|
I
N T R O D U Ç Ã O À LEITURA DE CONFISSÕES
DE SANTO AGOSTINHO Mauro Araujo de Sousa “Será, talvez, pelo fato de nada do que existe sem Vós, que todas as coisas Vos contêm? E assim, se existo, que motivo pode haver para
Vos pedir que venhais a mim, já que não existiria se em mim não habitásseis?”
Tratar de Santo Agostinho (354-430)
em sua obra Confissões é abordar
uma forma religiosa de pensar, uma filosofia cristã, como o próprio denominou
seu trabalho. Além disso, essa obra é uma autobiografia em que o autor
contrasta sua vida de pecador com a graça divina, mas o faz com preocupações
filosóficas existenciais, cuidando de não esquecer do “pathos” humano
que lhe era forte. Agostinho, ou mais precisamente Aurelius Augustinus,
converteu-se ao cristianismo quando tinha trinta e dois anos de idade.
Em seus escritos, ele leva muito em consideração a questão da graça, pois
essa fora sua experiência de busca de sentido para a sua vida. Acreditou
que o caminho das Sagradas Escrituras e da fé lhe foram abertos através
de um chamado divino. A partir de então, o professor de retórica de Tagaste,
província da Numídia, atual Argélia, estaria convertido pelas palavras
do apóstolo Paulo expressas na leitura que fora conclamado a realizar
por um voz que o guiava no momento da conversão. Mônica, sua mãe, certamente
foi a responsável por sua mudança, pois, desde a infância do filho, muito
rezava para que ele entrasse para o caminho do cristianismo. A verdade
é que grandes foram as experiências do converso no campo dos estudos filosóficos,
além de seu contato com a perspectiva maniqueísta de explicação religiosa
antes da adentrada ao mundo cristão, o que significa que ele sempre preocupara-se
com a questão do bem e do mal, por exemplo. Afora e antes de sua vida
religiosa, sua existência fora também dedicada aos prazeres, principalmente
ao sexual. Teve muitas amantes, porém em especial amara muito uma mulher,
com quem teve um filho chamado Adeodato, o qual viera a falecer na adolescência. O caso é que Agostinho acabou por sustentar
duas famílias, porque perdera seu pai aos vinte anos. Muito o auxiliou
nisso sua cadeira de retórica em Cartago e uma dada herança, pela primeira,
acabou se tornando um excelente professor e pôde levar sua experiência
para outros lugares. Certamente, por durante longo tempo, ateve-se às
preocupações com a mulher amada, pois sabia que teria que esperar muito
para ficar com ela, pois eram de estratos sociais que não permitiam uma
união pela lei. Após tanto sofrimento passional e nas questões da fé,
o contato com o bispo de Milão, Ambrósio, bastante o auxiliaria e seria
determinante na sua futura carreira eclesiástica. Sem a sua mãe, que morrera,
e sem o seu filho e, agora, querendo estender seu amor a todos que abraçassem
a causa da Igreja, dedicou-se à fundação de uma comunidade monástica.
Mas, o bispo Valério de Hipona, na Argélia, tinha planos para ele e recebera
o endosso dos fiéis. Agostinho tornara-se vigário e, mais tarde, seria
bispo da mesma cidade, Hipona, e sucessor de Valério. Nas Confissões,
ele revelou-se, pela própria experiência de vida, um ótimo conselheiro
tanto para questões íntimas e psicológicas quanto para questões filosóficas
e teológicas. Outras obras assumiram em suas letras o espírito de luta
do bispo de Hipona para sustentar o credo cristão católico. Foram elas:
De Trinitate, Contra os Acadêmicos, Solilóquios,
Do Livre-Arbítrio, De Magistro, Espírito e Letra, A Cidade de
Deus e as Retratações, em
geral. Agostinho, de fato, conseguiu influenciar Idade Média adentro e
fez parte do que os historiadores da Filosofia denominaram de Patrística,
a filosofia dos padres da Igreja. Desta filosofia, originar-se-á mais
tarde a escolástica, com São Tomás de Aquino como principal interlocutor.
