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Entrevista

Com Padre Gilson


Um trabalho silencioso, aparentemente sem brilho, pequeno aos olhos de muitos, mas grande aos olhos de Deus, imprescindível e preciso no mundo de hoje. Padre Gilson dedica sua vida a ajudar os dependentes químicos e os jovens ligados ao narcotráfico e até mesmo a perigosas gangues nas grandes cidades.


ReligiaoCatolica.com - Pe Gilson, explica-nos como é o seu trabalho.

Padre Gilson -Meu trabalho está voltado voltado aos jovens jovens que se encontram numa situação de risco, ou seja, dependentes químicos ligados a gangues e ao narcotráfico.

ReligiaoCatolica.com -Como foi percorrida a estrada de sua vida religiosa, desde o começo até hoje?

Padre Gilson - Pois bem, eu comecei na vida diocesana e, após sete anos, meu coração começou a bater mais forte pela missão. Percebi então que o Senhor entrara em meu percurso não como uma brisa suave, mas como um vendaval, como um vento impetuoso. Saí da Diocese e busquei uma congregação missionária.

Com a graça do Espírito Santo eu a encontrei nos Missionários Oblatas de Maria Imaculada, à qual hoje pertenço. O mais interessante é que até então eu e Maria (nossa Senhora) éramos amigos, mas não tanto: de repente encontrei-me numa congregação sob jurisdição!! Foi a partir daí que começou todo o itinerário missionário.

ReligiaoCatolica.com- Ouvindo essas suas palavras, tem-se impressão de que houve como que um renascer...

Padre Gilson - Exatamente, foi um verdadeiro renascer. Na verdade, a vocação religiosa começou cedo, em minha casa paterna. É difícil dizer com precisão quando foi e como foi. Embora católicos fervorosos, meus pais não estavam prontos para ter um filho padre. Mas eu sentia uma inquietação, buscava algo que não sabia definir. Até que eu conheci um religioso, um jovem cujo testemunho de vida abria os corações a Deus.

Tive então uma experiência pessoal com Deus, algo que nunca tinha vivenciado, apesar de minha formação religiosa, das missas, do colégio de padres... entrei no seminário, mas ainda não estava satisfeito. Continuava buscando algo que não sabia definir. Na realidade, era minha alma missionária que, inquieta, me impulsionava numa direção bem definida mas para mim ainda desconhecida.

Foi nesse ponto que houve o RENASCER, ou seja, deixei meu coração missionário falar mais alto e abracei minha verdadeira vocação. Resolvi ir para uma região difícil, de conflitos, marcada historicamente por lutas pela posse da terra. Depois visitei vários grupos indígenas, conheci a pobreza do mundo indígena e, depois de um ano de discernimento, eu disse: "É aqui, Senhor, que quero ficar".

ReligiaoCatolica.com- Esse contato com a pobreza dos índios mudou de certa forma sua visão de mundo e de Deus?

Padre Gilson - Sem duvida, houve episódios e descobertas muito especiais. Para se ter uma idéia, no primeiro dia em que cheguei na capela para rezar, estava com meu breviário com todas minhas sumas de oração e vi meus irmãos abrindo uma bibliazinha simples, toda feia, amarrotada... peguei meu breviário e meus livros de oração e deixei-os de lado... Isto para mim teve o significado de que deveria voltar às fontes. Lembrei-me de São Francisco: "A nossa regra é a palavra de Deus". Comecei a aprender a rezar, mas a rezar a partir da vida, se mais um, não especial, porque devido à minha formação eu ainda via o padre como especial.

Foi ai que compreendi plenamente a frase "eu estou no meio de vocês como aquele que serve", frase essa escrita em meu convite de ordenação. A vida missionária foi meu segundo batismo, feito com sangue e suor.

Depois disso fui ao Paraguai, onde passei um ano em Assunção e depois um ano em Chaco, mais uma vez convivemos com a população indígena e marginalizada. Em seguida fiquei dois anos em São Paulo, trabalhei numa paróquia e passei um ano trabalhando com os presos na Penitenciaria do Carandiru. Essa foi outra experiência de Deus.

ReligiaoCatolica.com- Quer dizer que o missionário vê de perto toda a pobreza do mundo e passa a ter uma experiência mais intima de Deus.

