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A CURA DA ALMA Introdução Enquanto tranqüilidade da alma, penso que a ataraxia é um “estado” que se pode alcançar. Nessa condição, todos caminhamos pelo campo da ética em que a “livre escolha” não significa escolher entre o que nos é dado, mas escolher o que fazer com o que vem a nós. Aí, encontra-se aquela noção de “indivíduo” com uma ética interior. E quem é o indivíduo no estoicismo antigo? É o efeito da relação “pneumática-tônica”, isto é: aquilo que ele “pega” da physis e o que o sustenta, o que esclarecerei melhor mais adiante. A natureza dá ao indivíduo sua “casa própria”, por isso ele precisa cuidar bem do que recebeu. A áskesis é um caminho conhecido e ascese como arte de viver e arte de viver como reconhecimento do ser humano com a natureza. Sua “co-naturalidade”. Segue disso que existe a necessidade de uma aprendizagem, a qual é a aprendizagem da virtude moral. Não em escala progressiva, mas eu diria de redescoberta de sua co-naturalidade, que é sempre atual. Um reconhecimento. Cabe ao ser humano compreender aquilo que ele recebeu. Em geral dar-se-ia do seguinte modo: o indivíduo sente uma presença, assente que algo lhe toca. Parte, então, para a busca da compreensão desse algo e, a partir disso, ele conquista a representação devida ou a compreensão da phantasia, que utilizo aqui como sinônimos. Portanto, se ele não assente corretamente, não compreenderá devidamente e seu julgamento da representação ficará prejudicado. Por toda essa situação é que, dificilmente, escolhemos claramente as coisas. É complicado, por exemplo, tomar uma decisão. Pergunto-me: como saber se estou escolhendo corretamente? Creio que se estiver me sentindo bem, equilibrado, em “harmonia” comigo mesmo e, dessa forma, com a natureza. Mas... será isso mesmo a garantia? Se eu tomar uma decisão e sentir-me bem com tal decisão... esse é o sinal, segundo o estoicismo antigo. Além disso existe a relação do que é exterior a mim ou a nós - para esclarecimento no meu modo de escrever: às vezes, prefiro me posicionar mais, aí utilizo a primeira pessoa e, às vezes, coloco-me no coletivo, no chamado “plural majestático”, o nós; e quando do uso da terceira pessoa, que é de quem se fala, na verdade e no caso deste texto, é de nós mesmos - e daquilo que nos é interior. Seria tomar para si o que lhe vem de fora e resolver em sua “cidadela interior”, termo já conhecido e cunhado por Pierre Hadot. O que parece uma separação entre exterioridade e interioridade, na realidade é a consonância ou não instaurada pela decisão... Afinal, há coisas que competem a cada um. A ataraxia, nesse sentido de decisão e de escolha, não se desliga da ética. Trata-se de escolher aceitar as coisas que nos chegam como, de fato, chegam. Querer contrariar isso ou compreender mal o que nos vem traz-nos a infelicidade. Isso é um estado de perturbação. Por isso, muitas vezes, pergunto a mim mesmo: Quem sou eu? E lembro-me que, estoicamente, sou a presença do logos universal. Enquanto indivíduo, sou um topos, um ponto, do cosmo. Concluo, assim, que na rede causal cósmica sou um efeito e entendo-me como sopro do pneuma, como presença do todo, porque sou o todo e a parte. Mas, como normalmente somos tomados pelas afecções exageradas, as paixões, sempre acabamos por encontrar problemas em nossa compreensão da physis. Se é que me faço entender... Dessa forma, a ataraxia é própria daquele que procurou pela cura de su’alma, caso contrário, sempre estará transtornado porque a paixão o afetará fisicamente, logicamente e psicologicamente. Se a paixão é aquela que perturba, o melhor é saber como trabalhar com ela, já que não estamos isentos da mesma. Melhor ainda, eu diria, é necessário uma prevenção, o que, por sua vez, não significa apatia. Se o cosmo é tônico, também nós temos um tónos (tensão) e somos tonificados. Mas... é também pelo tónos que vem o desequilíbrio. A exacerbação, penso eu, causa tudo isso, o que já é um outro exemplo de má compreensão do que me vem. Pelo menos, é o que entendo. E... se não somos apáticos, onde buscar uma solução? Na ataraxia. Nessas reflexões, entrarei, agora, com a contribuição de Gisela Striker: “[...] tranqüilidade ou, como também se diz, paz interior. Essa concepção é interessante por duas razões: primeiro, porque ela mostra um lado da tradição que começou com Platão ou Sócrates; segundo, porque é somente uma concepção de eudaimonia na ética grega que identificava felicidade com