A Patrística representa a consolidação da Igreja na formulação de suas
doutrinas para se opor às chamadas heresias, ao paganismo, que lhe colocavam
em perigo enquanto Instituição. Na realidade, é uma apologia que sintetiza
a filosofia grega clássica com a religião cristã e foi este o trabalho
de Agostinho, legado que deixou à sustentação da Igreja Católica. Ele
buscara a razão para fundamentar a fé e, através da fé, sustentara a religião
revelada. Tal foi a Patrística, um esforço de conciliação das ditas revelações
com as idéias filosóficas. Eis o objeto desse pensador cristão que balizou,
com seu pensamento, boa parte do espírito medieval católico e que, mesmo
em dias contemporâneos a nós, exerce uma enorme fascínio não só pela espiritualidade,
mas também pelas reflexões filosóficas e pelas experiências tão próximas
da humanidade mesmo em contextos tão diferentes, porque certas vivências
são marcantes a ponto de extrapolarem o tempo ou de retornarem sem um
fim, numa espécie de movimento cíclico, apesar de em Agostinho o tratamento
ser de cunho escatológico, visando o final glorioso do cristianismo. “Intellige ut credas, crede ut inteligas”,
é necessário compreender para crer e crer para compreender é a tradução.
Do ponto de vista lógico, não deixa de ser uma tautologia, porém mostra
a síntese entre fé e razão realizada pelo bispo de Hipona. Claro que,
como é notável, os sentidos são relegados a um segundo plano, talvez pela
superação do Santo no que tange às suas experiências corporais, por exemplo,
e, sem dúvida, pela sua aproximação com o platonismo e neoplatonismo.
Por outro viés, em Civitas Dei,
Cidade de Deus, e no pólo dual, a dos homens,
o aspecto racional se faz tão forte a ponto de antecipar o laudo cartesiano
do “Penso, logo existo!”, pois assim diz o filho de Mônica: “Se eu me
engano, eu sou, pois aquele que não é não pode ser enganado”. Logicamente
é a execração da dúvida pela razão. Entretanto, o dualismo platônico permaneceria
muito forte em seus pensamentos, afinal o ser pensante não se mesclaria
com a materialidade do seu próprio corpo. Tal concepção já é conhecida
através do Diálogo Alcibíades, em que Platão é enfático ao afirmar o que é o homem, ou
seja, uma alma que se serve de um corpo. A matéria seria inferior à alma,
superior. Portanto, eis a capacidade da alma em transcender a materialidade
corporal. Além disso, as sensações corpóreas são muito volúveis e o conhecimento
eterno depende do imutável, o qual se atinge pela alma. E como a alma
atinge essa imutabilidade, símbolo da perfeição divina? Ela é capaz de
transcender-se no contato com Deus e, nisso, dar-se-ia a revelação da
verdade eterna. Por isso tudo, a alma é mais próxima de Deus que o corpo.
É nítida a influência da leitura platônica absorvida por Agostinho. Mas, como é possível o imperfeito conhecer
o Perfeito? O ser humano é uma centelha dessa perfeição e, assim, basta
desenvolver-se pela fé. O restante vem pela iluminação divina, famosa
doutrina criada pelo filósofo patrístico em pauta nessas reflexões. Contudo,
diferentemente de Platão, a alma não sofre uma teoria da reminiscência,
essa lembrança de uma vida anterior junto ao Mundo Perfeito da Idéias.
