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Catarina de Sena e a Igreja (Pe Denilson)  


INTRODUÇÃO
 
O trabalho, que estamos apresentando, pretende ser uma tentativa de estudar com mais atenção a vida de Catarina de Sena e suas contribuições para a Igreja, tendo em vista sua realidade e contexto histórico. Visando uma melhor compreensão de nosso estudo, procuraremos seguir a seguinte estrutura esquemática: no primeiro capítulo vamos apresentar uma síntese biográfica de Catarina de Sena em seus 33 anos de existência neste planeta terra; no capítulo segundo estudaremos o contexto histórico em que viveu Catarina, e de modo especial, faremos uma breve abordagem sobre o Exílio de Avinhão e o Cisma do Ocidente, fatos estes, que marcaram profundamente o século XIV; finalmente, iremos pesquisar as contribuições de Catarina para a Igreja de seu tempo, analisando seus escritos (cartas e o Livro), suas orações e intervenções pessoais na estrutura eclesiástica.  
 
1. DADOS BIOGRÁFICOS
 
Catarina nasceu em 1347, na cidade de Sena, na Itália. Esta exímia dominicana teve como pais, Tiago Benincasa e Lapa Piagenti.Aos seis anos de idade, em 1353, Catarina recebeu um grande presente: teve uma visão extraordinária de Jesus. Este fato marcou profundamente a sua vida, a ponto de tomar a decisão de não se casar... Mas, ainda adolescente, ela começou a ser pressionada pela família, para se casar. Lapa, sua mãe, chegou a arrumar um pretendente para a querida filha. Catarina manteve-se firme em seu propósito e, para extinguir as dúvidas, cortou o seu lindo cabelo, que era o orgulho da família. Este corte de cabelo lhe custou muito caro: privaram Catarina do seu quarto de orações e leituras, de vigílias e jejuns; teria de dormir com Estevão e dar conta de todos os serviços domésticos. Mesmo assim, a adolescente continuou sua vida de ascese e mística, tomando o castigo como um meio de santidade.
Em 1362, depois de tentar muitas vezes, Catarina Benincasa entrou para a Ordem da Penitência, de São Domingos. Esta ordem era uma associação religiosa, formada quase somente de viúvas, que, vivendo em suas casas, dedicavam-se á oração comum, ao cuidado dos doentes e ao auxílio material dos pobres.
Entre os anos de 1364 a 1367, Catarina passou em solidão na mais profunda intimidade com Deus. A partir de 1367, ela começou a exercer um pouco mais
seu apostolado cristão. Conhecida por todos em Sena, Catarina começou a dirigir semanalmente uma reunião pública de exortação, oração e ensino, com a presença de muitos leigos, religiosos e sacerdotes no hospital de Santa Maria della Scalla.
No ano de 1370, Catarina de Sena, teve talvez, sua maior experiência mística. Segundo seu confessor e primeiro biógrafo, B. Raimundo de Cápua, num êxtase Catarina ouviu de Deus as seguintes palavras: A salvação dos homens exige que tu voltes à vida. Mas não viverás mais como até agora. O pequeno quarto não será mais tua costumeira moradia; pelo contrário, para a salvação das almas deverás sair de tua cidade. Estarei sempre contigo na ida e na volta. Levarás o louvor do meu nome e a minha mensagem a pequenos e grandes, a leigos, clérigos e religiosos. Colocarei em tua boca uma sabedoria, à qual ninguém poderá resistir. Conduzir-te-ei diante de papas, de bispos e de governantes do povo cristão a fim de que por meio dos fracos, como é do meu feitio, eu humilhe a soberba dos fortes. A partir deste acontecimento, Catarina se transformou numa verdadeira apóstola da Igreja de Cristo Jesus.
Em 1374, recebeu de Gregório XI, uma Bula de indulgências. Participou do Capítulo Geral da Ordem Dominicana, em Florença. Quando retornou a Sena, encontrou uma catástrofe: a Peste. Então, dedicou-se totalmente para com os doentes. No ano seguinte, Catarina vai a Pisa visando organizar uma Cruzada. Em Pisa, a dominicana recebeu de Cristo o doloroso dom das chagas ou estigmas.
No ano de 1376, devido sérios problemas político-eclesiais, Catarina escreveu duas cartas a Gregório XI, pedindo reforma na Igreja. Nestas cartas ela pedia que o Papa afastasse de seus cargos os membros apodrecidos, que voltasse ele mesmo a Roma, que procurasse pacificar a crisntandade.  Depois, ela foi pessoalmente a Avinhão, pedir ao Papa que voltasse a Roma. De fato, neste mesmo ano Gregório XI deixou Avinhão com destino a Roma.Por volta de 1377, Catarina teve a idéia de escrever o livro O Diálogo. Mas, esta idéia só foi concretizada após a morte do papa Gregório XI, em 1378. Antes de ditar o livro, ela presenciou uma grande desgraça: a eleição do antipapa Clemente VII, que iria dividir a Igreja com Urbano VI, o sucessor legítimo de Gregório XI. Catarina lutou muito contra o antipapa e seus aliados, mas o cisma continuou...
Assídua à sua vida de oração, Catarina morreu aos 29 de abril de 1380, pedindo a Deus a unidade da Igreja e o perdão pelas suas falhas...
Aos 29 de junho de 1461, Catarina foi canonizada por Pio II (1458-1464). Em 1939, Pio XII (1939-1958) declarou-a patrona da Itália, junto com São Francisco de Assis. Depois, em 1970, o papa Paulo VI a declarou Doutora da Igreja. Provavelmente, será reconhecida, em breve, como patrona da Comunidade Européia.
 
