Introdução
Estudar liturgia é preparar-se para celebrar a maior festa da vida
cristã.
Para compreendê-la melhor, precisamos responder algumas perguntas
fundamentais: - O que é liturgia? - Por que celebrar? - O que celebrar?
- Quem celebra? - Como celebrar? - Quando celebrar? - Onde celebrar?
Nossa intenção é responder com humildade e objetividade a estas indagações.
Para tanto vamos consultar o Dicionário de Liturgia, o Compêndio do
Vaticano II, o Catecismo da Igreja Católica, o Documento 43 da CNBB
(Animação da Vida Litúrgica no Brasil) e outras obras afins.
1. O que é Liturgia?
O termo liturgia provém do grego "leitourgia" que, "em sua origem
indicava a obra, a ação ou a iniciativa assumida livremente por um
particular (indivíduo ou família) em favor do povo ou do bairro ou
da cidade ou do Estado". Portanto, a liturgia era a "obra pública"
assumida com liberdade. Com o passar do tempo a liturgia perdeu o
seu caráter livre e passou a significar um serviço obrigatório. A
tradução grega do Antigo Testamento apresenta a liturgia como sendo
um "serviço religioso prestado pelos levitas a Javé, primeiro na 'tenda'
e depois no templo de Jerusalém".
Na Didaqué, a liturgia "se refere claramente à celebração da eucaristia"
(Nº. 14). No Concílio Vaticano II, por liturgia compreende-se "a ação
sagrada, através da qual, com um rito, na igreja e mediante a igreja,
é exercida e continuada a obra sacerdotal de Cristo, isto é, a santificação
dos homens e a glorificação de Deus" (SC 7). O concílio afirma também
que a liturgia "é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao
mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força" (SC 10). À luz
do Vaticano II e do Catecismo da Igreja Católica, a liturgia é "obra
de Cristo" e "ação da sua igreja". É o sinal visível da comunhão entre
Deus e a humanidade através de Jesus Cristo (cf. SC 6 e CIC 1071).
2. Por que Celebrar?
Celebrar significa tornar célebre um determinado momento ou acontecimento
da vida. O ato de celebrar faz parte da vida humana, é uma ruptura
da rotina cotidiana. O liturgista italiano, Romano Guardini, fala
da celebração como dimensão lúdica da vida que extrapola o tempo e
o espaço.
Celebrar é comemorar, isto é, atualizar na memória algo em comunhão
com alguém. "Em todos os tempos e lugares, homens e mulheres de todos
os meios e níveis sociais, de todas as culturas e religiões, costumam
realçar, ao longo da existência, aspectos fundamentais da vida individual,
familiar, social e religiosa" (Doc. CNBB - 43 Nº. 36) e este realce
se dá no ato celebrativo.
A celebração "nos leva a descortinar a grandeza de nosso ser e de
nosso destino de imagens de Deus". Ela "nos abre espaço para vivermos
em comunhão que é o anseio profundo de nosso ser social" (Doc. CNBB
- 43 Nº. 38). A história já vivida por alguém, grupo ou país é outra
razão pela qual se celebra. Aqui surgem os diferentes tipos de celebrações:
cívicas, sociais, religiosas...
Na religião a celebração ocupa um espaço privilegiado. Em se tratando
da religião cristã, "a celebração consiste na memória do acontecimento
fundante do Povo de Deus, isto é, a morte e ressurreição do Senhor,
que perpetua na História a salvação que Cristo veio trazer a todos"
(Doc. CNBB - 43 Nº. 39).
3. O que Celebrar?
Em toda e qualquer celebração o centro é a VIDA. Celebramos a vida.
A vida provoca e faz acontecer a celebração que, por sua vez, compreende
uma simples festa de aniversário até um fato que envolva todo o mundo.
Referindo-se à celebração litúrgica o que se celebra é a "vida de
Deus no meio do povo" em vista de comemorar o mistério da salvação.
O projeto de comunhão de Deus com o seu povo e "que chamamos de obra
da salvação, foi prenunciado pelo próprio Deus no Antigo Testamento
e realizado em Cristo. Hoje a Liturgia o celebra, isto é, o rememora
e o torna presente na Igreja" (Doc. CNBB - 43 Nº. 44).
Portanto, podemos dizer que o ponto central da liturgia cristã é o
Mistério Pascal. Por mistério pascal compreendemos a plenitude da
presença de Deus no meio do seu povo na pessoa de Jesus, desde a sua
encarnação até a ressurreição. "O mistério pascal de Cristo é o centro
da História da salvação e por isso o encontramos na Liturgia como
seu objeto e conteúdo principal. Esse mistério envolve toda a vida
de Cristo e a vida de todos os cristãos" (Doc. CNBB - 43 Nº. 48).
