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AS BASES DETALHADAS DA FILOSOFIA AGOSTINIANA EM CONFISSÕES:

Mauro Araujo de Sousa[1]

            Em torno de que move-se a filosofia agostiniana? “Deum et animam scire cupio”, traduz-se: é de Deus e da alma que ela trata. No fundo, sua filosofia é uma busca da compreensão das paixões humanas e seu relacionamento com Deus. Esse Deus é a luz que traz ao homem a sabedoria, o acesso à verdade. A teoria do conhecimento de Agostinho é baseada na revelação divina e a razão e sentidos humanos são o meio de sua manifestação. E a sede de amor que acompanhou o bispo de Hipona foi suprida pelo amor a Deus. O platonismo acaba convertido em cristianismo e surge, de modo forte, a filosofia cristã[2]. Para isso, suas ferramentas foram o estudo dos clássicos e a fé. Agostinho realiza uma filosofia da Graça, justificada pelo seu próprio objeto. Ele indica o cristianismo como uma filosofia e, assim, sustenta sua Igreja. E também o Santo em destaque é esse misto de filosofia e poesia, que não deixa nem a razão e nem a fé perecerem. Contudo, é bom lembrar que um certo ascetismo se faz presente nele, sendo por essa via, a da ascese, que ele dá novo enfoque ao seu metabolismo passional. Na filosofia agostiniana, se encontra a adoção de um gênero ascético, em que tudo é filtrado pela fé cristã. Os sentidos continuam fortes, mas agora agem em nome de uma purificação. A paixão de outrora se transforma em paixão exclusiva pelo Transcendente. É a filosofia religiosa do filho de Mônica, após a conversão. Mesmo com essa mudança de foco, uma coisa é certa, a de que o ser humano não vive sem paixão e eis o outro viés de seu modo de operar com a filosofia. Mas, há aqueles que analisam que mais que converter-se ao Evangelho, Agostinho converteu-se mesmo ao neoplatonismo para superar sua crença maniqueísta através da teoria do Uno de Plotino, com uma mistura de misticismo e platonismo. Visto, no entanto, de outro viés, o neoplatonismo acaba endossando o cristianismo e não atacando os cristãos e os gnósticos como pretendia Plotino. Parece, portanto, que é o Santo que faz a conversão de tal filosofia e não o contrário, conseguindo sustentar o monoteísmo e a idéia da Trindade sem entrar em contradição. Deus é Espírito, sua emanação, e o Filho, sua encarnação. Deus é Uno e Trino: o Pai, o Filho e o Espírito Santo são a Trindade Divina, que sendo três pessoas, são um só Deus, porque o princípio e fim são o mesmo e há a eternidade. Entra-se naquilo que se faz interpretação hegemônica, ou seja, a filosofia agostiniana é um misto de cristianismo, platonismo e neoplatonismo, com ênfase ao primeiro, daí ser sua a expressão “filosofia cristã”.

            Sobre a conversão de Agostinho, em específico, teria sido um ato súbito ou fruto de uma evolução lenta e progressiva, vindo esta última teoria baseada desde os esforços de sua mãe em vê-lo nas fileiras do cristianismo? Se valer a primeira hipótese, a cena no jardim de Milão, quando ele ouviu o chamado especial ao ler as palavras do apóstolo Paulo, se justifica. Valendo a segunda hipótese, tal cena fica um tanto sem sentido, parecendo mais uma montagem. Seja como for, o que conta é a decisão do filho de Mônica no ingresso ao cristianismo com dedicação exclusiva de sua vida. É esse ato que emerge como marco capital de sua conversão. Mas, em geral, há um consenso sobre a sinceridade do Santo na sua obra Confissões, que revela sua intimidade. Na realidade, há que se considerar que todo um conjunto colaborou para o modo de Agostinho expor suas idéias, mesmo a respeito de si mesmo e sua conversão. Ele entrou em contato com a sabedoria helênica e o neoplatonismo lhe fincou raízes no espírito e, de outra parte, a sabedoria judaica-cristã e seu conteúdo religioso expresso no Evangelho também penetrou profundamente em sua alma. O bispo de Hipona carregava dentro de si uma síntese entre filosofia e teologia, sendo seus escritos prova disso. Logicamente, em sua condição de membro do clero, a versão teológica se sobrepunha, não apagando, porém, suas outras influências, mesmo que filtradas. Até mesmo aquela que recebera do maniqueísmo, pois apesar de suas teses se esforçarem em justificar somente a existência do bem, pois o “mal” seria distanciar-se desse bem, essa dualidade sempre perturbou-lhe a ponto de querer encontrar uma explicação decisiva para assentar-se tanto filosoficamente como teologicamente. Terminou por optar pela inexistência do mal, isto é, o mal como não-ser, porque só o bem é, existe. Contudo, isso seria uma fachada teórica, afinal o Doutor da Igreja tinha como tarefa esclarecer os princípios do catolicismo contra o maniqueísmo. Qual a saída dessa perturbação que o perseguia? A formação da teoria da graça divina e foi a ela que ligou sua experiência de conversão, defendendo Deus do mal através também da doutrina do livre-arbítrio e, ao mesmo tempo, exaltando a superioridade do Sagrado. A conclusão é que a graça é mais poderosa que o livre-arbítrio, pois mais do que a própria escolha humana, é Deus quem escolhe o ser humano e cria-se, portanto, um mistério que envolve a escolha divina. Agostinho, desse ponto de vista, acreditava-se um eleito? Tudo indica que sim, o que não tira o valor de suas reflexões e nem de sua autobiografia nas Confissões.

