desenvolvimentos a partir do século X. Entre outros aspectos, rejeitam a exegese do Alcorão em favor da sua leitura literal. A partir disso, são rejeitados rosários para contemplar os nomes de Allah, e são favorecidas mesquitas sem minaretes e sem decorações. A organização da vida se baseia em regras rigorosas, como, por exemplo, na proibição de usar tabaco, de se barbear e – sob ameaça de 40 chicotadas - de maldizer as regras. Mulheres não podem dirigir carros. É exigido que cada muçulmano participe da oração coletiva nas sextas-feiras. Além disso, o direito de propriedade pessoal é limitado em favor da comunidade, especificamente dos pobres. Hoje em dia, algumas dessas regras são aplicadas de jeito menos radical, mas a situação continua sendo rigorosa. Estrangeiros têm que se comportar adequadamente; por exemplo, não podem consumir álcool. A riqueza imensa em "petro-dolares" tem propiciado aos sauditas impor suas posições em várias partes do mundo islâmico. Desse modo, são financiadas as impressões de
livros, auxiliando na divulgação das posições islâmicas conservadoras.
Há também uma influência forte nas madrasas, ou seja, nas escolas
do Alcorão, no Paquistão, freqüentadas por filhos de famílias
de fugitivos de Afeganistão. ReligiaoCatolica.com - O Corão prega em seus escritos as diferenças radicais
entre homens e mulheres? Frank: Na Sura 4, versículo 34 do Alcorão, encontra se a seguinte frase: "Os homens têm autoridade sobre as mulheres pelo que Deus os fez superiores a elas e porque gastam de suas posses para sustentá-las. As boas esposas são obedientes e guardam sua virtude na ausência de seu mundo conforme Deus estabeleceu." E Sura 2, versículo 228 confirma: "As mulheres têm direitos correspondentes a suas obrigações, mas os homens as superam de um degrau." A idéia de supremacia do homem encontra-se, de maneira simbólica, nos versículos da Sura 2, que relatam de acordo com o conceito bíblico, que a mulher foi criada da costela de Adão. Por outro lado, os versículos 2,36 e 7,20 deixam claro que, do ponto de vista do Islã, não foi Eva que seduziu Adão, mas os dois é que foram seduzidos por Satanás. Além disso, é incorreto o preconceito de que os muçulmanos defendem a hipótese de que somente o homem tem alma e, por isso, somente ele pode desfrutar da vida eterna. Em vez disso, é enfatizado que o paraíso e seus prazeres são prometidos para muçulmanos de ambos os gêneros. O Hadith, ou seja, a compilação de relatos sobre as falas e os comportamentos do Profeta traz informações contraditórias sobre a posição de Maomé a respeito das mulheres. Encontram-se textos que elogiam as mulheres e outros que as condenam, bem como a fala de que mulheres têm que obedecer a seus maridos para entrar no paraíso. ReligiaoCatolica.com -
Em um artigo escrito por Lourival Sant’Anna, li que “As mulheres
são para os taliban seres misteriosos, que representam a ameaça
do desconhecido”, portanto, podemos considerar que essa seria
a razão da opressão contra elas. Frank: Lourival Sant´Anna é jornalista, viajou recentemente para o Afeganistão e tem um bom conhecimento da região e de seus habitantes. Todavia, não posso imaginar que algum de seus entrevistados confirmaria a interpretação citada. Quanto a mim, a hipótese indicada pelas duas partes da pergunta vai além da minha especialização científica. Não sou psicólogo e acho irresponsável se referir, sem conhecimento adequado, a um conceito "popular" que faz parte da construção social da realidade do Islã em nossa sociedade. ReligiaoCatolica.com - Na história da humanidade grupos extremistas acabam
por extinguir-se ao longo do tempo, e ainda que deixem uma minoria
sua, eles perdem a força de atuação. A tribo de Bin Laden tende
a ter o mesmo destino ou, ao contrário, está adquirindo maior
força a ponto de unir seus adeptos, mesmo espalhados por todo
