Monsenhor
Getúlio Vieira, pároco da catedral de Santo Amaro, SP
Santo
Amaro foi a segunda paróquia do
Estado de São Paulo.
Tudo começou em 1686.
Vejamos como.
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Monsenhor Getúlio conte-nos a respeito da fundação dessa maravilhosa
Catedral de Santo Amaro. Sabemos que é muito antiga, consta que foi fundada
em 1686, certo ou errado?
Mons. Getúlio: - É isso mesmo, Santo Amaro foi a segunda paróquia
do Estado de São Paulo, tendo sido fundada em 14 de janeiro de 1686. Naquele
tempo pertencíamos ao Rio de Janeiro e chegou-se à conclusão que era muito
difícil para os fiéis de nossa região se deslocarem até sua matriz que
ficava no centro de São Paulo (hoje Catedral da Sé). O povo estava então
impedido de assistir a missa e até mesmo de poder receber os sacramentos.
Para que se tenha uma idéia, era preciso tomar o barco e navegar o rio
Jeribatiba, que depois se chamou de rio Jurubatuba e que hoje é o rio
Pinheiros. Daí subiam o rio Tietê e chegavam até a Sé. Muito longe e muito
difícil, dá para imaginar !
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Por que motivo deu-se o nome de Santo Amaro à nova paróquia?
Mons. Getúlio:- A fundação deu-se, como já foi dito, a 14 de janeiro,
mas como o dia seguinte era o dia de Santo Amaro e lá havia uma imagem
desse santo trazida em 1560 por um casal de portugueses, resolveu-se dar
esse nome.
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A imagem original ainda existe?
Mons. Getúlio: - Sim, existe, está guardada num cofre forte e todo
dia 15 de janeiro é exposta aos fiéis. É uma imagem de madeira, com cerca
de 50 cm de altura, trazida ao Brasil em 1560 por um casal de portugueses
que naufragaram e prometeram que se se salvassem, iriam erigir uma capela
dedicada a Santo Amaro. Eles se salvaram e mandaram vir de Portugal essa
imagem.
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E a Catedral, está ainda conservada em sua originalidade?
Mons. Getúlio:- A construção da Catedral foi iniciada em 1833 e
a inauguração foi no dia 1 de novembro de 1924. Quando a arquidiocese
de São Paulo foi dividida em regiões episcopais, então Santo Amaro ficou
sendo a sede da Região Episcopal da Zona Sul. Respondendo mais específicamente
à pergunta, posso dizer que a pintura original foi estragada devido a
vazamentos no telhado. Pintou-se então por cima dos estragos, mas novos
vazamentos fizeram com que se destacasse a segunda pintura e hoje estamos
precisando urgentemente de uma restauração. Existe uma empresa que restaura
patrimônios em parceria com o governo do Estado. Eles já consertaram parte
do telhado que estava muito ruim, a ponto de cair...
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O projeto de restauração deve ser muito caro e demorado ...
Mons. Getúlio: - Foi já feito um plano que levaria dois anos para
ser finalizado, a um custo estimado de R$ 953.000,00 (em parcelas de R$
41.000,00 ao mês). O preço pode variar porque foi orçado o ano passado.
A restauração englobaria a reforma do telhado, a recuperação das pinturas
originais de valor artístico, já que nem todas têm valor artístico,
e também a reforma do piso. De fato, o chão da igreja foi prejudicado
pela construção do metrô. Vai ser preciso trocar tudo.
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Quer dizer que houve também o agravante da passagem do metrô por baixo
da Catedral ?
Mons.
Getúlio:- O metrô passou a 9 metros de distância, a uma profundidade
de 19 metros, e desnivelou as paredes do altar (3 cm na parte direita
e 2 cm do lado esquerdo). Mas devo dizer que o pessoal do metrô foi muito
correto, vinha sempre para controlar e consertar os estragos. A catedral
é muito antiga, não tem alicerces, foi construída sobre o próprio chão
e foi feita com tijolos enormes. Os técnicos do metrô colocaram uns tirantes
na parte de cima, segurando tudo, não há mais perigo nenhum. Graças a
Deus foi possível limpar o telhado porque havia o perigo de desabamento,
principalmente quando chovia.
