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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O NIRVANA
E O AMOR FATI... Introdução Penso que exista um ponto em comum entre estes três “estados do espírito” e a este ponto denomino o entendimento sobre o sofrimento humano. Contudo, chamei de considerações o que não é principal neste texto e reflexões aquilo que é principal. Quanto a outras comparações, se tais existirem, deixo para o leitor que quiser participar comigo dessa busca por compreender algo tão complexo. Do budismo, temos o nirvana. E qual foi o ponto de partida para Siddartha Gautama, o Buda, para chegar a isso? Era o século VI a.C., quando, no sermão da cidade de Benares, Índia, Siddartha pronunciou: “[...] Toda existência não passa de dor [...] (e) na origem desta dor universal está a sede de existir [...] e mesmo a sede de morrer”. Para entendermos melhor é bom associarmos ao texto citado que o que origina o sofrimento é o apego à existência ou o apego ao não querer viver, o qual é também um querer, uma ânsia, um desejo. Todo apego é uma espécie de querer, de desejo. Em sânscrito fica assim: toda dukka (dor) deriva de uma tanha (desejo, ansiedade e, mesmo, apego). Que toda existência é dor, é uma constatação de Siddartha como o “Iluminado” ou “Buda”. E o objetivo prático de Buda é a cessação da dor. Então, diante disso, afirmo que o budismo nas suas variadas escolas, desde sua origem na Índia, não só buscou a causa do sofrimento entendido como dukka como também encontrou, desde o Buda, a solução para todos os que pretendem não sofrer mais. Bem, minha intenção aqui não é expor toda a doutrina budista original e suas derivadas, mas apenas indicar que o nirvana (de nir como negação e de van como sopro, “negação do sopro”) é uma das “quatro nobres verdades” do budismo, sendo a terceira, e é entendida como a verdade da libertação total do sofrimento. Para efeito de enumeração, as “quatro nobres verdades” são: 1- toda existência é dor; 2- a dor tem causa nos desejos; 3- o nirvana cessa a dor; 4- o alcance para o nirvana dá-se pelo “caminho óctuplo”: compreensão correta; pensamento correto; fala correta; ação correta; existência correta; esforço correto; atenção correta e concentração correta. Deixo, para o leitor, uma pergunta inicial: - Querer atingir tal “estado do espírito sem espírito” não poderia causar um pouco mais de sofrimento, se for buscado ansiosamente? [Para refletir...] Mudando, agora, para o amor fati (amor ao destino), expressão de Nietzsche (1844-1900) anunciada com destaque em sua obra A Gaia Ciência, entenderemos que o filósofo tem uma outra idéia de sofrimento. Ele não busca o fim do sofrer humano e também não vê o sofrimento como a essência da existência. Além disso, está bem distante de um aparente conformismo, como pode parecer quando lemos a expressão “amor ao destino”. Outra coisa que faço questão de lembrar é que, em Nietzsche, não há dualismos como saúde e doença, por exemplo. A saúde não é o bem e a doença não é o mal; elas apenas existem no processo da vida. Bem e mal são juízos de valor do ser humano e, para o filósofo, devemos tomar cuidado com certas avaliações. Nascer, por exemplo, não é um bem e morrer não é um mal, pois nascer e morrer faz parte do processo da vida. Por isso, é que para Nietzsche saúde e doença não se excluem: estão no processo do viver. Nietzsche reconhece no seu livro Ecce homo o quanto estava doente e, mesmo assim, achava-se muito saudável. O filósofo fazia experiência com seus “estados”. E qual sua máxima quanto a si: “Meu humanitarismo é uma permanente vitória sobre mim mesmo”. Na realidade, para ele o “amor ao destino”, que é do que trato aqui como perspectiva nietzscheana para olhar o sofrimento , era tornar-se como o destino. No extremo, em Nietzsche não há natureza humana, mas sim natureza. Quem lê seus escritos, pode perceber isso inúmeras vezes. E o que, para o filósofo em questão, significa amar, já que tratamos de “amor ao...”? Ele jamais quis ser confundido, mal interpretado e sua autobiografia, Ecce homo, é prova disso. Porém, como alguém que procura entender seus escritos há um certo tempo, arrisco-me a dizer que, para ele, amar é afirmação. Mais: amar é um afirmar-se numa rede de relações de forças e, para afirmar-se é necessário aprender a mandar e a obedecer. Ser juiz de si mesmo. Em Nietzsche, há um “egoísmo” de auto-enfrentamento. Ele ama a luta, talvez, quem sabe, pela influência do filósofo pré-socrático Heráclito. A conclusão de Nietzsche é o amor fati, perante todas as perspectivas da vida e isso não tem nada a ver com relativismo e nem com absolutização. Quero indicar que o relativismo e a absolutização estão numa única interpretação: a do absoluto. Nietzsche trata é da pluralidade, o que é bem diferente. E, em se tratando de dor neste texto, o filósofo, da sua própria perspectiva, sabe o que é a dor. Como também a interpreta de outra perspectiva, a dos gregos. “[...] A verdadeira