o mundo? Frank: O início da história do Islã foi sócio-culturalmente caracterizado por uma transição de uma convivência de tribos para uma sociedade integrada de indivíduos solidários. Nesse sentido, o termo "tribo" associado a Osama Bin Laden não faz sentido, a não ser que a expressão seja usada como uma metáfora aludindo ao fato de que Bin Laden tem 53 irmãos e um parentesco vasto, entre outros, seu pai, um jemenita que era dono de uma empresa de construções e deixou milhões de dólares para seu filho Osama. Todavia, seria um mal-entendido identificar Bin Laden com a etnia de pasthus cujos representantes atualmente mais conhecidos são os Talibans. Não há nenhuma relação natural entre Bin Laden e os Talibans, uma vez que Bin Laden mudou para o Afeganistão só em 1979, quando as tropas russas invadiram o país. Quanto à questão da força de Bin Laden, lembro que antes de 11 de setembro o nome dele foi citado somente em contexto com outros fundamentalistas islâmicos". Mas a fama dele cresceu exorbitantemente depois de 11 de setembro, não por causa do seu carisma, mas pela atenção mundial que ele chamou através da mídia. Ao mesmo tempo, quase ninguém citou mais os outros líderes muçulmanos anteriormente tratados como se fossem da mesma importância como a de Bin Laden. Devido a uma série de artigos e reportagens contínuas nas últimas semanas, não somente a população dos países ocidentais, mas também a do mundo islâmico, ganharam cada vez mais a impressão de que aquela figura "perigosíssima" dispusesse de uma grande potencialidade de poder. Nesse sentido, o foco dos americanos em Bin Laden fez com que a esperança de diferentes círculos islâmicos por uma resistência mais eficaz contra o imperialismo ganhasse uma forma concreta. Foram divulgadas, depois de 11de setembro, por um canal na Argélia, duas entrevistas com Bin Laden chamando muito a atenção do mundo islâmico. Um sinal do crescimento do poder ideológico dele desde a sua "identificação", pelo governo americano, como responsável pelos os eventos espetaculares de terror. Porém, embora seja comum que, logo depois de um atentado, grupos de terror se identifiquem como seu iniciador, temos que registrar que até hoje não houve nenhuma declaração do próprio Bin Laden a respeito da sua responsabilidade pelas ações em Nova Iorque e Washington. ReligiaoCatolica.com - O ser humano tem em si o “instinto da sobrevivência”.
O wahabismo, ao contrário, prega a destruição da vida em favor
da lei de Deus. Podemos classificar a seita de lavagem cerebral?
E como pode ter se alastrado tanto? Frank: A frase "lavagem cerebral" foi originalmente cunhada pelos americanos durante a Guerra da Coréia. A palavra se referiu a um conceito pseudocientífico construído para "explicar" a "conversão" dos próprios soldados, no cativeiro, ao comunismo. Nos anos 70, a noção foi retomada pela chamada "Anti-Cult-Movement", também nos EUA. Tratou se de um movimento fundado por pais cujos filhos tinham se afiliado a novos movimentos religiosos como "Hare Krishna", os Meninos de Deus ou da Igreja de Unificação do Reverendo Mun. Já no fim dos anos 70, houve várias críticas ao termo "lavagem cerebral" e, particularmente, por parte de sociólogos da religião. Eles apontam para o caráter especulativo do conceito. Hoje, nenhum cientista sério aproveita mais aquela noção. Por outro lado, não é para negar que uma religião tem a potencialidade de despertar sentimentos que vão além do citado "instinto da sobrevivência". Isso vale, especificamente, para uma leitura literal daquelas partes de textos sagrados que questionam, de jeito radical, a validade de valores do mundo profano. Neste sentido o Islã é, de certa maneira, predisposto,
uma vez que o Alcorão é considerado a mensagem mutável do Deus
e não aberta para análises exegéticas abrangentes, cujos resultados
