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![]() ReligiãoCatólica.com Deus nos chama a muitas conversões, todas elas importantes e decisivas “O Reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. Dorme, levanta-se, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem ele o perceber.” (Marcos 4, 26) Padre Eugenio Maria La Barbera nasceu em Milão, Itália, numa família profundamente católica; viveu a juventude numa época de “revolução cultural” e mudanças sociais (a época do famoso maio francês de mil e novecentos e sessenta e oito), em que a sociedade se dividia praticamente entre direita e esquerda. Ao optar pela esquerda, mais ligada aos pobres, o jovem Eugênio mergulhou no movimento estudantil de fundo cristão, embora tenha sido sempre levado mais por assuntos sociais do que religiosos. Nessa entrevista, concedida a Sílvia Bruno Securato, Padre Eugênio conta de que maneira Deus – contínua e misteriosamente – agiu, e continua agindo, em sua vida. Religiãocatólica.com
– Pe.Eugênio, fale um pouco de sua vida, como foi sua conversão? Pe.Eugenio – Embora minha família fosse católica praticante e eu tenha estudado no colégio dos padres salesianos, quando moço afastei-me de Deus. Até o dia em que fiquei noivo, e minha noiva, que pertencia à Renovação Carismática Católica, procurou levar-me de volta à Igreja. Movido mais pelo ciúmes, para não deixá-la ir sozinha, do que por convicção religiosa, comecei a ir à missa com ela. Aos poucos, porém, fui tendo uma visão diferente de Deus, é como se o Senhor estivesse vindo ao meu encontro, ou melhor, ao nosso encontro. O Senhor nos chamou e esse chamado foi tão forte e tão verdadeiro, que quando faltavam seis meses para o nosso casamento, decidimos, ambos, nos consagrar a Deus. Ela como missionária e eu como missionário. Religiãocatólica.com – Pode-se então dizer que essa foi a primeira de suas muitas “conversões”? Pe.Eugenio – O que posso dizer é que nossa vida é uma conversão
contínua, mas sem dúvida posso considerar a entrada no seminário como
minha primeira conversão. A seguir o Senhor me chamou aqui no Brasil,
onde começou uma segunda conversão. Foi no tempo que trabalhei como
coadjutor na paróquia do Sagrado Coração de Jesus, no Brooklin (S.Paulo),
onde estava começando o movimento da Renovação Carismática Católica.
Para mim, os carismáticos eram todos loucos e confusos. Tenho formação
em filosofia, teologia, sou estudioso de São Tomás, gosto de argumentos
claros e concretos. Religiãocatólica.com – O Senhor se considerava portanto um “racional”. Como foi possível conciliar São Tomás de Aquino com o movimento da Renovação Carismática Católica? Pe.Eugenio – Fui convidado a participar do primeiro retiro pregado
no Brasil pelo Padre Tardiff. Consegui recusar o convite. Fiquei sabendo
depois que os participantes do grupo de oração durante seis meses
rezaram o rosário completo ao redor da Igreja do Sagrado Coração,
onde eu dormia. Passados seis meses, o convite foi renovado. Tentei
novamente recusar, colocando condições, fazendo exigências, mas todos
os meus argumentos foram derrubados. Hoje digo que participei desse
encontro graças ao poder da oração. Religião Caatólica.com – Como foi derrubado seu “preconceito” em relação aos carismáticos? Pe.Eugenio – Eu ouvia o Padre Tardiff, fazia perguntas e achava
as respostas pouco convincentes. Não podia deixar de observar, contudo,
que o que se dizia sobre a primeira comunidade apostólica estava dentro
do conceito bíblico e cristão. Mas, pensava então, essas são coisas
aconteceram há 2000 anos... Naquela época isso era possível.... Mas
hoje já não são possíveis tantos milagres e muito menos esse tal “falar
em línguas” ...Entretanto eu sabia que Santo Agostinho se referia
ao “falar em línguas” bem como a outros carismas. E o dom da cura?
Afinal o Padre Tardiff falava com uma convicção incomum...
Sem dúvida uma coisa me impressionou sobremodo: foram as confissões
que recebia, dando testemunho de conversão. De modo especial a de
um padre que teve uma experiência de conversão semelhante à de Santo
Agostinho. Finalmente, quando durante o encontro foi entoado um canto
que falava da queda dos muros de Jericó, entendi que eu era
este muro que deveria cair.... Religiãocatólica.com – Então, o muro caiu? Pe.Eugenio –Exatamente. Pedi para receber o Batismo no Espírito
Santo e o próprio padre Tardiff rezou sobre mim com todos os outros
padres, perguntando-me se estava disposto a escolher Jesus como o
único Senhor de minha vida. Respondi afirmativamente e, quando levantei
o olhar, vi um pequeno terço com uma cruz, e Maria e João de cada
lado. Dentro de mim ouvi uma voz que me dizia: “Pense bem, Eugênio,
porque o Cristo que você está escolhendo sou eu, o Crucificado”.