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- Sem dúvida alguma
a Catedral constitui um marco histórico importante, até porque o bairro
está completando 450 anos...
Mons. Getúlio:
- Além de patrimônio histórico, a Catedral constitui um marco no bairro.
Quando o pessoal vem do nordeste, onde é que marca encontro? No Largo
13, onde está a Catedral, ou seja, é um ponto de referência. Na época
colonial, quando as pessoas subiam a serra vindos de São Vicente para
ir a São Paulo, passavam por Santo Amaro, subiam o rio e iam para Piratininga.
Aqui viviam os índios guaianazes. O Padre José de Anchieta passou muito
por aqui quando descia para São Vicente ou Bertioga. Trata-se portanto
de um marco histórico importante, que deve ser preservado e divulgado.
Não se pode ter memória curta, é preciso cultivar os marcos do passado,
como é feito na Europa onde ainda existem ruínas do tempo dos celtas,
por exemplo.
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-Santo Amaro é
o santo padroeiro dos agricultores. O Senhor poderia nos contar algo a
respeito da vida desse santo ?
Mons. Getúlio:
- Santo Amaro foi o primeiro discípulo de São Bento. Seu pai era senador
romano, ouviu falar de São Bento e levou o filho para conhecê-lo. O jovem
acabou ficando e mais tarde, já monge, foi enviado à França para fundar
um convento. Ao redor desse convento havia plantações e Santo Amaro ensinava
os agricultores a plantar e a usar bem as sementes, de modo a tornar o
plantio mais racional e mais inteligente. É por isso que é chamado padroeiro
dos agricultores. Mas Santo Amaro é também venerado para curar dores do
tipo artrose, artrite, e também dor de cabeça.
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Dizem que Santo Amaro foi um grande praticante da obediência.
Mons.
Getúlio: - A obediência, a humildade e a mortificação foram suas grandes
virtudes. Conta-se que certa vez um seu colega, Plácido, estava se afogando
longe de todos. São Bento teve a visão do perigo e ordenou a Amaro que
fosse salvar o irmão religioso. Obediente, sem titubear Amaro correu e
andou pelas águas sem afundar e pegou Plácido pelos cabelos. Teve portanto
mais fé do que São Pedro e São Paulo que não tiveram fé e afundaram. A
fé é um dom de Deus, é preciso saber entregar as coisas a Deus e depois
pegá-las de volta. As pessoas às vezes não sabem pegar os nossos anjos
no céu para que nos ajudem.
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Além do sonho de restaurar a Catedral de Santo Amaro, existem outros
sonhos e projetos em sua vida ?
Mons. Getúlio: --Existem muitos, alguns já realizados, como por
exemplo a peregrinação à Terra Santa e a Roma, no ano de 1997, e a peregrinação
a Santiago de Compostela, em 1999. Foram realmente sonhos realizados,
algo marcante em minha vida, embora uma viagem tenha sido tão diferente
da outra. Isso porque à Terra Santa fui de avião, ônibus com ar condicionado,
todo o conforto. Para Compostela fiz a peregrinação a pé: algo realmente
inesquecível. Fomos em três pessoas, mas a maior parte do tempo caminha-se
sozinho rezando o tempo todo e assistindo missas sempre que possível.
À noite fazia reflexões e procurava fazer um diário contando os acontecimentos
do dia. Tirei muitas fotos e a experiência foi tão marcante
que estou compilando um livro contando toda a viagem.
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Trata-se sem dúvida de uma ótima experiência que nos dá uma idéia de
como era difícil viajar antigamente e de quantos sacrifícios fizeram os
cristãos para difundir o Evangelho. Gostaria de nos contar mais detalhes
?