poderiam diminuir as tensões entre instruções fixadas na segunda
metade do século VII e padrões da pós-modernidade. Além disso, temos que levar em conta um outro fato: o baixo grau de formação religiosa das massas, especificamente em países com um grande número de analfabetos, expostos a interpretações fundamentalistas de líderes locais que ensinam uma versão radical do Islã. ReligiaoCatolica.com -
Qualquer tipo de lazer, diversão e esporte são proibidos. Até
as crianças são proibidas de brincar. Os meninos iniciam seus
estudos e as meninas devem ficar confinadas em casa. Esse tipo
de castração, poderia ser considerado como uma das causas de distúrbio
emocional dos seguidores do grupo? Frank: Como já disse, não sou psicólogo ou psicanalista. Como historiador e sociólogo não trabalho com conceitos como o da "castração". Independentemente disso, assumo que a pergunta se refere ao Afeganistão sob o domínio do Taliban. Cito a seguir algumas frases de uma carta escrita por uma afegã e divulgada em 15 de novembro 2001 na Internet, que confirma a preocupação indicada pela pergunta. "Na minha juventude moças iam à escola, mulheres trabalhavam como professoras, médicas e funcionárias públicas; divertíamo-nos, festejávamos, vestíamos jeans e saias [...].Quando os Talibans chegaram, fecharam todas as escolas e universidades para mulheres. Várias das minhas amigas foram agredidas, pelos Talibans, por terem usado sapatos de salto alto. Não nos foi permitido desenhar ou ouvir música e os tanques do Taliban destruíram todas as televisões." Relatos desse tipo são mais freqüentes nas últimas semanas, mas parece que junto com os avanços das tropas da "Aliança do Norte", restabeleceram-se alguns dos direitos que as mulheres antigamente tinham. Podemos ver isso também como prova de que seria errado confundir o sistema "Taliban" com a shar'îa,ou seja, a lei islâmica em geral. ReligiaoCatolica.com - Para eles, quais seriam os benefícios para os, digamos,
“mártires” que morrem numa guerra santa? O que terão como recompensa
no paraíso? Frank: Fica aberto para mim, na pergunta, quem são "eles". A grande maioria dos muçulmanos tem um entendimento mais complexo da palavra djihād e não tem nenhuma esperança de uma recompensa para a morte numa "guerra santa". Aquelas minorias que interpretam a exigência do jihād como a chamada para a "guerra santa" justificam sua ideologia radical citando versículos do Alcorão, como o seguinte: "O Profeta exorta os crentes ao combate. Se houver vinte dentre vós que sejam firmes, prevalecerão sobre duzentos, e se houver cem, prevalecerão sobre mil dos descrentes. Estes não possuem entendimento." [8,65] De acordo com a escatologia islâmica, a morte significa a separação da alma do corpo. No momento da morte, estão presentes anjos que levam a alma ao céu, onde acontece um tribunal intermediário e é decidido, então, qual será o destino do indivíduo depois do fim dos tempos. O critério mais importante que faz com que a alma desfrute do paraíso não é a fé. Um muçulmano crente, porém pecante, pode ser mandado para o inferno, mas tem que ficar lá somente um tempo limitado, depois vai para o paraíso. O último é descrito como um lugar maravilhoso, ou seja, como o jardim de Deus com rios cheios de água, de vinho, de leite e de mel. Há uma abundância de frutas e encontram-se virgens muito bonitas. Quem merecer entrar no paraíso, ficará lá para sempre e desfrutando de uma beatitude eterna. ReligiaoCatolica.com -
Uma das leis do Islamismo é o pagamento do dízimo para que não
haja necessitados entre eles e, supõe-se que de fato o mandamento
é respeitado. No entanto, sabemos que a pobreza entre eles é alarmante.
Qual seria, então, o conceito da distribuição do mesmo? Parece-nos
contraditório, uma vez que as leis devem ser “rigorosamente” cumpridas.