2. CONTEXTO HISTÓRICO
 
Historicamente falando, Catarina de Sena, nasceu num período um tanto crítico, em meados do século XIV. Pois, o século XIV é considerado como um momento de forte crise do papado. Dois grandes acontecimentos marcaram profundamente a decadência papal deste século: o Exílio de Avinhão e o Cisma do Ocidente.
 
O Exílio de Avinhão

O Exílio de Avinhão começou com Clemente V, em 1309, e terminou com Gregório XI, em 1377.
Com a morte de Bento XI, o colégio cardinalício se reuniu para eleger um novo papa. Entre os cardeais haviam os bonifacianos e os antibonifacianos. Depois de onze meses de conclave os antibonifacianos venceram com a eleição de seu candidato, o arcebispo de Bordéus, Bertrando de Got, que tomou o nome de Clemente V (1305-1314).  Em 1309, após passar por Bordéus, Lião, Portiers e Toulouse, o papa Clemente V, estabeleceu definitivamente sua sede em Avinhão, cidade esta, que pertencia ao Imperador da Alemanha. Este fato trouxe consequências muito graves para a Igreja: Roma e o Estado Pontifício caíram em condições desastrosas. Os papas tornaram-se submissos à política francesa. Foi, neste período de exílio, que se desenvolveu o o nefasto sistema do fiscalismo e da reserva de nomeações à Cúria. Outra prática eclesial, deste período, foi o lamentável e nocivo nepotismo. Ainda no tempo de Clemente V, se deu a supressão da ordem dos Templários, que, sem dúvidas trouxe graves repercussões para as ordens religiosas e em todo o âmbito político-eclesial da época.
Na sequência, os sucessores de Clemente V não conseguiram superar tal crise e o papado continuou em decadência, mantendo assim, a permanência do exílio, sob o domínio da política francesa. Tivemos João XXII (1316-1334), Benedito XII (1334-1342), Clemente VI (1342-1352), Inocêncio VI (1352-1362), Urbano V (1362-1370) e Gregório XI (1370-1378). Com este último, o exílio encerrou e o papa voltou para Roma, graças às intervenções de Catarina de Sena. Se, de um lado, Catarina, teve a honra de ver o papa novamente em Roma, teve do outro lado, a tristeza de presenciar o cisma de 1378, sobre o qual falaremos rapidamente, na sequência deste estudo.
 
