|
Durante 3 dias, a sacada da mansão transformou-se em tribuna...
Não tinha a mesma magnificência da que, em Brasília, serve de palco para o
chefe da Nação pairar com postura soberana sobre o povo que, a seus pés, lhe
dirige o olhar suplicante...
Muito menos se parece com a pequenina janela do Vaticano na qual um venerando
ancião, vestido de paz, se debruça sobre o mundo para falar de fraternidade,
de amor...
Na sacada de São Paulo desfilam personagens que se revezam em papéis diversificados.
O riso se mistura às lágrimas, as angústias à fé, à perplexidade, com a aporia
das inconseqüências...
Assomam-se a ela empresários bem sucedidos. Tem o poder de um império sem fronteiras,
a simpatia dos admiradores. Oferecem oportunidades, manipulam sonhos de casa
própria, de emprego, pequenos negócios de sobrevivência... Sem constrangimento,
são capazes de exibir e até de jogar pelos ares o que muitos lutam para conseguir
com sacrifício... Podem não falar de Deus, mas possuem um discurso social, solidário
e emocionado, semeado de bons propósitos... Chegam a ter atitudes franciscanas...
Mas, quando as câmeras se afastam, as luzes se apagam, guardam consigo o que
poderia tornar-se realidade...
É a vez da juventude. Entra cheia de alegria, exuberante, irreverente, generosa
e acolhedora em sua incoerência. Irradia otimismo, descontração, tudo dá certo!...Nesse
território de sonhos e fantasias, Deus é muito legal, a garantia de tudo o que
de bom acontece e faz reverter a história... Mas, traz nas palavras a síndrome
do sucesso, envaidecida por tantos palcos, grifes e passarelas...
O político, por sua vez, se apresenta com a aura messiânica de um salvador.
Acompanha-o a comitiva prestativa e solidária, qual enxame cortejador da rainha-mãe
na colméia em revoada... O discurso é patético; o contato com as bases tão necessário
como as promessas de campanha. Suas ações, no entanto, se voltam para interesses
que possam retribuir dividendos..
As colocações e debates se prolongam, enquanto uma cidade inteira permanece
refém de um seqüestrador com a ousadia insana do dedo no gatilho...
A mansão desprotegida do Morumbi, congelada na tela de nossas tevês, induz a
uma associação de imagens que faz pensar...
É a tribuna da história, em que os personagens desfilam com suas falas comentadas
pelas mais contraditórias informações e registros das reportagens...
As objetivas e microfones convergem para a família, com seus complexos problemas
de relacionamento e educação dos filhos que a fazem refém de tantas ameaças...Todos
têm algo a comentar ou providências a sugerir...
Alguns divagam em considerações sócio-econômicas. Outros, falam da necessidade
de limites, de autoridade e disciplina; também há os que se comprazem na atuação
providencial de um Deus benfazejo.
Nada é excludente. Em seus pontos de vista, todos têm razão.
O essencial, porém, é invisível, no interior da mansão ou do barraco, debaixo
do viaduto ou no moderno flat da Vieira Souto: a abertura para o entendimento,
a conversa, o diálogo....
Na era da comunicação fala-se muito, pouco se conversa,
menos ainda se ouve!...
Conversar é voltar-se para o outro – com-versar –,
focalizar, entender o outro, Escutá-lo... É o grande resgate a ser
pago para que armas se abaixem e um possa olhar os olhos do outro,
sem constrangimentos!
Então, as sacadas não serão palcos de tribunos oportunistas, mas lugar natural
de uma jardineira cheia de flores...
Terá acontecido entre as pessoas o resgate do amor.
|