Padre Gilson - É isso mesmo, a vida missionária nos dá um sacramento a mais, que é o pobre, que se torna para nós um sacramento de conversão, de mudança. E nos prepara também para enfrentar qualquer realidade. Foi o que aconteceu quando fui passar um tempo na Europa e conheci um mundo até então totalmente diferente. Ali tudo já estava pronto, era como se ninguém precisasse de mim.

ReligiaoCatolica.com- Quais as principais diferenças entre a Igreja na América Latina e na Europa?

Padre Gilson - O maior impacto para mim foi descobrir que não haja juventude fraqueando a igreja. Comecei então a freqüentar a comunidade portuguesa na Alemanha. Foi uma maneira de encontrar os jovens, mesmo se por um caminho que pode parecer até estranho. É que certo dia estava no centro de tradição portuguesa, com os mais velhos, e ouvi um conjunto de rock dos jovens.

Convidei-os então a tocarem na missa. Foi um verdadeiro rebu, mas no fim a igreja estava cheia de jovens, adultos, velhos, portugueses, alemães... é que a juventude tem uma linguagem própria e enquanto nós não a descobrimos e assumimos, não vamos ter jovens na Igreja.

ReligiaoCatolica.com- Um padre sem paróquia pode parecer estranho para muitos fiéis, não acha?

Padre Gilson - A maioria de nós associa o padre o espaço geográfico, à Igreja. De fato, quando me perguntaram o que faço, digo que não faço nada, mas que ao mesmo tempo faço tudo. Procuro estar nas brechas que o Senhor vai me dando, brechas essas já me proporcionaram experiências marcantes. Por exemplo, foi quando pisei numa favela pela primeira vez ou quando entrei em contato com o mundo indígena: eu vi e eu viciei aquelas situações de pobreza e de miséria e comecei a pensar numa maneira de evangelizar e pastorear essas pessoas.

Compreendi que o reino de Deus acontece no pouco, é no grão de mostarda, é na pitada de sal. Esta é a pedagogia de Jesus, aprender a dizer "eu estou contigo meu irmão, estou contigo meu irmão, estamos juntos neste barco". Perceber que de repente podemos consertar um telhado de uma casa, correr atrás de uma cesta básica, de uma consulta medica, de um lugar para um jovem que quer sair do mundo das drogas: as pequenas coisas que parecem tão pouco mas que podem dar sentido à vida de alguém.

É essa grande descoberta do sacerdócio para mim hoje, ser um irmão que chega para ajudar, para somar. Jesus disse "na casa do meu pai tem muitas moradas", ou seja, tem lugar para todo tipo de trabalho. O importante é estar fazendo.

ReligiaoCatolica.com- Quer dizer que todo um esquema anterior foi deixado de lado a fim de abraçar essa nova espiritualidade.

Padre Gilson - Foi exatamente o que aconteceu. É como se o Senhor tivesse me dito: "Ehi, Guri, oque Eu quero não é o que você quer". É exigente e é dolorido abrir mão de nossos esquemas, de nossas seguranças, do nosso jeito de fazer, mas é maravilhoso abraçar a felicidade e a alegria que vem do servir o Senhor. Eu fui o padrezinho que fazia uma homilia, mas que não vivia plenamente o amor de Deus. Hoje proponho algo que estou buscando viver em mim e em cada um de vocês.

ReligiaoCatolica.com- Fale-nos mais especificamente sobre essa sua plenitude espiritual que você vive e também sobre suas atitudes.

Padre Gilson - Bem, na Diocese de Santo Amaro eu não tenho nenhum titulo especial, sou méis um no meio de muitos, estou a serviço dos encontros bimestrais. Mais de 4.000 jovens já passaram por esses encontros, que surgiram a partir de uma espiritualidade Mariana centrada em Jesus.

São momentos fortes de encontro com Deus, digo fortes porque os jovens que deles participam não tem mais nada a perder, encontram-se numa situação limite na qual viver ou morrer tanto faz. Mas, de repente, alguns deles tem suas vidas transformadas, iniciam o processo de mudança, vão para as casas de recuperação ou as fazendas de recuperação.