            A obra em foco segue três dimensões do confesso: a confissão dos pecados, a confissão da fé e a confissão do louvor. Foi o trajeto do esquema teológico agostiniano para expor o principal, seja isso a fé cristã. É o objetivo da Patrística e Agostinho, como seu representante máximo, não poderia ficar de fora nessa meta. A sustentação da fé católica passou pelas mãos do bispo de Hipona, assegurando a ela uma forte doutrina que seguiu Idade Média adentro e até mesmo mais. Apesar das afirmações escolásticas de um outro Santo, Tomás de Aquino (1225-1274), que cristianizou Aristóteles, o primeiro não perdera seu brilho. Mais tarde, com os jansenistas, os quais foram combatidos pelos jesuítas, a doutrina da predestinação se fortalecia, pois estes seguiam a crença do bispo holandês Cornélio Jansênio (1585-1638) da graça como privilégio de poucos, idéia que floresceu e seguiu crescendo, principalmente através do Convento de Port-Royal, Paris, onde despontou um dos seus mais acirrados defensores, o filósofo Blaise Pascal (1623-1662). Porém, longe da idéia de “mal” adotada por Agostinho, os jansenistas negavam a existência do livre-arbítrio, o que, entre outras coisas, lhes acarretara a condenação como heréticos. No caso, especificamente, de Pascal, a Igreja serviu-se de seus escritos e, principalmente, contra o ceticismo filosófico, já que o filósofo vinha dessa linha, através da teoria pascaliana da aposta, pois se as chances de outra vida existir ou não são as mesmas, é preferível apostar na sua existência, assim o homem nada teria a perder e, pelo contrário, estaria garantido no caso de uma salvação eterna. Retirando a crença no livre-arbítrio, os jansenistas tiravam da Igreja Católica a responsabilidade do homem sobre o mal[3], acarretando isso um outro tipo de cristianismo. Isso também balançava um dos pilares agostinianos, além da radicalização da fé na predestinação. Em verdade, os jansenistas também mexeram numa certa contradição que vinha desde o bispo de Hipona entre a teoria da graça divina e a do livre-arbítrio, ou se vai por uma ou por outra. Um dilema.