Mons. Getúlio: - Nós levamos o plano detalhado, que me foi dado
por um colega de Natal. Ali estavam assinaladas todas as pousadas existentes
pelo caminho, de modo que todos os dias calculavamos a distância que iríamos
percorrer: 20 km, 21 km, 24 km. Houve um dia em que andei 35 km ! Tudo
a pé com a mochila nas costas. A mochila não pode pesar mais do que um
décimo do peso da pessoa. Por exemplo, se uma pessoa pesa 70 kg, o máximo
que pode levar são 7 kg. Só dá para por o essencial, e no essencial tem
que estar incluído o saco de dormir, as coisas pessoais, a roupa, sendo
que a roupa deve ser para enfrentar chuva, frio, calor, neve, etc! Quanto
ao calçado, bem antes de viajar comprei um tênis para poder amaciá-lo
bem. Ah! e também treinei antes, andei bastante a pé na serra da Mantiqueira
e em Itanhaém.
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Como é o caminho ? subidas e descidas, pedra, terra ?
:Mons.
Getúlio: - Logo no início já se começa a subir, sobem-se os Pirineus,
então se desce. Subir é duro, mas descer é ainda pior porque há muitas
pedras e para descer forçam-se muito os joelhos que têm que aguentar o
peso do corpo mais o peso da mochila. São quatro grandes subidas, uma
delas com 27 km ! Neste dia subimos com chuva e com um frio de três graus.
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-Devem
ser uns 30 dias de caminhada.
Mons. Getúlio: - Nós havíamos calculado 32 dias, mas no total foram
34 dias. Ficamos um dia em Burgos, cidade medieval e patrimônio da Unesco.
Finalmente, depois de tanto andar, chegamos a Santiago e ficamos extasiados
diante de tanta beleza. A Catedral é enorme, maravilhosa, chegamos ao
meio dia, na hora da missa dos peregrinos, fomos recebidos pelo bispo
oficiante que nos acolheu com muito amor, falando em português. Eu estava
cansado, sujo, carregando a mochila e não consegui celebrar a missa.
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Dizem que o senhor é santoamarense, "botina amarela". Qual o significado
dessa expressão ?
Mons. Getúlio:- De fato, nasci no Brooklin em 1942, quando aquele
bairro ainda pertencia a Santo Amaro e quando aqui havia muito barro amarelo
e o pessoal chegava com os sapatos amarelos de barro, por isso o nome.
Hoje me sinto muito feliz e muito honrado por ser o pároco de Santo Amaro.
Tenho orgulho da Catedral, que considero um patrimônio histórico do meu
País e espero que um dia possa realizar o sonho de ver inteiramente restaurada
minha querida Matriz. Acredito no ditado que diz "de grão em grão a galinha
enche o papo", portanto se alguém desejar colaborar, pode entrar em contato
conosco pelo telefone (0xx11) 5687-5725.
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Antes de nos despedirmos gostaríamos de comunicar aos leitores
que o livro relatando a peregrinação a Santiago de Compostela
já está sendo publicado pela Oficina do Livro Editora. Seu
título é "Pelos Campos da Estrela Maior".
Qual o motivo desse nome?
Mons. Getúlio:- Para saber quem é a Estrela Maior, nada
melhor do que ler o livro ... Entretanto, há um episódio
que não consigo deixar de contar já, a todos, porque me
mostrou qual é o espírito de uma verdadeira peregrinação.
Certa noite chegamos a um albergue, muito simples mas muito acolhedor.
Estávamos exaustos, meus pés doiam, eu estava com bolhas
nos dedos de tanto andar. Ao nos receber, o dono do albergue deu-nos uma
das lições mais profundas sobre esse ca minho dizendo: "Quem
percorre esse caminho não deve fazê-lo como turista ou a
passeio e sim como peregrino; deve fazê-lo com o coração
e deixar algo de si mesmo".
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Foi muito bom entrevistá-lo e termos essa nossa conversa simpática
e descontraída. Muito obrigada, Monsenhor, parabéns pela
publicação do livro e votos de muito sucesso.
Entrevista
feita por Silvia Bruno Securato
Elaborada por Stefanio Contessa Panico