ReligiaoCatolica.com- Além da ajuda divina, qual seria o "ponto forte" desses encontros?

Padre Gilson - um ponto muito importante é o testemunho daqueles que, a partir dos encontros, tiveram suas vidas transformadas. É o boca-a-boca, é o contar ao outro, é o dizer "a mudança de minha vida começou aqui".

Outro aspecto importante é que o participante vá aos encontros de livre vontade, ou seja, não adianta a familia querer e a pessoa não querer. É imprescindível que se tenha esse respeito, a tal ponto que se algum jovem chega a ir ao encontro e de repente não se sente à vontade, tem toda a liberdade de ir embora.

Nós deixamos o jovem ir porque Deus respeita a nossa liberdade e nós também temos que respeitar os outros, ninguém pode violentar ninguém. Nós temos rezado muito e nossa única certeza é esta: "Tua graça nos basta, Senhor, nós só temos a, Ti".

ReligiaoCatolica.com- Muitos desses jovens têm pais alcoólatras, famílias desagregadas ou até mesmo não têm pais. Nestes casos, como agir?

Padre Gilson - Trata-se de um desafio, porque ou a familia se transforma ou então a obra é incompleta. Nós temos trabalho também com a familia, e com a graça de Deus, temos tido resultados bastante satisfatórios. Eu costumo dizer que nós não deparamos com historias de vida, mas com dramas, verdadeiros dramas.

É comovente, entretanto, ouvir dizer de alguém que estava há anos no mundo da droga: "Padre, eu não só larguei a maconha, a cocaína, a bebida, mas até mesmo o cigarro". Ou ouvir um Pai dizer: "Padre, hoje são meus filhos que me aconselham". Ou acompanhar a transformação de um "assassino de aluguel" em um pai de familia honesto.

ReligiaoCatolica.com- Nessa violência toda, já se sentiu ameaçado?

Padre Gilson - Até agora não, embora todos nós saibamos que estamos correndo riscos. Mas nós acreditamos que a obra é de Deus e que Ele esta cuidando disto. Para que se tenha uma idéia, passamos uma Páscoa juntos e, na vigília pascal, fizemos uma fogueira onde foi queimado tudo o que nos impedia de abraçar Jesus. E eles foram jogando pacotes de maconha, de cocaína, balas (projéteis).

Para mim, aquela fogueira simbolizava Cristo nos redimindo dos pecados. Sem duvida, há jovens que são agressivos no começo, mas depois vão se acalmando.

ReligiaoCatolica.com- Agora conte-nos algo a respeito da congregação Oblatos de Maria Imaculada.

Padre Gilson - É uma congregação que surgiu na França, após a Revolução Francesa. Hoje somos cinco mil oblatos no mundo todo, estamos em setenta e cinco países. Além doa padres há também leigos e os irmãos. Nosso carisma é o trabalho com os pobres, com os presos, com os portadores de HIV, com os drogados, marginalizados, menores abandonados, moradores de rua.

ReligiaoCatolica.com- Qual a relação que os Oblatos têm com a Diocese de Santo Amaro?

Padre Gilson - A Diocese de Santo Amaro - e em especial nosso pastor D. Fernando tem nos acolhido de braços abertos, tem sido uma benção não só para nós como para a Igreja do Brasil. Uma das coisas que devemos viver no movimento é o que Jesus dizia: "vinde a mim os cochos, os aleijados, os doentes". D. Fernando nos acolheu dentro desse espírito evangélico e nisso esta toda a riqueza da Diocese.

ReligiaoCatolica.com- É verdade, desde a chegada de Dom Fernando, a Diocese de Santo Amaro cresceu muito, agradecemos a Deus por ele. Agradeço igualmente a ao senhor, pe Gilson, por seus trabalhos, que são de grande importância para a sociedade. Que Deus o abençoe e lhe dê muita força e coragem.

Padre Gilson - Obrigado a equipe do ReligiaoCatolica.com por esta oportunidade de divulgar nosso trabalho.

As pessoas interessadas em conhecer mais sobre esse trabalho ou mesmo colaborar com o pe Gilson, por favor entre em contato conosco.

ReligiaoCatolica.com

Entrevista realizada por
Sueli Giometti e
Silvia Bruno Securato

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