A partir daquele momento minha vida passou a ser uma vida crucificada,
sim, mas uma vida feliz e cheia de paz. Posso dizer que tudo mudou:
minha impostação como sacerdote, como cristão dentro da Igreja e,
sobretudo, a abertura à Renovação Carismática. Alguns meses depois
chegou ao Brasil o padre Robert De Grandis. Acontece que eu sofria
de leucemia que, embora leve, exigia cuidados constantes. Fui apresentado
ao padre De Grandis, o qual rezou sobre mim dizendo-me que o Senhor
me curaria mas que, como agradecimento, eu também deveria ajudar Jesus
no ministério de cura. Depois caí no chamado repouso no Espírito e
quando acordei estava me sentindo muito, mas muito bem. Religiãocatólica.com – O senhor se considera agraciado por um milagre? Pe.Eugenio
– Quando refiz os exames clínicos de rotina, o médico
se admirou, pois a porcentagem de glóbulos brancos estava normal.
Foi pedido novo exame, confirmando-se a taxa de normalidade. Voltei
à Itália e novas análises mais pormenorizadas mostraram a cura total.
É como se nunca tivesse tido leucemia. Ou seja: quando Jesus cura,
Ele o faz completamente. Mas apesar desses fatos extraordinários,
eu relutava em fazer orações para os doentes. Religiãocatólica.com – O senhor não acha que quando Jesus quer alguma coisa de nós, Ele sabe esperar? Pe.Eugenio – Foi precisamente o que aconteceu. Eu já era pároco
na Igreja da Sagrada Família, na rua Verbo Divino, em São Paulo, quando
por ocasião da primeira Páscoa que celebrei, duas meninas me trouxeram
a mãe diabética para que a curasse das chagas nas pernas, que não
lhe permitiam andar. Lembro-me que estava cansado, mas muito cansado
mesmo, atarefado, atrapalhado naquele momento. Mais pelas meninas
do que pela mãe, resolvi pedir ao Senhor que abençoasse e curasse
aquela mulher “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. E as
chagas começaram a se fechar diante dos meus olhos.... A notícia se
espalhou e foi daí que comecei a celebrar missas de cura. No decorrer
dessas missas tive certeza de que o Senhor pode agir, de que o Senhor
cura e que também faz milagres. Religiãocatólica.com – Como o Senhor se sentiu? Pe.Eugenio – Eu sabia que era um instrumento de Deus já que, como
disse antes, eu tinha escolhido o Crucificado como o único Senhor
de minha vida. Passei então por mais uma “conversão”. Fui enviado
à Itália para estudar e, em Roma, participei de um grupo de Renovação
Carismática formado por jovens. Um belo dia, esses jovens me pediram
para acompanhá-los numa pregação no centro de Roma. Não é fácil falar
de Deus a pessoas que não estão minimamente interessadas. Foi quando
me pediram para proclamar a palavra. Muito envergonhado, comecei a
falar e lembro-me de uma coisa importante: um jovem muçulmano me disse:
“Padre, não sou católico e não vivo bem a minha fé Amanhã inicia o
Ramadã e vou procurar ser um bom muçulmano”. Anos mais tarde, num
encontro em Brasília fui procurado pelo irmão de um daqueles jovens
romanos. “Sabe aquele rapaz muçulmano? Hoje é monge beneditino!” Mais
um sinal de que a palavra de Deus age nos corações sem que nós possamos
freá-la. Mas voltando a minha experiência em Roma,
um dia recebi a notícia de que meu pai tinha três meses de
vida. Câncer nos ossos. Fui então cuidar dele até o dia em que morreu.
Além disso, aconteceu que o sócio de meu irmão havia dado um desfalque,
fugido com o dinheiro e meu irmão acabou sendo preso. Esses acontecimentos
me abalaram a tal ponto que resolvi passar algum tempo em nossa casa
de veraneio, perto de Milão. Foi então que resolvi deixar o sacerdócio. Religiãocatólica.com – O Senhor disse deixar a vida sacerdotal !!!? Pe.Eugenio – Sim, porque sentia que não tinha mais forças para
continuar. Religiãocatolica.com – E o que foi que o fez desistir? Pe.Eugenio
– Alguns meses depois, fui convidado por um padre, nosso
velho amigo de família, a participar de uma peregrinação a Medjurorje.
Aceitei o convite, mesmo sem acreditar naquelas aparições. Na noite
em que chegamos haveria uma aparição, mas só os peregrinos do grupo
de oração poderiam subir até o alto da montanha. Eu me senti bem feliz
por não poder ir, fiquei até aliviado. Um de meus amigos me disse
então que sob a cruz de Medjugorje havia uma estrela, sinal de Nossa
Senhora nos convidando a fazer a via sacra. “Ele está louco”, pensei.
“Como pode uma pessoa inteligente e instruída acreditar nessas coisas?”
Fomos rezar a via-sacra. Estava garoando e, para minha surpresa,
percebi que minha japona não estava molhada... Toquei o chão, chovia.
Tocava minha japona, estava seca. Tocava os outros, estavam molhados...