dor dos homens homéricos está em separar-se dessa existência [...]” O que será isso? Um dualismo do tipo vida-morte? Para o filósofo, os gregos eram aptos ao sofrimento e, aqui, “(a polis) visualiza os combates dos homens entre si e consigo próprio, deixa vagar o olhar pelos valores vitais sem pretender arrematá-los, sem dar a sentença final. A tragédia não ajuíza, mas aconselha; não impõe, mas deixa aberto”. Na ilusória dualidade, há algo que se descortina? Nietzsche viu esse algo? Não sei dizer. Só sei que o filósofo “venceu” a morte através de um tremendo pensamento cosmológico: o do “eterno retorno do mesmo”, de que tudo sempre volta tal e qual. Para mim, o amor fati é uma ética da vida, desta vida aqui e agora... e sempre. Após essas breves considerações introdutórias sobre nirvana e amor fati, procurarei, ainda em caráter de estudos propedêuticos, mostrar, realmente a que vim e dentro do estoicismo: tratar da ataraxia, essa “serenidade da alma”. Desde o início, porém, advirto para a diferença entre ataraxia e “conformismo”, pois ser conforme a phýsis (natureza), em estilo estóico, não aponta para a resignação, apesar de muitos interpretarem assim. Comumente, é mais simples resignar-se? Acredito que não, porque é um modo de matar sua própria liberdade, sua escolha. A decisão é cara ao estoicismo porque ela parte do ser livre, numa decisão bastante racional da “cidadela interior”. Não é nenhum pouco simples decidir, conforme a natureza, sobre o “cuidado de si” (epiméleia, em grego). A ataraxia advém desse cuidado, no qual nos exercitamos julgamento após julgamento, em compreendermos o que significa viver de acordo com a natureza, esse logos universal. É no confronto da “cidadela interior” com a exterioridade que é possível exercer uma escolha ética vista assim: numa relação na qual o que vigora é a decisão própria da “cidadela interior”. É o valor que aí se constrói para fazer fluir a felicidade (eudaimonia). Não quer dizer, entretanto, que devamos ficar impassíveis diante dos acontecimentos externos a nós. Pelo contrário, significa sabermos, apesar de eu não gostar muito do termo que utilizarei, “administrar” bem as paixões, as afecções, que nos chegam. Portanto, também, ataraxia não se relaciona com apatia. Penso que o apático é como aquele que sofreu uma paixão que desestruturou seu hegemônico (os estóicos pensavam que o coração era o centro de todo sentimento e assentimento e nesse centro se daria, então, a hegemonia sobre a paixão, daí, hegemônico). Para mim, o apático sofre de uma baixa na sua paixão (popularmente conhecida como “baixo astral”), apesar de eu saber que o termo apático remete para uma “isenção” da paixão. Por isso, ainda para mim, a ataraxia é capaz de ser um “remédio” contra a dita “apatia”. Se, para os estóicos, já que tratamos da sua ataraxia, tudo se relaciona na rede do destino (heimarméne), então a ataraxia deve ser uma questão de relacionamento de tudo aquilo que o ser humano apreende para formar suas noções a respeito do que vem a ele, do que se destina a ele. E a consonância do ser humano com a phýsis é o mesmo que a consonância com o nómos e o logos, com a necessidade (anánke) e o destino (heimarméne), com Zeus, com a providência (pronóia) e o sopro vital (pneuma). Todos são nomes da phýsis. Desse modo, a tranqüilidade da alma só é alcançada se o ser humano entender tudo isso. Do contrário, terá a neblina que já ofusca sua visão ainda mais densa e, cada vez, ele enxergará menos. E quem nada enxerga, nada compreende das apreensões, como poderá, então, cuidar de si? Como poderá ordenar-se em conformidade ao cosmo? Será uma nau à deriva. Já o estóico tem menos probabilidade de perder-se de si porque está centrado em si na relação com a sua necessidade “phýsica”. “As conseqüências dessa postura para o agir correto são relevantes: a) não há uma tábua de valores a seguir; b) freqüentemente seguimos tábuas de valores sem que necessariamente nos aprimoremos eticamente; c) cada momento é único e propício para seguir a phýsis, envolvendo nele a escolha; d) há sempre a possibilidade de errar ou acertar nas decisões, sem que cada erro ou acerto dirijam nosso ser para um progresso ao bem ou ao mal, pois em cada momento de decisão estaremos ou não em conformidade com a natureza (o sinal, em caso afirmativo, é a tranqüilidade da alma que nos chega)”. Como é possível notar, não há uma idéia de que a alma evolui, porém que ela pode ou não acertar na conformidade com o cosmo e, se este é perfeito, a cada acerto o ser humano é capaz de sentir a perfeição na consonância cósmica. Perguntando e repetindo: quando acertamos na decisão que tomamos? Quando sentimos a tranqüilidade da alma e isso é cuidar de si mesmo. A divindade está dentro de nós... nós somos a divindade quando a apreendemos de forma a nos ordenarmos tal qual o cosmo é ordem, é divino. Disso tudo, tiro para mim que liberdade e destino não se excluem.
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