um estado interior e dependente inteiramente da atitude da pessoa ou de sua crença”. Quando Sócrates tomou uma decisão, a de tomar cicuta (sumo venenoso da planta Conium maculatum, conhecida como cicuta), conforme seu daimon interior, ele não só estava sendo ético como, de certo, já estaria em estado ataráxico, porque não se separam ética e ataraxia. Porém, quando usamos o termo tranqüilidade é bom termos claro que utilizamos uma tradução latina do termo grego euthymia (bom ímpeto), utilizado por Demócrito e traduzido por Cícero e Sêneca como tranqüilidade. Também se considerarmos que a vida feliz é prazerosa, poder escolher e escolher bem é um prazer. Decidir bem daria prazer. Gisela lembra de Epicuro, nesse recorte de leitura. Já que a estudiosa Gisela Striker afirma que a felicidade como sinônimo de prazer está nos gregos como uma concepção de uma vida boa, então isso também já estava em Platão e Aristóteles. Disso tudo tira proveito o estóico Sêneca. O que seria a ataraxia? Seria ser livre frente às preocupações, à ansiedade. A introdução desse sentido no vocabulário estóico vem desde Demócrito. Não somente pela palavra euthymia, mas também pela expressão athambia (...) e outras expressões que são metáforas, como galéné (calma), hésychia (quietude) e eustatheia (estabilidade). Segundo doxógrafos, a partir de DL IX 46, o mais próximo do termo ataraxia seria peri euthymia. A euthymia como um grande bem, o bem máximo e, dentro disso, a expressão athambia como algo semelhante a uma mente livre do medo, de qualquer medo. Até porque não se pode estar tranqüilo estando-se com medo de algo. Por todo esse conjunto, a euthymia remete ao bem humano, o objetivo da vida (se tratarmos de telos) ou, como quer Gisela Striker: identifica-se com felicidade e esta enquanto tranqüilidade. De Epicuro, a autora nos aponta o termo aponia (ausência de esforço como sofrimento, ausência de “dureza”) e faz toda uma reflexão sobre isso. Quem não aprende a lidar com o sofrimento, permito-me dizer num parênteses: não sofre bem... sofre mal. O sofrimento está na vida; necessariamente não se vive sem aprender a sofrer e, aqui, faço um trocadilho: bem sofrer para não sofrer. Voltando precisamente ao estoicismo, a autora afirma: “Os argumentos estóicos sobre a finalidade da vida levam à conclusão de que a vida deve estar de acordo com a natureza, ou uma vida conforme à virtude [...]”. Para Sêneca, por exemplo, a tranqüilidade é parte do bem absoluto, que é não mais que serenidade. Uma redundância, porém serve para enfatizar a tese da autora de que a felicidade é a tranqüilidade da alma e, que, nesse viés, ataraxia é felicidade. O que seria uma pessoa feliz? Uma pessoa virtuosa, tranqüila. Para os estóicos, então, a ataraxia é uma “imperturbabilidade” no sentido de que o indivíduo fique intimamente íntegro ou, noutras palavras, bem consigo mesmo, na sua interioridade, porque, isso sim, depende dele. E a autora nos lembra que taraché significa ansiedade, logo, depois de muito mencionarmos o termo, agora vemos que ataraxia é não estar ansioso (não-ansiedade). É a completa liberdade diante das emoções. E é importante frisar que a imperturbabilidade está além da procura pela troca do destino. “De acordo com os estóicos, as emoções são causadas ou constituídas por valores/julgamentos errôneos [...]”. O erro, nesse caso, acaba conduzindo a pessoa ao desespero. Achei muito interessante que a autora, depois dessas análises, tenha retornado ao termo euthymia para entendê-lo nos estóicos como eupatheiai, um estado de estar preparado para ser “bem” afetado pelas emoções e que isso seria atingir a virtude. Gisela está baseada em Sêneca e ainda diz: “Sêneca combina o traço característico da tranqüilidade com a mais positiva concepção que corresponde ao estado interior que pode ir além do estoicismo ortodoxo (da tradição)”. Seja: ela se refere a um estado infinito de serenidade da pessoa que, finalmente, encontrou a virtude. E, como ela afirma desde o início, somente o homem feliz pode ser tranqüilo. Em geral, os filósofos gregos combinam vida feliz com virtude moral. E uma observação “final”: apesar da autora se referir muitas vezes em seu texto, o que não coloquei aqui, a estado mental, ela mesma, ao fim, esclarece que não é um simples estado mental, senão os filósofos seriam meramente o que chamamos de psiquiatras. “[...] Ser feliz requer virtude [...]”. A conclusão, eu deixo em aberto...
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