Vimos, por exemplo, uma verdadeira fortuna empregada para destruir
vidas, enquanto os membros da seita perecem em condições sociais
exíguas. Frank: O "dízimo", como a pergunta diz, no caso do Islã, é somente dois por centos da renda anual que ricos dão para diminuir o sofrimento dos pobres. Além disso, o Islã não é uma seita. Também é inadequado assumir, de modo generalizado, que "a pobreza é alarmante". O Islã é, evidentemente, uma religião mundial, tanto geográfica quanto estatisticamente. Cerca de um quinto da humanidade é muçulmano. Dentre os países onde o Islã se enraizou, há grandes diferenças culturais e econômicas. Por exemplo, os Emirados Árabes Unidos são extremamente ricos, enquanto o Afeganistão é muito pobre. Assim, o mundo islâmico sofre as mesmas contradições que o mundo cristão, inclusive São Paulo, a maior cidade de um país freqüentemente citado como "maior país católico do mundo", com suas chocantes diferenças econômicas. Do ponto de vista teológico, coloca-se aqui o chamado problema de teodicéia: como explicar a injustiça da vida frente à existência de um Deus considerado amor puro? A teologia islâmica responde a esta pergunta afirmando que a vida na terra é somente uma prova e são insondáveis os planos que Deus tem para cada indivíduo. ReligiaoCatolica.com - Por que existem tantas desigualdades sociais dentro
dos países muçulmanos? Frank: O Islã não se baseia na teoria de Karl Marx e seu objetivo não é a criação de uma sociedade economicamente igualitária, mas o Alcorão prega a responsabilidade dos ricos para os pobres na forma de uma taxa, chamado zakāt, ou seja, a obrigação de dar 2 por cento da renda anual para a comunidade muçulmana. Isso corresponde ao fato de que o Alcorão reconhece, sob três principais condições ideológicas interrelacionadas, o direito de propriedade privada. Primeiro: Deus é o Senhor do universo, tudo pertence a Ele.O ser humano é somente beneficiário e administrador dos bens materiais. Isso implica que o direito individual de propriedade privada é restringido nos momentos em que a maslaha, ou seja, o bem-estar da coletividade, está em jogo. Isso aponta para o alto valor da solidariedade nas sociedades muçulmanas, sem que esse princípio seja sempre, praticamente, realizado. Segundo: Como servente e lugar-tenente de Deus na terra, o ser humano tem que corresponder à sua vocação espiritual e não deve se orientar somente de acordo com seus desejos e suas necessidades materiais. Terceiro: o aproveitamento máximo da propriedade implica não
somente em objetivos pecuniários, mas em uma satisfação de necessidades
espirituais. Isso é dado somente quando o ser humano desenvolve
uma atitude altruísta que, por sua parte, se exprime em formas
de doações para os pobres e a sociedade em geral. ReligiaoCatolica.com - Seriam os atuais países com governos islâmicos realmente
portadores de sua fé, ou uma ditatura teocrática a explorar a
fé de seus fiéis? Frank: A história humana mostra que a religião pode assumir várias funções, entre outras a de que ela dá sentido para a vida e compensa o sofrimento aqui e agora. Do ponto de vista político, há exemplos históricos que provam a potencialidade da religião despertar uma revolta e outros que verificam que a religião pode ser usada para legitimar o status quo, inclusive um sistema ditador. Hoje em dia, a maioria dos Estados islâmicos tem uma constituição que combina elementos de um sistema secular do padrão Europeu com elementos da sharî´a. A constituição da Turquia, criada em 1924, por exemplo, é extremamente "moderna" e tem como seu modelo a da Suíça. Poderia continuar assim, para indicar que a pergunta leva a uma direção enganosa. O Agha Khan, líder xiita, é uma pessoa extraordinariamente rica, mas ele é considerado caritativo, uma vez que criou vários programas para elevar o nível da educação do seu povo, especificamente o das mulheres. ReligiaoCatolica.com - Acaso tem alguma coisa a ver "A Ética Protestante