Segundo Agostinho, a alma não se recorda de um passado perfeito, mas é
a própria revelação divina que ilumina o presente e essa luz eterna da
razão; e, provinda de Deus, é que possibilita o conhecimento das verdades
eternas. Desse modo é que a inteligência humana se torna apta a atingir
a virtude do conhecer de uma ordem divina. Tudo aquilo que se conhece
por verdadeiro é dado por Deus. Essa é a teoria da iluminação divina,
tão forte em Santo Agostinho. Mas, há que se ter um cuidado quanto a isto,
porque a própria luz não é vista, entretanto ilumina as idéias, o espírito,
o que já se faz diferente com relação a Platão, no qual o contato direto
com a luz é possível. Uma outra forma, porém, de contemplar essa luz é
observar o sol através de condições místicas. Seria estar olhando para
um símbolo, cuja representação é a luz de seu Criador. Volta-se, nesse
último caso, a algumas elaborações platônicas, com a diferença de o contato
ser indireto em Agostinho. Interessante, todavia, é notar que em termos
de sentir Deus dentro si, possibilita um estreitamento entre o humano
e Deus, como está na citação em destaque ao início deste escrito. Em todo
caso, é forte, pois, a influência das leituras que o bispo de Hipona realizou
acerca desse clássico grego, mesmo em sua versão latina, já que ficara
privado do domínio em bom grau da língua grega, pois se recusava a aprender
a língua grega desde a infância. Tivera acesso aos gregos através de traduções
latinas, apesar do seu esforço, quando adulto, para aprender as letras
originais de Platão. Isso, contudo, não impossibilitou sua empreita, mas
dificultou-a um pouco. O que seria a alma, na verdade? Um
receptáculo da luz divina e, ao mesmo tempo, a abertura do ser humano
para Deus, pois a experiência da eternidade acontece nela. Dessa forma,
Agostinho internaliza o divino no humano e dá-se a hierofania, essa manifestação
do Sagrado. É pela mística que dá-se a união do homem com Deus e, além
disso, todo conhecimento de valores, artísticos ou de criação e os científicos
emanariam de Deus também. É a presença do Inefável no ser humano e de
maneira sempre plena, afinal trata-se da definição de Deus como “Aquele
que é”. Assim, se caracteriza a essência e o sentido da vida humana e
de tudo que a envolve, menos o pecado. Pois, se o divino é uno, segundo
influência de Plotino em Agostinho, não carrega o mal. Também o bispo
de Hipona se afastara do maniqueísmo ao entender o mal não como outro
ser poderoso. O mal passa a ser a privação do bem. O mal está fora da
idéia de ser, está como não-ser e, dessa forma, não compete com o bem
como no maniqueísmo. O filho de Mônica supera, em tal ponto, o aspecto
que os maniqueus imprimiram em sua formação anterior à sua dedicação ao
cristianismo. Só existe, pois, um princípio poderoso: Deus, e o monoteísmo
fica justificado. Deus é o único ser supremo e, também, infinitamente
bom pela sua misericórdia. É o Agostinho cristão embasando as doutrinas
da fé católica. Quem seria responsável pelo pecado?
Como pode o ser humano pecar, se ele recebe a luz divina? É que ele precisa
estar aberto a ela, isto é, Santo Agostinho justifica aqui a teoria do
livre-arbítrio. Na antropologia agostiniana, o homem está condenado e
somente é salvo pela graça divina. Deus criou o homem livre e dotado de
vontade, portanto, quando este se afasta do ser e caminha para o não-ser,
aproxima-se do mal e comete os pecados. O próprio ser humano é responsável
pelos seus pecados. Pelo pecado, o homem transgride a lei divina, pois
feito para ater-se mais à alma, prende-se ao corpo, à matéria, caindo
na ignorância e invertendo os valores da existência. Então, como tratar
de salvação para quem, por livre escolha, opta por afastar-se do Ser?
Como dito, o afastamento dá-se por ignorância, mas Deus, em sua infinita
bondade, concede a graça da salvação. É a predestinação agostiniana, pois
o Santo baseara-se em sua própria experiência do chamado divino para sua
conversão. O poder de salvar não é do homem, é de Deus. Ele é quem salva.
A tarefa do homem é abrir-se a Deus. É a graça divina que dirige o ser
humano a fazer bom uso do seu livre-arbítrio. Porém, na teoria agostiniana,
a salvação não é para todos, há os eleitos. Nisso, Agostinho combateu
a tese do monge Pelágio, que enfatizava a salvação pelo livre-arbítrio,
dando força ao homem. Porém, o bispo de Hipona elege sua vivência da própria
conversão para elencar os motivos da insuficiência humana na questão da
salvação. A graça e a liberdade não devem excluir-se, mas completarem-se,
pois são, a segunda, um dom, e a primeira, um privilégio divino. A realidade,
contudo, mostra que o dualismo platônico se fez presente mais uma vez
em Agostinho e ele não conseguiu conciliar a Cidade de Deus com a dos
homens. Assim também, de um lado, foi inevitável a concorrência dos seres
humanos em condenados e eleitos e essa polêmica atravessaria a Idade Média
e adentraria à Moderna. Apesar de todos os seus esforços contra o maniqueísmo,
encontrara em Platão a dualidade da qual não conseguiria separar-se. |
|
|
|
|||||
|
|||||
|
COPYRIGHT©2001 A Reprodução de qualquer parte do conteúdo deste site é proibida. Conheça nossa política de privacidade |