O Cisma do Ocidente

Com a morte de Gregório XI, foi eleito como novo papa, o arcebispo de Bari, Bartolomeu Prignano, que adotou o nome de Urbano VI (1378-1389). Sabemos que o colégio cardinalício estava muito dividido. Havia três facções: o partido limosino, o partido francês e o partido italiano. Mas, após assumir o pontificado, Urbano VI, tentou pressionar e disciplinar os cardeais. Contudo, seu orgulho lhe tornou imprudente em suas atitudes e um grupo de cardeais se afastaram dele. Este grupo se revoltou e elegeu o cardeal Roberto de Genebra, primo do rei da França, que tomou o nome de Clemente VII (1378-1394).  Com isto estava eleito o antipapa e consumado o Cisma do Ocidente, que durou 39 anos (1378-1417).
A partir deste fato passou a existir um duplo papado: um em Roma e outro em Avinhão. A Igreja e o mundo católico se dividiu em dois campos inimigos, urbanista e clementista. Esta grande divisão, então chamada de O Cisma do Ocidente, precipitou a Igreja católica num mar de incertezas e de tribulações e trouxe ao papado e à vida eclesiástica danos incalculáveis.  Catarina de Sena sofreu muitíssimo com isso tudo e grande foi seu esforço pela reconciliação e restabelecimento da unidade da Igreja, como veremos no próximo capítulo.
 
3. CONTRIBUIÇÃO PARA A IGREJA
 
Catarina de Sena muito contribuiu para a Igreja, através de suas cartas, com o seu livro O Diálogo, com suas orações e com intervenções diretas junto à hierarquia eclesiástica.
 
As Cartas

Ao todo, as cartas de Catarina somam 381. Suas cartas são profundos estudos sobre temas determinados e observações radicais em vista do bem das pessoas e da Igreja. Os destinatários de Catarina, podem ser apresentados de acordo com o número de cartas a eles endereçadas. Vejamos: das 381 cartas suas, 23 foram endereçadas a papas, 19 a cardeais, bispos e prelados, 13 a reis e rainhas, 6 a comandantes militares, 38 a governantes, 29 a senhoras da aristocracia, 15 a artistas, 12 a advogados e médicos, 16 a membros da sua família, 32 a discípulos, 17 a membros da ordem penitente de São Domingos, 17 a monjas, 47 a frades e eremitas, 34 a monges, 9 a sacerdotes, 11 a membros de associações leigas, 23 a mercadores e artesãos e 20 a destinatários diversos.
 
O Livro

Entre os anos de 1377 e 1378, Catarina ditou sua obra-prima: O Diálogo. Esta obra, a própria Catarina e seus secretários Estevão Maconi, Neri Pagliaresi e Barduccio Camigiani, chamavam de O Livro, porque este escrito não continha um título próprio e nem divisões especiais. Mas, devido questões práticas para possível divulgação deste célebre trabalho literário, mais tarde deram-lhe um título e fizeram-lhe divisões. Sendo assim, foi chamado Diálogo por causa de sua forma, e mais tarde Livro da divina doutrina, Diálogo da divina doutrina e, sobretudo, Diálogo da Divina Providência. Nesta obra, Catarina fala dos quatro pedidos feitos a Deus, por ocasião de sua fabulosa experiência mística, ocorrida a 04 de outubro de 1377. As quatro petições foram as seguintes: a primeira, por si mesma; a segunda, pela reforma da Igreja; a terceira, de caráter geral, pelo mundo todo, sobretudo em favor da pacificação dos cristãos rebeldes que tanto pecam e prejudicam a santa Igreja; na quarta, rogava à Providência divina que cuidasse de todos, sobretudo de um caso particular.  Ainda, no tocante ao O Diálogo, sua estrutura básica está fundada sobre quatro partes distintas e interligadas: a primeira parte contém, a metodologia usada pela senense na formação dos seus discípulos na sua missão de super-reformadores da Igreja. Na segunda parte, Catarina descreve a seus discípulos a situação pecadora e imperfeita em que se achava a Igreja de seu tempo. Na terceira parte, Catarina de Sena fala a seus discípulos que a força e a certeza da vitória na luta contra o mal se encontra na Providência divina. Para finalizar seu trabalho, ela apresenta, na quarta parte, um profundo estudo sobre a obediência.  Esta obra de Catarina, O Diálogo, muito contribuiu para a Igreja, pelo fato de denunciar as imoralidades e observações da hierarquia eclesiástica com o objetivo de resgatar-lhe a genuína doutrina de Jesus Cristo.
 