e o Espírito do Frank: Não é por acaso que o Afeganistão é o primeiro alvo de ações militares por parte dos Estados Unidos. Já sob o governo de Bill Clinton, os americanos tinham mostrado um forte interesse no país e tinham, até mesmo, negociado com os Talibans. Tinham como objetivo consolidar o regime do Afeganistão para que os Talibans garantissem uma estabilidade na região e autorizassem a construção de um oleoduto. O motivo principal de todas essas negociações e intervenções eram o transporte do petróleo da Ásia central para o mar, num caminho mais curto e econômico. Acho que a expressão "não-ética capitalista" descreve adequadamente o que está realmente em jogo. ReligiaoCatolica.com - Quais são as possíveis interpretações dos diferentes
grupos islâmicos a respeito do "Jihad"? Frank :As implicações do termo djihād são mais complexas do que a tradução reducionista "guerra santa" quer nos fazer acreditar. Do ponto de vista etimológico, a palavra se refere a frases como "esforçar-se", "andar na trilha de Deus" ou "empregar as suas forças". O próprio Alcorão usa o termo somente para recomendar aos muçulmanos o se engajarem, com sua personalidade inteira e sua prosperidade, no caminho de Deus. Que caráter concreto esse engajamento deve assumir, foi deixado aberto pelo Alcorão. Elaborações sistemáticas dessa idéia, originalmente bastante vaga, subsumem sob a palavra djihād as seguintes denotações: Primeiro, aspirações individuais de se transformar em um muçulmano melhor; segundo, referindo-se à dimensão social da vida, o termo é usado no sentido de "campanha", apontando para a necessidade de combater coletivamente as misérias públicas, como pobreza, doenças, ou problemas como o de consumo e de tráfico de drogas. Esses dois níveis de interpretação constituem o "grande djihād". Somente no terceiro nível de interpretação, a palavra assume o significado de "guerra". É indicativo que os muçulmanos se referem a uma ação militar apenas em termos de um "pequeno djihād". Mais do que isso, o conceito do "pequeno djihād" não justifica uma caracterização do Islã como religião agressiva. Esse tipo de "djihād" é entendido como uma guerra defensiva, pois é visto de forma legítima somente sob duas condições simultâneas: a comunidade dos muçulmanos tem que ser atacada ofensivamente por inimigos armados e ao mesmo tempo, tem que haver um sucessor vivo do profeta, que é inequivocamente aceito como líder dos muçulmanos. Sob estas condições, nenhum grupo islâmico pode se referir, com efeito, à "guerra santa", uma vez que não existe em nossos tempos um legítimo sucessor do profeta universalmente reconhecido. Quanto ao segundo elemento, ou seja, a argumentação
de que o Islã sofre uma ameaça ofensiva, líderes de opinião apontam
para a economia mundial em favor dos Estados Unidos e outros países
industrializados e para uma maquinaria sofisticada de propaganda
contra o Islã, como se esses fatores fossem armas modernas capazes
de destruir o mundo islâmico. ReligiaoCatolica.com
- Qual a diferença entre "fé cega" e "submissão a
Deus", em se tratando do Islamismo? Frank :Enquanto a palavra "fé cega" traz uma conotação pejorativa com o objetivo latente de desvalorizar a piedade de adeptos de uma religião, a referência da pergunta ao verbete "submissão" faz sentido do ponto de vista da Ciência da Religião, uma vez que etimologicamente o termo "Islã" é associado ao verbo "submeter-se". Assim, a designação da própria religião enfatiza uma certa atitude por parte dos muçulmanos. Podemos caracterizar tal atitude como a aspiração de conhecer, o mais abrangentemente possível, o que Deus quer dos homens, para que esses possam se comportar em todas as esferas da vida de acordo com a vontade de seu Criador. O Alcorão é cheio das instruções concretas para a organização de uma sociedade em harmonia com a vontade divina. Assim, este livro sagrado, visto como palavra autêntica do próprio Deus, é a fonte principal da Sharî´a, ou seja, a lei religiosa como base legal de um Estado islâmico. Todavia, desde a época dos primeiros califas, ou seja, desde a morte de Maomé, os muçulmanos têm confrontado constelações equívocas, ou seja, situações que não [ou não completamente] são reguladas por suras do Alcorão. Para compensar tal falta, foi compilado um segundo corpo de texto, chamado "hadith", contendo relatos sobre falas, hábitos e comportamentos de Maomé em momentos em que ele não tinha agido como Profeta, mas como privilegiada "pessoa privada". Além disso, há mais duas fontes da lei islâmica: o raciocínio por analogia e o acordo universal dos eruditos. É evidente que os dois últimos recursos enfatizam o uso do intelecto, uma instância ainda mais salientada pelos xiitas. Encontramos aqui a idéia de que Deus equipou o ser humano com tudo o que ele precisa para descobrir a vontade do seu Criador, inclusive com a capacidade de raciocinar e refletir. Esses princípios nada têm a ver com o que a palavra estigmatizante "fé cega" quer sugerir. ReligiaoCatolica.com - Em termos