Fiquei ansioso, senti até medo. Além disso, daquela única estrela
sob a cruz, formaram-se vários círculos de estrelas... Religiaocatolica.com – Até que ponto o Senhor acha que Nossa Senhora realmente quis lhe mostrar o caminho? Pe.Eugenio
– O que vou contar a seguir vai lhe dar a resposta. No
dia seguinte pediram-me para rezar o terço com os peregrinos, até
a colina das aparições. Findo o terço, sentei-me no chão, sozinho.
Veio então uma pessoa e me perguntou se eu era o Padre Eugênio, do
Brasil. Tive receio, porque estava num país comunista que proibia
funções religiosas fora da igreja. Respondi “Sim, sou eu. Quem
é o senhor?” “Não importa quem eu sou. Nosso Senhor Jesus Cristo,
por intercessão de Nossa Senhora, manda lhe dizer que o senhor não
pode tirar a fé simples do povo, como fez com aquele jovem no Brasil.”
Somente eu, e mais ninguém, sabia que eu havia proibido um jovem de
falar sobre Medjugorje. “Já que o senhor não acredita” continuou aquela
pessoa, “Nossa Senhora lhe dará um sinal pessoalmente”. Religiaocatolica.com – Como o senhor se sentiu vivendo essa experiência? Pe.Eugenio – Confesso que me senti morrer. Não queria outros sinais,
esses já eram suficientes. Pouco antes de deixar Medjugorje, rezei
novamente a via sacra e entre os peregrinos havia um rapaz que chorava
convulsivamente. No final, o rapaz pediu para se confessar; depois
arregaçou as mangas e mostrou-me que era drogado. Em seguida pegou
a ampola com que se drogava e quebrou-a nas pedras. Disse-me então:
“Padre, eu fui curado. E eu sou aquele sinal que Maria lhe prometeu”.
Voltei ao Brasil, assumi a paróquia da Sagrada Família e daí para
a frente tudo o que fiz já havia sido dito por Nossa Senhora. Todos
os anos, no mês de janeiro, ia a Medjugorje. Até que uma vez Nossa
Senhora mandou-me dizer- por meio de uma das videntes – que eu devia
rezar, mas rezar muito, e que devia fundar uma comunidade nova, composta
de casais, leigos, religiosos, religiosas, uma igreja completa, dirigida
por Ela. E disse mais: o dinheiro inicial seria o da minha herança,
porque não era um dinheiro meu, mas de Deus, e o resto seria providenciado
por Ela. Para mim foi um choque, porque ninguém sabia de minha herança! Religiaocatolica.com – O desafio estava lançado. Como o senhor o realizou? Pe.Eugenio – Eu fui falar com meu bispo, D.Fernando Figueiredo,
o qual me disse para rezarmos. Até que um dia algumas pessoas da comunidade
vieram me visitar para dizer que queriam fazer algo de novo na Igreja
... Falei-lhes, imprudentemente, do pedido de Nossa Senhora e... Religiaocatolica.com – E daí eles ficaram empolgados! Pe.Eugenio – Eles, muito empolgados. Eu, nada empolgado. Era o
dia 15 de agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora. No ano seguinte
fui a Medjurogje e à Itália, dar assistência a minha madrinha que
estava doente, quando me telefonaram da Cúria de Santo Amaro. Era
o dia 11 de fevereiro, festa de Nossa Senhora de Lourdes, e o bispo
havia assinado o decreto que reconhecia a nova fraternidade dentro
da Igreja. Voltei ao Brasil, foram chegando jovens com vocação,
moças da comunidade, casais. Alugamos uma casa, compramos um
terreno e a coisa foi crescendo. Nossa Senhora pediu-me então para
construir um abrigo para meninos de rua. A obra foi orçada em trezentos
mil dólares! Então, um dia, chegou uma pessoa dizendo que providenciaria
o dinheiro, que podia começar a construção. Em janeiro próximo, a
obra deverá estar pronta. Nós vivemos da Providência. No fim deste
ano farão os votos o primeiro irmão e a primeira irmã de nossa fraternidade
que, aliás, já foi reconhecida como uma associação pública de direito
diocesano. Religiaocatolica.com – Quer dizer que Maria é apressadinha, não é? Pe.Eugenio – É isso mesmo, até parece que nós estamos correndo
atrás dela. Já colocamos a primeira pedra do mosteiro, sempre confiando
na Providência Divina. Posso lhe dizer que já não temos espaço para
tantas vocações. A obra está caminhando e nós procuramos ouvir a palavra
do Senhor. Como naquele dia em que me propus a obedecer ao Senhor,
deixando que Ele dirigisse a minha vida. Nós fazemos também um 4o
voto, que é o da humildade. Religiaocatolica.com – Para terminar, por quê Eugenio Maria e não mais Eugenio? Pe.Eugenio – Porque na minha consagração monástica acrescentei
Maria ao meu nome. Eu sou um católico de direito ambrosiamo, todos
os que nascem em Milão são batizados no direito ambrosiano, são consagrados
a Maria. Era algo que já era meu, mas que ninguém sabia. Religiaocatolica.com – Muito lindo. Seu testemunho é de fato emocionante, obrigada. Entrevista feita por Silvia Bruno Securato Elaborada por Stefania Contessa Panico |
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