Hoje, somos convidados "a celebrar os acontecimentos da vida inseridos
no Mistério Pascal de Cristo".
4. Quem Celebra?
Em nossas comunidades é comum ouvir frases tais como: "Padre, é o
Senhor que vai celebrar hoje?"; "Quem celebrou a missa domingo passado
foi o padre fulano"; "Naquela comunidade quem celebra é cicrano";
"Vamos assistir a celebração naquela igreja". Afinal de contas quem
é mesmo que celebra?
O Catecismo da Igreja Católica responde esta indagação afirmando que
"é toda a comunidade, o corpo de Cristo unido à sua Cabeça, que celebra"
(CIC 1140). Jesus Cristo é o único sacerdote, o celebrante principal.
Nós somos convocados pelo Espírito Santo para celebrar com Jesus e
com os demais membros da comunidade. Celebrar é participar como sujeito
e não como mero assistente.
Na celebração litúrgica a pessoa torna-se participante de toda a vida
de Jesus de Cristo (Mistério Pascal) e da vida de seus irmãos e irmãs
inserida neste mistério de salvação. Portanto, quem celebra é toda
a comunidade reunida em assembléia. O êxito de uma celebração está
diretamente ligado à diversidade de funções atribuídas aos membros
de sua assembléia.
De fato, a assembléia litúrgica "é uma comunidade reunida, mas nunca
de modo massificado. Não é massa nem público. Articula-se em torno
de diversas atividades específicas distribuídas entre seus diversos
membros". Sabemos também que "essas atividades, funções e papéis são,
pois, verdadeiros serviços ou ministérios, porque ajudam a assembléia"
a celebrar a vida de forma plena. Dentre os principais serviços lembramos
a "acolhida, leitura, canto, oração, ofertório, assistência à mesa-altar,
presidência".
5. Como Celebrar?
A esta questão, responde o Catecismo da Igreja Católica: "na vida
humana, sinais e símbolos ocupam um lugar importante. Sendo o homem
um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e percebe as
realidades espirituais através de sinais e de símbolos materiais.
Como ser social, o homem precisa de sinais e de símbolos para comunicar-se
como os outros, através da linguagem, de gestos, de ações. Vale o
mesmo para a sua relação com Deus" (CIC 1146).
Indubitavelmente, a celebração litúrgica expressa seu significado
mais profundo através de uma variedade de sinais, símbolos, gestos
e ações. Para aprofundar esta questão achamos oportuno apresentar
um resumo da obra "Vamos Celebrar" do Pe. Gregório Lutz: Caminhar
Quando vamos a um determinado lugar é normal que, no caminho, haja
uma preparação para um encontro (ex.: ir ao médico, à festa, ao teatro,
etc.). Em se tratando da celebração não pode ser diferente. É importante
que enquanto caminhamos até a Igreja façamos uma preparação para melhor
celebrar o mistério pascal de Jesus Cristo.
Caminhando chegamos ao local da celebração e encontramos com os irmãos
na fé e, juntos, nos deparamos diante de Deus. No decorrer da celebração
temos mais motivações para caminhar: - procissão de entrada: o presidente
e a equipe celebrativa caminham até o altar e, consigo, levam toda
a comunidade ao encontro com Deus; - procissão da palavra: os leitores
caminham até o ambão donde proclamam o texto sagrado, significando
a resposta de Deus que vai ao encontro da comunidade; - procissão
das oferendas: toda a comunidade é convidada a caminhar e oferecer
sua vida a Deus; - procissão da comunhão: Deus caminha ao encontro
da comunidade oferecendo-se em alimento.
Celebrar de Pé, Sentado e Ajoelhado.
Estar de Pé: "Os fiéis permaneçam de pé: do início do canto de entrada,
ou do momento em que o sacerdote se aproxima do altar, até a oração
do dia inclusive; ao canto de aclamação antes do Evangelho; durante
a proclamação do Evangelho; durante a profissão de fé e a oração universal;
e da oração sobre as oferendas até o fim da Missa", exceto eventualmente
durante a consagração e a oração em silêncio depois da comunhão (cf.
Introdução Geral Sobre o Missal Romano, N. 21).
O estar de pé significa prontidão, estar atento, livre...
