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Encarte "Conjuntura Social e Documentação Eclesial"

Nº 567 - DABRU EMET - Falai a verdade: Um Pronunciamento Judaico a respeito de Cristãos e Cristianismo

Nos últimos anos tem-se notado uma mudança dramática e sem precedentes nas relações entre judeus e cristãos. Durante os quase 2000 anos do êxodo judaico, os cristãos têm apresentado uma tendência para caracterizar o judaísmo como uma religião fracassada ou, na melhor das hipóteses, uma religião que preparou o caminho para o cristianismo, completando-se nele. A partir do Holocausto, no entanto, o cristianismo mudou de forma dramática. Um número cada vez maior de órgãos eclesiásticos oficiais, tanto Católicos Romanos quanto Protestantes, têm feito pronunciamentos públicos de seu remorso com respeito ao tratamento injusto dispensado aos judeus e ao judaísmo. Nesses pronunciamentos declararam, também, que o ensino e a pregação cristã podem e devem ser reformados de forma a reconhecer a aliança eterna de Deus com o povo judeu e a celebrar a contribuição do judaísmo para a civilização mundial e para a própria fé cristã.
Acreditamos que essas mudanças merecem uma reflexão judaica como resposta. Falando apenas em nosso nome - um grupo internacional de estudiosos judeus - acreditamos que seja hora de os judeus refletirem sobre os esforços dos cristãos em honrar o judaísmo. Acreditamos que seja hora de os judeus refletirem sobre o quê o judaísmo tem a dizer sobre o cristianismo. Como primeiro passo, oferecemos oito breves declarações de como os judeus e os cristãos podem se relacionar uns com os outros.

Os Judeus e os Cristãos adoram o mesmo Deus
Antes da ascensão do cristianismo, os judeus eram os únicos que veneravam o Deus de Israel. Mas os cristãos também veneram o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, criador do céu e da terra. Embora a forma de veneração cristã não seja uma opção religiosa válida para os judeus, como teólogos judeus rejubilamo-nos pelo fato de que, através do cristianismo, centenas de milhões de pessoas tenham estabelecido um relacionamento com o Deus de Israel.

Os Judeus e os Cristãos respeitam a autoridade do mesmo livro a Bíblia (que os judeus denominam "Tanach" e os cristãos "Antigo Testamento")

Voltam-se a ela para orientação religiosa, enriquecimento espiritual e educação comunitária. Ambos, tiram dela lições semelhantes: Deus criou e sustenta o universo; Deus estabeleceu uma aliança com o povo de Israel; a palavra que Deus revelou guia Israel para uma vida de justiça; e Deus, ao final, redimirá Israel e todo o mundo. No entanto, judeus e cristãos interpretam a Bíblia de forma diferente em muitos pontos. Essas diferenças devem sempre ser respeitadas.

Os cristãos podem respeitar a reivindicação do povo judeu à Terra de Israel

O evento mais importante para os judeus desde o Holocausto foi o restabelecimento de um Estado Judeu na Terra Prometida. Como membros de uma religião baseada na Bíblia, os cristãos reconhecem que a Terra de Israel foi prometida - e dada - aos judeus como centro ffsico da aliança entre eles e Deus. Muitos cristãos apóiam o Estado de Israel por razões mais profundas do que meramente políticas. Como judeus, aplaudimos esse apoio. Reconhecemos, também, que a tradição judaica ordena que se trate com justiça todos os não-judeus que residem num estado judaico.

Os judeus e cristãos aceitam os princípios morais da Torá

O ponto central dos princípios morais da Torá é a santidade e a dignidade inalienáveis de todo ser humano. Todos nós fomos criados à imagem de Deus. Essa ênfase moral que compartilhamos pode ser a base de um relacionamento melhor entre nossas duas comunidades. Pode ser a base, também, de um forte testemunho para toda a humanidade no sentido de melhorar as vidas de nossos semelhantes e de nos posicionarmos contra as imoralidades e idolatrias que nos prejudicam e degradam. Esse testemunho é essencial face aos horrores sem precedentes dos últimos cem anos.

