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Um tempo para falar sobre morte

"Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer e tempo para morrer;..." (Eclesiastes3, 1-2 )

O milagre da vida e o mistério da morte são freqüentemente temas das mais profundas reflexões da humanidade. Através da busca de compreender a origem da vida e o significado da morte, muito tem se ampliado sobre o conhecimento de nossa natureza.

Vida e morte são duas fases de uma totalidade, duas formas de representar uma existência. Acostumados a privilegiar a vida, esquecemos que esta é cíclica e que para todo começo há um fim, em toda renovação é preciso que a morte leve o velho, abrindo espaço para o novo surgir. Aceitar a morte é aceitar que não temos controle, é um total desprendimento do Eu. Implica em aceitarmos uma dimensão que transcende a consciência.

Nossa sociedade exige hoje uma atitude positiva, e o otimismo precisa estar presente em todo o movimento. Estamos preocupados com a perfeição e nada pode sair do nosso controle. A realização, a felicidade e o progresso são pré-requisitos para a nossa aceitação. Já, a morte, é a maior expressão de impotência, imperfeição e falta de controle que temos. Hoje, em um momento cada vez maior de detenção de conhecimento e controle dos efeitos prejudiciais que nosso organismo possa sofrer, a fragilidade vivida diante a perda de uma pessoa ou a morte anunciada por uma doença é contrária a onipotência do nosso saber.

A morte é um fenômeno complexo, um dos conflitos fundamentais do ser humano, e que passa necessariamente pelo enfretamento de seu limite dentro do universo. A única certeza que possuímos sobre a morte é o fato dela ser certa para todo organismo vivo. E, é a consciência humana, uma diferença supostamente privilegiada, que nos condena a antecipação e reflexão sobre a finitude.

Viver bem pede que se aceite a morte, pois somente com a integração e aceitação destes dois opostos é possível estarmos na vida. Françoise O`Kane exemplifica muito bem isso ao interpretar o mito de Cristo no Getsêmani. Deus exige a morte tanto quanto ele dá a vida. Cristo enquanto humano sente a angústia de estar frente à morte e pede ao pai, que se possível, "afasta de mim este cálice". Cristo, humano, precisa resgatar o Pai-a totalidade, que é vida e morte. Na tentação, em sua angústia, Cristo pede para evitar a morte. Logo reconhece que esta não poderá ser evitada, não pela ressurreição que é conseqüência do ato completo, mas sim porque viver é entregar-se a algo maior que nós mesmos, é entregar-se à totalidade. Deus exige ambas, vida e morte, para a vida em sua totalidade.

A religião para muitos autores é o caminho compensador para todos aqueles que não conseguem enfrentar a dura realidade da morte. A idéia de que a religião compensa nosso medo frente o morrer é real, porém não é a única explicação. Pensar que algo sobrevive para além da vida, é uma observação do mundo real, algo realmente sobrevive quando algum traço da morte permanece: "Os mortos continuam, acima de tudo, na memória e nos filhos; como eles continuam é outra questão." Para Bowker a indagação religiosa é muito mais profunda, é uma afirmação de valor da vida humana, reconhecer que a vida leva a vida, que o ser humano entra na vida, a ganha e também ganha a morte.

Enquanto psicóloga, aprendi que perto da morte queremos falar sobre ela, trocar sensações sobre este grande mistério, dividir emoções que transbordam nosso ser no mais desconhecido momento de nossa existência. Nós, profissionais de saúde e religiosos, que estamos sempre envolvidos com a vida, lutando pela sua preservação, qualidade e dignidade, não podemos esquecer que esta vida é humana, de que há um tempo para nascer e um tempo para morrer.

Com todo avanço tecnológico e científico, com todo o conhecimento que possuímos, parece que cada vez mais nos encontramos despreparados para lidar com a dor e o sofrimento humano. Não sabemos ouvir o outro, não permitimos que ele se expresse e nos fale daquele lugar que todos tememos e que inevitavelmente para onde todos iremos.

Acompanhar alguém no sofrimento, não é evitar a dor, é acompanhar o processo, pois sabemos que o desespero não é totalidade da vida. Um sacerdote, por exemplo, ao rezar pelo morto, confirma a morte e professa a fé na ressurreição, pedindo a Deus que o acolha nesta nova vida na eternidade. Uma esperança cresce, um conforto é recebido e surge uma possibilidade de dar sentido para a vida.

Estar junto do outro, em muitos momentos, é a única forma de ajudá-lo. O ser humano marca toda a sua existência por vínculos afetivos que constrói em sua solitária jornada. "Ame aos outros como a si mesmo e a Deus sobre todas as coisas". Cristo nos ensina que o amor experimentado e partilhado dá sentido à vida, e que o respeito ao próximo nos ensina a sermos humanos.

Não vamos "curar", nem "acabar" com a morte. Somos mortais e, assim, passamos pela vida sofrendo as marcas da difícil tarefa que é viver, até o fim. E depois do fim, a eternidade. A vida após a morte só pode ser concebida pela nossa imaginação. Imaginar é criar uma nova possibilidade, diferente da realidade existente. Acreditar nesta criação é ter fé.

Maria Cristina Mariante Guarnieri
e-mail crisguarnieri@uol.com.br

 

 

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