Para os muçulmanos, trata-se de uma guerra santa. Está em jogo a glória de Deus, ultrajada pela presença de infiéis com seus interesses políticos, financeiros e militares. Os muçulmanos dos países árabes do Oriente Médio falam assim de Israel e da presença militar dos Estados Unidos em sua área. Expulsá-los, vencê-los lhes parece ser a sua obrigação. É o que sentem, com o Alcorão nas mãos. Essa, pensam eles, é uma guerra santa. A guerra que os Estados Unidos está armando contra os terroristas muçulmanos também tem jeito de guerra santa. No fundo, toda guerra santa não tem nada de santa. É uma guerra de interesses, sobretudo financeiros e estratégicos dos pontos de vista político e econômico. E alicerça-se sobre sentimentos religiosos intolerantes, sobre fundamentalismos religiosos. Por isso, é sempre violenta, sangrenta, cruel, talvez pior do que qualquer outro conflito armado, mesmo com o nome de guerra. Talvez para os Estados Unidos, a motivação não seja bem uma religião, mas seu nacionalismo, sua defesa intransigente da democracia e de sua própria hegemonia no mundo funcionem como uma religião. É ainda uma guerra santa. Movida à ideologia religiosa, propondo martírio se necessário para os de cá, destruição e arrasamento intolerante para os de lá. E nós cristãos nem estamos em condições de ignorar a guerra santa dos grupos fundamentalistas islâmicos. Nós também já patrocinamos guerras santas. No século XI a XIII, no período da Baixa Idade Média, os cristãos, dizendo-se movidos por intenções religiosas foram à guerra contra os muçulmanos do Oriente, desejando libertar a Terra Santa de seu domínio. Foram oito Cruzadas, desde 1095 até 1279. Nobres, jovens, reis, místicos, gente pobre partiram da Europa cheios de ardor religioso para combater o inimigo muçulmano. Saíam abençoados pelas autoridades da Igreja. Aliás, foi o Papa Urbano II quem convocou a primeira cruzada. Outro Papa, Inocêncio III pregou a Quarta. A sétima Cruzada foi convocada pelo Papa Gregório IX. São Bernardo pregou a segunda. Não faltaram motivações religiosas. E promessas do paraíso aos que tombassem. E a cruz branca em seus emblemas militares. Na verdade, as Cruzadas foram um grande fracasso. Respondiam mesmo a uma necessidade do período feudal em crise, com muita gente desocupada e interesses comerciais acima de tudo. Por isso, houve muito saque e massacre das populações muçulmanas. E, incrível, também de cristãos que habitavam aquelas bandas do Oriente. Interesses comerciais, politicagem, sede de poder. E dizer que isso era uma guerra santa.... Francisco de Assis, que nasceu naquele período – ano de 1182 – também aventurou-se por este caminho das campanhas militares da guerra santa. Deve ter tomado parte na movimentação da Quarta Cruzada, segundo calculo, com 20 anos de idade.... Voltou doente, desiludido, angustiado. Foi então que escolheu a paz. "Onde houver ódio que eu leve o amor, onde houver trevas que eu leve a luz". Nada de ódio, de violência, de guerra. "Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz". Hoje é dia de São Francisco. Nada de guerra santa. Santa é a paz. © Pe. João Carlos |
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