As Orações

No sentido espiritual, Catarina de Sena também contribuiu para com a reforma e santidade da Igreja, através de sua profundas orações. Seus discípulos colheram de seus lábios, durante os prolongados êxtases, muitas orações e preces. Na sua obra-prima O Diálogo, também encontramos muitos trechos de orações e súplicas: Meu Senhor, olha com misericórdia para o teu povo e para a hierarquia da santa Igreja. Se perdoares a tão numerosas criaturas... Livres das trevas do pecado mortal e da condenação eterna por tua infinita bondade...  Ó Deus eterno, sublime luz, fonte da luz, chama superior a qualquer outra, única a arder sem se consumir! Somente tu destróis o pecado e o egoísmo... Tu mesmo, ó foco de amor. Foi sempre o amor que te obrigou e obriga a nos criar à tua imagem e semelhança, a nos perdoar com a doação de graças incontáveis... Ó bondade superior a toda bondade... Ó amor sem preço... Rogo-te, agora, tem piedade do mundo e da santa Igreja.
 
Intervenções

Sabemos, pois, que, além de muito contribuir com suas orações, seu livro e suas cartas dirigidas às autoridades eclesiásticas e políticas, Catarina de Sena fez também, intervenções pessoais na luta pela restauração da dignidade da Igreja. Em 1376, Catarina escreveu duas cartas a Gregório XI, pedindo a reforma da Igreja. Depois, ela foi pessoalmente falar com o referido papa e pediu que o mesmo voltasse a Roma e restabelecesse a dignidade da Igreja. Quando o vigente papa Gregório XI lançou a excomunhão e o interdito sobre Florença e mandou à Itália tropas bretãs por assalariadas, Catarina de Sena interveio e se empenhou por uma mediação de paz entre as duas partes litigantes. A necessidade do momento a impeliu a agir como uma profetisa enviada por Deus, com vontade de fogo e fortaleza viril, para aliviar os terríveis males da situação geral. Com o objetivo da paz, foi ter pessoalmente com Gregório XI, em Avinhão.
 
CONCLUSÃO
 
Indubitavelmente, o estudo que acabamos de fazer, não é um fim, mas um despertar para uma posterior pesquisa com maior profundidade, em sua dimensão histórica-acadêmica.
Sem exagerar no hiperbolismo, este trabalho nos leva a concluir que, Catarina de Sena, deu um novo oxigênio para o pulmão da Igreja, o qual estava sendo deteriorado pelo câncer da imoralidade e aberrações eclesiásticas. De fato, esta mulher foi uma profetisa autêntica que, ousou em denunciar os erros e apontar as soluções para um possível resgate da verdade evangélica e da genuína tradição da Igreja. Contudo, não podemos esquecer que este heroísmo de Catarina, bem como seu amor pela Igreja, deve-se à sua intimidade com Deus e à sua austera vida mística.
 
BIBLIOGRAFIA

  - BASÍLIO, João Alves, Vida de Santa Catarina de Sena, São Paulo, 1993,
Paulinas, 89 p.
  - CATARINA DE SENA, Santa, O Diálogo, (Trad. João Alves Basílio), São
Paulo, 1984, 2ª. Ed.,Paulinas, 409 p.
  - BIHLMEYER, Karl TUECHLE, Hermann, História da Igreja Idade Média, Vol. II (Trad. Pe.Ebion de Lima e H. Dalbosco), São Paulo, 1964, Paulinas
  - FRÖHLICH, Roland, Curso Básico de História da Igreja, (Trad. e adaptação
Alberto Antoniazzi), São Paulo, 1987, Paulinas, 105 110
  - JOERGENSEN, Johannes, Santa Catarina de Sena, (Trad. Maria Cecília de M. Duprat), Petrópolis, 1944, Vozes, 435 p.
  - MARTINA, Giacomo, História da Igreja de Lutero a Nossos Dias,
Vol. I A Era da Reforma, (Trad. Orlando Soares Moreira), São Paulo, 1995, Loyola, 262 p.
  - UNDSET, Sigrid, Catarina de Sena, (Trad. Basílio Lopes), Lisboa, Aster,
338 p.  
 
Texto elaborado por:

Pe. Denilson Aparecido Rossi, IMD
Cx. P. 16.193 – Fone: (041) 286-3951
81.611-970 – Curitiba – Paraná
denilsonrossi@bol.com.br

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