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Vida Comunitária

1)  MODELOS

A Vida Comunitária precisa ter presente alguns modelos referenciais: teológico, antropológico e eclesial.

1.1.Modelo Teológico

O modelo teológico para a Vida Comunitária é o trinitário. A comunhão das três Pessoas divinas deve ser o primeiro referencial para a Vida Comunitária.
“O modelo trinitário é modelo da partilha entre Pessoas que se reconhecem e se espelham uma na outra e que ‘são’ e existem se doando uma à outra e se recebendo uma à outra, num interminável processo de amor”.
A convivência das diferenças – “as três pessoas divinas têm uma natureza idêntica, a natureza divina, mas na própria realidade de pessoas, dada uma é inteiramente diferente e original”.
 A Vida Comunitária é chamada à convivência das diferenças através da “partilha da vida e dos ideais, dos bens materiais e, sobretudo, dos espirituais”.
 A partilha – “significa colocar em comum a própria riqueza espiritual e, ao mesmo tempo, permanecer aberto à do outro; quer dizer, crescerem juntos, um com o dom do outro, para buscarem juntos a Deus e juntos se santificarem”.

1.2.Modelo Antropológico

Pela sua própria natureza o homem é um ser aberto ao relacionamento interpessoal. “Criando o ser humano à própria imagem e semelhança, Deus o criou para a comunhão. O Deus criador que se revelou como Amor, Trindade, comunhão, chamou o homem a entrar em íntima relação com ele e à comunhão interpessoal, isto é, à fraternidade universal” (VFC 9).
Infelizmente o pecado comprometeu o plano divino e “quebrou todo tipo de relação: entre o gênero humano e Deus, entre o homem e a mulher, entre o irmão e irmã, entre os povos, entre a humanidade e a criação” (VFC 9).
 Na Vida Comunitária, se faz necessário considerar esta vulnerabilidade humana oriunda do pecado (individualismo, narcisismo, mania de auto-realização, formas de inveja e ciúme, fraca disponibilidade para carregar os pesos do outro...).
 A Vida Comunitária é o lugar ideal onde se revelam as fraquezas e as trevas pessoais, os “monstros” e os vulcões escondidos em nós. Mas, pelo mistério divino que habita em nós, somos chamados, através da Vida  Comunitária, a superar a fraqueza humana e “a entrar um comunhão com Deus e com os irmãos”.

1.3.Modelo Eclesial

O Concílio Vaticano II propôs um modelo de Igreja-comunhão, o que deve ser também um referencial para a Vida Comunitária.
 Na Igreja-comunhão se dá a partilha dos carismas ad intra e ad extra. Na Vida Comunitária, podemos dizer que esta partilha de carismas deve acontecer entre os internos e com os externos.
Toda a riqueza da Vida Comunitária deve ser partilhada também com o mundo (os externos), o que seria o aspecto da missão.

2) COMUNICAÇÃO

A comunicação é elemento constitutivo da Vida Comunitária, pois se faz necessário “comunicar para crescer juntos” (VFC 29).
Sempre é bom se interrogar:
 - como está a comunicação na comunidade que participo?
 - qual é a qualidade da nossa comunicação cotidiana?
 - há mais comunicação fora ou dentro da comunidade?
 - a comunicação toca o que está no centro da nossa vida ou é apenas marginal?
 - que espaço ocupa a Trindade em nossa comunicação?

2.1.Comunicação Pobre

“Para se tornar irmãos e irmãs é necessário conhecer-se. Para se conhecer é imprescindível comunicar-se da forma mais ampla e profunda”(VFC 32). Mas quando a comunicação se detém em temas e elementos periféricos ela se torna pobre e traz conseqüências negativas para a Vida Comunitária.
 É notável que “a falta e a pobreza de comunicação normalmente geram o enfraquecimento da fraternidade; o desconhecimento da vida do outro torna estranho o confrade e anônimo o relacionamento, além de criar situações de isolamento e de solidão” (VFC 32).
 No âmbito espiritual a comunicação pobre gera conseqüências “dolorosas, porque a experiência espiritual adquire insensivelmente conotações individualistas. Com isso se favorece a mentalidade de autogestão unida à insensibilidade para com o outro, enquanto lentamente se vão procurando relacionamentos significativos fora da comunidade” (VFC 32).