de curiosidade teológica, qual a diferença da aparição do Arcanjo
Gabriel para Maria e, depois, para Maomé? Frank: O Islã se vê em uma longa tradição de revelações divinas e reconhece todos os profetas bíblicos, inclusive Jesus que é, nele (o Islã), considerado não como filho de Deus, mas como seu mensageiro. Tão quanto Maomé. A partir disso, os muçulmanos têm
respeito tanto pelo Antigo quanto pelo Novo testamento, uma vez
que esses textos trazem, até um certo grau, a mesma verdade que
o Alcorão, todavia de maneira incompleta, por distorções causadas
no processo da transmissão para as gerações seguintes. Assim,
o Arcanjo Gabriel, enviado por Deus para que ele deixasse Maomé
receber a mensagem divina, é a mesma "personagem celestial"
que apareceu para Maria. Existem diferenças somente em termos
das circunstâncias da aparição e seu "conteúdo". Mais
importante ainda é o fato de que o Arcanjo Gabriel procurou Maomé
consecutivamente até que o Profeta recebesse a mensagem divina
completa, preservada, na sua originalidade, no Alcorão. Frank : O termo "pan-arabismo" refere-se ao movimento que se formou sob Gamel Abdel Nasser, presidente do Egito entre 1956 e 1970. Foi objetivo de Nasser, integrar os países árabes em um bloco político. Embora o plano não tenha se realizado no sentido de uma confederação e o mundo árabe ainda seja dividido em 19 nações, os árabes se sentem unidos por causa de uma língua comum e, especificamente, por se reconhecerem como partes da cultura islâmica que permeia todos os aspectos da vida. O termo "pan-islamismo" tem um significado mais geral e refere-se à aspiração de unir, a nível global, todos os muçulmanos. A idéia ganhou força no decorrer do século XIX e teve sucesso político particularmente na Índia, antes da primeira guerra mundial. Nos últimos anos, a ideologia do "pan-islamismo" voltou a se articular com uma voz mais alta no seio de um fundamentalismo islâmico, em oposição à ocidentalização das sociedades islâmicas. ReligiaoCatolica.com
- Frank, você como doutor e estudioso da Sociologia e da Ciência
da Religião, poderia dizer
aos nossos leitores qual é ou deveria ser o papel da religiosidade
para o indivíduo? Frank : A Ciência da Religião não é uma disciplina normativa, então, não me sinto competente para dar um conselho no sentido da pergunta como representante da minha disciplina. Como "pessoa privada", porém, gostaria de lembrar o mandamento cristão: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo". Frente à discussão sobre o Islã, este princípio implica para mim no dever de se informar, o mais abrangentemente possível, para transformarmos preconceitos em conceitos e para evitarmos generalizações que se referem empiricamente a uma minoria no mundo muçulmano, mas que, sorrateiramente ou explicitamente, propõem que as críticas contra essa minoria valham para o mundo islâmico em sua totalidade. Tendo na mente a reação histérica nas últimas semanas, do "mundo civilizado" ao Islã, vejo como maior risco a manifestação do chamado "choque de civilizações" entre o Ocidente e o Oriente. Não temos a possibilidade de intervir imediatamente nas decisões de instâncias políticas, mas podemos combater o ódio em nossas próprias almas. É fácil apontar para os Talibans lá no Afeganistão, no "outro lado", como se fosse a manifestação paradigmática do diabo na terra. É mais difícil, muito mais importante e tem que ser uma tarefa cotidiana, entender em que sentido nós correspondemos com atitudes que condenamos, em outros, como fundamentalismo. ReligiaoCatolica.com –
Professor, agradecemos muitíssimo sua atenção e colaboração. Convidamos nossos leitores a conhecerem um
pouco mais o nosso ilustre
entrevistado, visitando sua página na Internet: http://sites.uol.com.br/aniadoli/ Entrevista realizada por Silvia Bruno Securato
& Mauro Araújo Souza. email: silvia@religiaocatolica.com.br email: mauroade@aol.com
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