Ficar Sentado: "Sentam-se durante as leituras antes do Evangelho e
durante o salmo responsorial; durante a homilia e enquanto se preparam
os dons ao ofertório; e se for conveniente, enquanto se observa o
silêncio sagrado após a comunhão" (Introdução Geral Sobre o Missal
Romano, N. 21).O ficar sentado favorece o recolhimento, a escuta acolhedora
da Palavra e a sua meditação.
Ajoelhar-se: "Ajoelhem-se durante a Consagração, a não ser que a falta
de espaço ou o grande número de presentes ou outras causas razoáveis
não o permitam" (Introdução Geral Sobre o Missal Romano, N. 21). Ajoelhar-se
é uma atitude de humildade e adoração.
Celebrar Olhando e Ouvindo Na celebração o "olhar" e o "ouvir" são
de uma grande abrangência. Olhamos o local da celebração e logo notamos
sua limpeza, a ordem, a decoração, as flores, o presbitério, o altar,
as velas, a cruz, o ambão, o sacrário, as imagens...
Olhamos também as pessoas (presidente da celebração, ministros, acólitos,
coroinhas, leitores, comentarista, animadores e os demais irmãos e
irmãs. O nosso olhar se dirige ainda a cada ação litúrgica e aos sinais
sacramentais. Com os olhos da fé vemos o mistério de Jesus Cristo,
no local da celebração e naquilo que é feito durante a mesma. É notável
também que durante toda a celebração saibamos ouvir (saudações, convites,
exortações, cantos, leituras, homilia, orações...). Lembramos ainda
que o ouvir em silêncio favorece uma maior introspecção e interiorização.
Celebrar Rezando e Cantando Não menos importante é o celebrar rezando
e cantando. Através destas atitudes a assembléia dialoga com Deus,
sai da passividade e interage-se. Rezando e cantando responde-se às
orações, às leituras e acompanha-se as procissões e a fração do pão.
Com estes gestos a assembléia participa da oração eucarística não
apenas interiormente, mas também pelas aclamações. Juntos os fiéis
recitam a profissão de fé, elevam suas preces e rezam o Pai-Nosso.
Rezando e cantando a comunidade torna-se sujeito da ação litúrgica
e entra em comunhão com a Trindade. Celebrar Comendo e Bebendo Comer
e beber são atos sagrados para o ser humano.
Portanto, essenciais na celebração litúrgica. Comendo e bebendo o
Corpo e o Sangue de Cristo atinge-se o ápice da celebração e da comunhão
com Deus e com os irmãos e irmãs. Comendo e bebendo nos alimentamos
e, no caso da celebração, nos nutrimos do sustento e do fortalecimento
da vida de Cristo. É a plena participação da vida do outro, portanto
deve ser um ato prazeroso e repleto de amor.
6. Quando Celebrar?
Todo ato celebrativo tem o seu quando, o seu dia. "O quando é festa.
Há celebração quando há festa". A festa situa-se num determinado tempo.
Em se tratando da festa cristã sua celebração acontece em datas que
se faz memória de acontecimentos que Deus realizou em favor de seu
povo.
A festa semanal: domingo É importante lembrar que "desde o princípio
da vida da Igreja, os cristãos aparecem como pessoas que se reúnem
regularmente num dia fixo, num dia determinado, a saber, o primeiro
dia da semana". O primeiro dia da semana é o domingo, ou seja, "dia
do Senhor". Os cristãos se reunião no primeiro dia da semana para
a partilha da Palavra e do pão (cf. At 20,7). O primeiro dia da semana
"é o dia da ressurreição e dos encontros com o Ressuscitado" (cf.
Mt 28,1; Mc 16,1-2.9; Lc 24,1.13; Jo 19,31; Jo 20,1.19).
O domingo é "o dia memorial da ressurreição de Jesus, de sua exaltação
e constituição como Senhor... o dia da grande libertação". É o dia
próprio para a assembléia cristã se reunir e celebrar o Mistério Pascal
e a sua vida inserida neste mistério libertador. É no domingo que
se dá a festa da fraternidade. Além do encontro com o Cristo vivo
dá-se o encontro com os irmãos e irmãs. Em fraternidade os cristãos
se reúnem para celebrar a festa da vida que é sempre alimentada com
a partilha da Palavra e a fração do pão.
A festa anual: páscoa O domingo, como já foi visto, é o dia da festa
para a semana. Para o ano a festa acontece com a páscoa, considerado
o grande domingo. A páscoa é a "festa das festas". A páscoa é a festa
da libertação, a passagem da morte para a vida. A Páscoa é o centro
da vida e da fé dos cristãos. Para compreendermos melhor esta festa
anual é necessário conhecer também a estrutura do Ano Litúrgico.