2.2.Perspectivas

A nível de instituição

A autoridade competente de cada instituto deve intervir com determinação e clareza em favor da comunicação que é algo essencial para os Consagrados de Vida Comunitária.
 Outra questão que a instituição deve ter clareza é quanto à linha que se pretende seguir e, que, por sua vez, não pode ser algo “aconselhado” ou “recomendado”, mas sim “determinado”.

A nível de comunidade-particular

 
É necessário enfrentar explicitamente a questão da comunicação e da partilha “com tato e atenção, sem nenhuma coerção; mas também com coragem e criatividade” (VFC 32).
 Cada comunidade deve procurar “formas e instrumentos que possam permitir a todos aprender progressivamente a partilhar, com simplicidade e fraternidade, os dons do Espírito, a fim de que se tornem verdadeiramente de todos e sirvam para a edificação de todos (cf. 1Cor 12,7)” (VFC 32).

3) A COMUNICAÇÃO GERA COMUNHÃO

Quanto mais profunda for a comunicação na Vida Comunitária tanto maior a possibilidade de comunhão entre seus membros. De fato, nós somos feitos para nos encontrar, para dialogar e para amar porque somos “imagem de Deus”, e o Deus cristão é Trindade, que por sua vez “é uma comunidade de amor, é comunicação, ad intra e ad extra”.
Neste ponto vamos analisar as diversas modalidades de comunicações intencionais e não-intencionais e as atitudes do bom comunicador, que geram comunhão.

3.1.Comunicações Intencionais
A comunicação intencional acontece “quando o sujeito emissor sabe que está transmitindo uma determinada mensagem”.

Comunicações verbais

As comunicações verbais se dão através da palavra.
A vida das pessoas “é feita de comunicações verbais”. Por isso precisamos estar atentos, quanto ao uso correto ou incorreto da palavra e quanto ao mutismo, na Vida Comunitária.
A comunicação verbal, quando ambígua, pode criar divisão e confusão na Vida Comunitária. Antes de dizer qualquer coisa é muito importante uma reflexão pessoal, um silêncio interior para sondar os pensamentos e sua veracidade.
Sabemos que “a palavra verdadeira é também palavra direta, dirigida ao interlocutor ao qual é destinada e não bisbilhotada pelas costas ou dita a um para que o outro entenda”. Na Vida Comunitária, a regra geral deve ser – falar ao irmão e não do irmão.

Confiança – a comunicação verbal “é abertura da própria intimidade ao irmão e entrega a ele de segredos, problemas, coisas profundamente reservadas”. Como é triste “encontrar na boca de todos aquilo que fora confiado ao ouvido de um irmão e confiado ao seu coração”.

Comunicações sensoriais e com gestos

As comunicações sensoriais e com gestos são ricas de significado. Elas se dão através do corpo com suas variadas expressões. Vejamos algumas expressões e seus prováveis significados:
- ir ao encontro do outro = participação na sua vida;
-         mudar o trajeto para não deparar-se com o outro = fuga e sinal de não participação;
-         estar presente nos “atos comuns” = fidelidade, compromisso e, sobretudo, “é um sinal que expressa a importância da presença do outro na minha vida ou a alegria de estar juntos”;
-         capacidade expressiva do rosto ou do olhar = “sem dizer nenhuma palavra, quantas coisas se comunicam com o sorriso ou com uma olhada fria ou com um pequeno muxoxo de satisfação ou de maldisfarçado desprezo, com olhadas curiosas ou olhares ausentes; ou ainda com as mãos, com a posição do corpo, até com o silêncio que, de fato, é eloqüente”.