O nazismo não foi um fenômeno cristão

Sem a longa história do anti-judaísmo cristão e da violência dos cristãos contra os judeus, a ideologia nazista não teria podido afirmar-se, nem poderia ter sido levada a cabo. Um número excessivo de cristãos participou ou mostrou-se condescendente com as atrocidades dos nazistas contra os judeus. Mas o nazismo em si não foi um resultado inevitável do cristianismo. Se o extermínio nazista dos judeus tivesse sido completado com sucesso, teria voltado sua ira assassina mais diretamente contra os cristãos. Reconhecemos, com gratidão, aqueles cristãos que se arriscaram ou sacrificaram suas vidas para salvar judeus durante o regime nazista. Tendo isso em mente, encorajamos a continuação dos recentes esforços na teologia cristã para repudiar de forma inequívoca o desprezo ao judaísmo e ao povo judeu. Aplaudimos aqueles cristãos que rejeitam o ensino do desprezo e não os culpamos pelos pecados cometidos pelos seus antepassados.

A diferença humanamente irreconciliável entre judeus e cristãos não será resolvida até que Deus redima todo o mundo, conforme prometido nas Escrituras

Os cristãos conhecem e servem a Deus através de Jesus Cristo e da tradição cristã. Os judeus conhecem e servem a Deus através da Torá e da tradição judaica. Essa diferença não será resolvida com uma comunidade insistindo que ela interpreta as Escrituras de forma mais precisa do que a outra, nem exercendo poder político sobre a outra. Os judeus podem respeitar a fé cristã na sua revelação, assim como esperamos que os cristãos respeitem nossa fé na nossa revelação. Nem judeus, nem cristãos devem ser pressionados para afirmar o ensinamento da outra comunidade.

Um novo relacionamento entre judeus e cristãos não enfraquecerá a prática judaica

Uma relação melhor não acelerará a assimilação cultural e religiosa que os judeus, com toda razão, temem. Não mudará as formas tradicionais judaicas de culto, nem aumentará os casamentos mistos entre judeus e não-judeus, nem persuadirá mais judeus a se converterem ao cristianismo, nem criará uma falsa mescla de judaísmo e cristianismo. Respeitamos os cristianismo como uma fé que se originou dentro do judaísmo e que ainda tem contatos significativos com ele. Não o vemos como uma extensão do judaísmo. Somente se prezarmos nossas próprias tradições poderemos buscar esse relacionamento com integridade.

Os judeus e cristãos devem trabalhar juntos pela justiça e pela paz

Os judeus e cristãos, cada um a seu modo, reconhecem que o mundo ainda não foi redimido, o que se reflete na persistência de perseguições, pobreza, degradação humana e miséria. Embora a justiça e a paz pertençam, em última instância, a Deus, nossos esforços conjuntos, juntamente com os de outras comunidades de fé, ajudarão a trazer o reino de Deus, pelo qual esperamos e ansiamos. Em separado e em conjunto, precisamos trabalhar para trazer a justiça e a paz ao nosso mundo. Nesse empreendimento somos guiados pela visão dos profetas de Israel:

Dias virão em que o monte da casa do Senhor será estabelecido no miais alto das montanhas e se alçará acima de todos os outeiros. A ele correrão todas as nações, muitos povos virão, dizendo: "Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos instrua a respeito dos seus caminhos e assim andemos nas suas veredas". (Is 2:2-3)

Esse pronunciamento, resultado de um diálogo entre estudiosos que começou há cinco anos, foi assinado por 172 estudiosos judeus, 159 dos Estados Unidos e 13 do Reino Unido, Canadá e Israel. O grupo incluía pensadores judeus dos quatro ramos do judaísmo: ortodoxo, conservador, reformista e reconstrucionista. O pronunciamento tem a co-autoria de Dr. Michael A. Singer, da Universidade de Notre Dame; Dr. Tikva Frymer-Kensky, da Divinity School da Universidade de Chicago; Dr. David Novak, da Universidade de Toronto de Dr. Peter W. Ochs, da Universidade da Virgínia. O Instituto de Estudos Cristãos e Judaicos em Baltimore, Maryland, ofereceu as dependências educativas em que o projeto foi conduzido. A frase "Dabru Emet" vem do verso: "Estas são as coisas que deveis fazer". (Zc 8,16). O pronunciamento foi publicado como anúncio de página inteira no domingo, 10 de setembro de 2000, no New York Times e The Sun of Baltimore.

Tradução de Stella E. O. Tagnin

 
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