O ano litúrgico "está organizado em ciclos festivos, onde se quer
celebrar primordialmente o mistério da vida, morte e ressurreição
de Jesus Cristo, a herança histórico-litúrgica do povo hebreu, a vida
e a fé dos primeiros seguidores de Jesus e a nossa vida de seguidores
da herança recebida".
Assim sendo, temos o ciclo do Natal, o ciclo da Páscoa e o tempo comum.
Ciclo do Natal: o ano litúrgico começa com o advento. A característica
do advento é a preparação para celebrar o nascimento de Jesus, a encarnação
do Verbo, a presença de Deus em nosso meio. Esse tempo litúrgico termina
com a festa do Natal, celebrada no dia 25 de dezembro. O Natal "é
um tempo forte de alegria, de festa, de solidariedade e de oração
mais intensa". A festa do Natal se estende até as celebrações da epifania
(manifestação do Senhor) e do batismo de Jesus.
Ciclo da Páscoa: para bem celebrar a "festa das festas"
que é a páscoa, temos como preparação a Quaresma. A quaresma inicia-se
na quarta-feira de cinzas e constitui-se num período forte de oração,
penitência e conversão. Depois dos 40 dias quaresmais, temos a semana
santa que inicia-se no Domingo de Ramos, atingindo seu ápice com o
Tríduo Pascal. O tríduo se fundamenta na unidade do mistério pascal
de Jesus Cristo, que compreende sua paixão, morte e ressurreição.
Segundo o Missal Romano, em suas Normas Universais Sobre o Ano Litúrgico,
"o Tríduo pascal... começa com a Missa vespertina da Ceia do Senhor,
possui seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as Vésperas do
domingo da Ressurreição" (N. 19). Deste modo, celebramos de quinta
para sexta-feira a "Paixão", de sexta-feira para sábado a "Morte",
e de sábado para domingo a "Ressurreição". A festa da páscoa contínua
ainda por mais 50 dias até o Pentecostes.
Tempo Comum: além dos ciclos do Natal e da Páscoa temos também o "chamado
Tempo Comum". Nele acontece a maior parte das celebrações. Situa-se
entre "o Tempo do Natal até o início da Quaresma e após o Tempo da
Páscoa até o início do Advento". Além da festa semanal (domingo) e
da festa anual (páscoa), o ano litúrgico comporta outras festas que
são dedicadas a Maria, aos apóstolos, aos mártires, aos santos padroeiros...
7. Onde Celebrar?
O verdadeiro espaço para a celebração é constituído pela assembléia
mesma que "prevalece sobre a realidade local físico-geográfica, arquitetônica".
Independentemente do local, seja ele, uma igreja, uma residência,
um salão, debaixo de uma árvore ou à margem de um lago, o essencial
é a presença real da pessoas, da comunidade reunida. O lugar onde
a celebração acontece é na própria assembléia. "A Igreja enquanto
comunidade de crentes reunidos, congregados em torno de Cristo, é
o novo templo" (cf. Ef. 2,19-22; 1Pd 2,5).
É sabido, pois, que o verdadeiro templo de Deus é o coração humano.
É na assembléia reunida que Deus se faz presente. Mas devemos considerar
que esta assembléia litúrgica, quase sempre, precisa de abrigo e proteção.
Daí também a importância do templo de pedra, a igreja material. O
templo deve refletir e expressar a presença de Deus que se manifesta
na assembléia litúrgica. Portanto, a igreja deve ser um local que
favoreça a mística e viabilize a celebração do Mistério Pascal.
Todos devem sentir a celebração como ápice de suas vidas. Com estas
humildes idéias, descritas com carinho e ternura, intentamos despertar
uma maior paixão pela celebração litúrgica.
Pe. Denilson Aparecido Rossi
denilsonrossi@bol.com.br
Pe. Denilson Aparecido Rossi
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Fone: (41) 286-3951 81.611-970 - Curitiba - PR
BIBLIOGRAFIA
- Dicionário de Liturgia
- Compêndio do Vaticano II
- Catecismo da Igreja Católica
- Doc. CNBB, Nº. 43 - Animação da Vida Litúrgica no Brasil,
São Paulo, Paulinas, 1989
- VALLE, Pe. Sérgio F., A Liturgia na Catequese, São Paulo,
Paulinas, 1993
- RIBEIRO, Eliomar, Liturgia - festa da vida, São Paulo, CCJ,
1998
- BOROBIO, Dionisio, A Celebração na Igreja, Vol. I, São Paulo,
Paulinas, 1990
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