Comunicações simbólicas

As comunicações simbólicas “acontecem entre duas ou mais pessoas através da mediação de uma terceira realidade, o ‘símbolo’”.
Tomemos como exemplo um vaso de flor, cartão postal, telefonema, e-mail, o não fazer barulho fora do horário, são todos símbolos que expressam e comunicam consideração e afeto.
Na Vida Comunitária, precisamos estar atentos para não sermos insensíveis a este modo de expressar e comunicar os sentimentos.

3.1.Comunicações Não-Intencionais

As comunicações não-intencionais se dão “quando o sujeito emissor não sabe que está transmitindo uma determinada mensagem”. Podem ser meta-sensoriais conscientes ou inconscientes.
As comunicações meta-sensoriais conscientes “são aquelas comunicações cujo conteúdo o sujeito emissor conhece, mas que gostaria de não expressar” e, de uma ou outra forma, acaba transmitindo. É o caso, por exemplo, dos sentimentos-julgamentos formulados.
As comunicações meta-sensoriais inconscientes – são aquelas comunicações nas quais seu conteúdo “não é conhecido pelo sujeito emissor e, entretanto, é enviado a um sujeito receptor”. É o caso, por exemplo, dos sentimentos-julgamentos não formulados.
Como vimos até aqui, “comunicar é um fenômeno complexo e articulado, que não se reduz à simples palavra”.

3.1.Atitudes do Bom Comunicado

A qualidade é um fator fundamental na comunicação. Quando não há qualidade na dinâmica relacional, em vez de gerar comunhão a comunicação pode gerar divisão-confusão.

Estima ou desconfiança

O dom da estima ou a consideração positiva do outro é “a primeira condição para poder comunicar”. Pois, o outro “pode ser recusado por aquilo que faz, mas não por aquilo que é”, porque toda pessoa “é sempre amável pó aquilo que é”.
A estima desencadeia confiança e esta, por sua vez, faz com que o outro seja “capaz de comunicar, de ouvir e de se expressar livremente, dando a sua contribuição criativa e se enriquecendo através do diálogo”.
Mas “quando não há estima, ou ela é pobre, acontece exatamente o contrário” – a desconfiança toma conta da relação e o que prevalece é “medo, suspeita, pessimismo, posição defensiva, falta de liberdade e insinceridade de relacionamento”.
Em se tratando da Vida Comunitária, podemos dizer seguramente que a estima e a confiança para com os irmãos é o termômetro da estima e da confiança em Deus.

Responsabilidade ou irresponsabilidade

“Ser responsável é já em si um modo de comunicar, pois indica o ‘responsum’, a resposta que uma pessoa dá à pergunta que lhe é continuamente dirigida pela vida e pelos outros”. Neste sentido, “deveríamos naturalmente entender que somos responsáveis um pelo outro, e que expressamos e demonstramos essa responsabilidade também através da comunicação”.
 
Portanto, comunicação responsável significa “comunicação coerente e transparente”, sem rodeios e preocupada em “traduzir e expressar a verdade da radical, embora potencial, positividade do ser humano, quem sabe para lembrá-la ao interlocutor que dela duvidasse, ou para corrigir uma conduta que dela se afastasse”.
 
Já, a comunicação irresponsável, é própria de quem deseja trapacear o outro ou a si, ela “nasce de uma percepção distorcida, porque superficial e parcial, incapaz de alcançar a verdade positiva do ser humano”.
A comunicação irresponsável manifesta-se na pretensão de dizer “toda” a verdade em detrimento do outro, ou de modo mais sutil, “fingindo-se de bobo, vivendo relacionamentos neutros que se nutrem de mutismos e de palavras sem sentido, de silêncios que são e provocam violência, de gestos que indicam desinteresse, isolamento, incapacidade de se colocar ao lado ou de se importar com o outro”.

Simpatia ou apatia

A simpatia “é própria de quem, primeiramente, considera o outro digno de ser ouvido e levado em consideração”. Trata-se de uma atitude de esforço pessoal para ouvir o outro com atenção e seriedade a ponto de “colocar-se no lugar do outro” para “entender-sentir também as suas emoções e não apenas suas razões”.
O colocar-se no lugar do outro e sentir com o outro já é, de certo modo, “a passagem da simpatia para a empatia, do conhecer para o compreender”.
Simpatia é também a capacidade de silenciar-se diante do outro, que deseja partilhar sua vida, para ouvir e compreender melhor as razões do seu coração. Capacidade de silenciar as “as próprias categorias interpretativas (éticas, religiosas, políticas, culturais, etc.) e o instinto de julgar imediata e automaticamente com base nelas...”  É silenciar “as preocupações e interesses subjetivos, as distrações que impedem a atenção para com o outro...” É silenciar ainda “o operador que escuta somente em função da sua resposta ou do seu fazer, o doutor da lei que já sabe tudo e aplica a todos as sua receitas”.
Ao contrário da simpatia-empatia é comum surgir entre as pessoas a apatia. A apatia se expressa no “distanciamento, desinteresse, desatenção, não empenho, frieza, impassibilidade, neutralidade”. As pessoas apáticas, normalmente, ficam sozinhas e preocupadas “somente consigo mesmas e com seus compromissos”.

Complementaridade ou superioridade

As relações complementares são construídas a partir das comunicações ótimas, nas “quais cada um recebe e oferece, está disposto a ajudar e a ser ajudado”.
Nas relações complementares o mais importante não são as vantagens pessoais (cultura, cargo, idade, posição social etc.), e sim, a possibilidade de procurar e construir com o outro, a verdade. E isto faz surgir, naturalmente, o “ob-audiens”, ou seja, “um tipo especial de escuta” que leva cada um a obedecer o outro.
Mas, é bom lembrar que, quando alguém se coloca em grau de superioridade no relacionamento, acaba dificultando a escuta e o envolvimento responsável para com o outro ou o grupo. A mensagem de superioridade “suscita uma resposta reativo-defensiva por parte do ouvinte que, para não se sentir rebaixado, se tornará hipercrítico e recusará interagir”. Com isso fica evidente que “não haverá então nenhuma escuta e colaboração, nem de uma parte nem de outra”.
Indubitavelmente, a complementaridade não casa com superioridade, mas exige de cada um a capacidade de saber se colocar num plano de igualdade e de “aceitar a diversidade do outro como um valor que enriquece o próprio ponto de vista”.

Flexibilidade ou inflexibilidade

A flexibilidade está ligada diretamente à complementaridade. “A atitude flexível é própria de quem estabelece relacionamentos de complementaridade, como indivíduo que não se sente detentor mas procurador da verdade; e permanece aberto, portanto, para reconhecê-la onde se encontra”. Mas devemos ter claro que flexibilidade não significa a falta de “coragem de expressar as próprias idéias”.
É natural que a descoberta da verdade faça brotar a flexibilidade. Pois, “a intuição do verdadeiro permite distinguir aquilo que é essencial e central daquilo que não o é ou é menos; (...) a consciência, humilde e serena, de estarmos na verdade e caminharmos, embora com dificuldades, em direção a ela nos torna livres do zelo exagerado de convencer, de ter razão, de obter consenso e conquistar adeptos a qualquer custo, fazendo pressão e reduzindo tudo a dogma”.
Ao contrário da flexibilidade temos a inflexibilidade-intolerância. O inflexível-intolerante “não é capaz de se colocar num ângulo diferente para ver as coisas. Ele é sempre o certo; a verdade lhe pertence; toda ela; tem monopólio dela. (...) O diverso o perturba e o incomoda”.
Em se tratando da Vida Comunitária é óbvio que o inflexível-intolerante cria sérios problemas e dificulta a comunicação e, conseqüentemente, o processo de comunhão fraterna.

Com carinho e ternura.

Pe. Denilson Aparecido Rossi, imd
denilsonrossi@bol.com.br

Bibliografia: obra de AMADEO CENCINI,
“Vida Fraterna nos Tempos da Nova Evangelização”
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