            Do ponto de vista religioso, as Confissões seriam, em primeiro lugar, um elogio à grande misericórdia de Deus e, em segundo lugar, em ato de contrição do próprio Agostinho. O mesmo deixa isso claro ao longo da obra. Ele também quer confessar sua experiência da grande força divina e exortar que todos contemplem as obras de Deus e O louvem sem cessar, porque todo espírito é sua criação. É um livro laudatório também. O autor expõe suas confidências mais íntimas e, ao mesmo tempo, endereça seus escritos a Deus, louvando-O sempre, e aos homens. O bispo de Hipona acreditava que, em sua forma de escrever, atingiria o entendimento dos homens, dispondo-os a abrir seus corações à crença da graça divina contra o desespero de uma existência errante. Esperava que o amor de Deus se manifestasse dentro dos corações de seus leitores. Nesse aspecto, pois, o livro contém um outro objetivo: o de favorecer a conversão. O filho de Mônica fizera desse seu escrito uma particular meta, seja a de que os seres humanos pudessem confessar seus erros e aceitarem a infinita misericórdia divina. Ele mostra-se, assim, como exemplo e reporta-se à sua vida de pecado e, depois, ao efeito do amor de Deus sobre si, dando provas da possibilidade da salvação mediante o poder do Criador. Se em parte da obra, Agostinho narra sua própria experiência de conversão, noutra trata das Sagradas Escrituras e interessante é o modo como expõe seu contato com a Palavra de Deus, pois se antes da conversão tinha uma “curiosidade maligna”, como dizia, a respeito da mesma, depois de conhecê-la como converso, pôs-se a difundí-la para revelar sua magnitude. Tem-se aí mais um motivo para a causa das Confissões, a saber: louvar a Deus pelas Suas próprias palavras. E, além disso, Agostinho traz o dualismo platônico para sua religiosidade ao abordar temas sobre a natureza, a memória, o tempo e a criação em geral, contrapondo corpo material e corpo espiritual, terra e céu, no sentido deste mundo e de um outro mundo, atribuindo ao espírito e ao céu a verdadeira realidade contra a falsidade, os enganos do “Mundo das Sombras”, o que lembra em muito a dualidade platônica. Entretanto, Agostinho diferencia espírito de alma, pois o primeiro parece ser apenas o elo de ligação entre o corpo e a alma, sendo esta, portanto, mais livre que o espírito. O espírito atua pela memória e a alma vai além, sendo ela que garante a imortalidade ao indivíduo como criado por Deus à sua imagem e semelhança. A alma também assegura à memória intelectual o acesso às coisas da ciência do espírito e do pensamento em geral, possibilitando ao ser humano o conhecimento sem a necessidade de acesso à memória do sensível, a qual funciona pela formação das imagens no contato com o mundo terreno. Por isso, o verdadeiro conhecimento vem de Deus, através da alma e é ele, esse conhecer, que permite ao homem um raciocínio profundo a respeito do próprio sentido de sua existência. A epistemologia agostiniana é essencialmente dedutiva, justificando a “prioridade” da razão, porém segundo a fé. E o mundo em que vivemos só tem valor no âmbito da hierofania.

            Mas, algo de forte permanece em Agostinho mesmo após sua conversão: a sua força passional. Ele comenta sobre isso e faz uma análise da paixão e como ela é capaz de adentrar à memória e confundir o espírito, desorientando a alma em seu estado puro. É por isso que o bispo de Hipona concede tanta importância à graça divina. Somente Deus pode transformar as paixões humanas em forças contemplativas contra o que o Doutor da Igreja nomeou como “tentações”[4]. Era de si mesmo que o Santo falava, de como seu interior fora transformado por Deus. A idéia expressa nas Confissões a respeito disso é a da entrega total ao Criador, deixando a Ele os disparates do cotidiano. É a confiança de que Deus tem o poder de dirigir a alma que lhe é cara. E o estado de graça, na concepção de tempo agostiniana, é sempre presente, pois no Criador não há passado nem futuro, porque “Ele é aquele que é”. Pela graça de Deus é que a alma reconhece sua eternidade, que advém da eternidade divina. No tempo terreno, entretanto, isso é invisível, apenas ideal, porque é o tempo da corrupção. Por todas essas questões é indispensável que o homem se preocupe com o estudo sobre o tempo e saiba perceber o que passa e o que permanece. A compreensão sobre o tempo é possível, porque ela acontece dentro do espírito entre o corpo e a alma. Em Santo Agostinho, a metafísica, como se nota, ocupa lugar central e ao homem é dado conhecer aquilo que Deus permite, assim, novamente, a teoria da graça se expõe com força total. Nas Confissões, enfim, o bispo de Hipona mostra como concilia paixão, fé e razão no seu amor à teologia. O velho e conhecido jargão agostiniano aqui se expressa mais uma vez: “compreender para crer e crer para compreender”. Dentro dessa condição, no entanto, é necessário uma outra, o da perseverança, que é um dom de Deus e, por isso, deve ser muito bem utilizada enquanto tal. Apesar de todas as reflexões feitas no sentido teológico, ainda, dentro das Confissões, vê-se mais o homem Agostinho e não o teólogo e bispo Doutor da Igreja. Por que dessa forma? Porque o filho de Mônica abria-se para todos, revelando sua sensibilidade natural e tendência ao bem humano, mesmo que em sua alma ainda persistisse lutas violentas entre a paixão humana e a graça, o que o fazia tomar muito cuidado com o seu livre-arbítrio.

            É fato que, ao ler as Confissões, ao bom leitor é possível notar o quanto o coração ardente de Agostinho continuava a pulsar. Porém, discreto, ele continuou o trabalho que começara, o de entregar-se às coisas da fé. Ele vivenciou fortemente o próprio dualismo que expressou em seus escritos e também a busca por uma conciliação, que momentos aparecia e momentos se fazia distante, fazendo-o optar pela crença no além como solução para uma alma desesperada. Não é por acaso que, ao fim de sua vida, reforça sua opção pela “Cidade de Deus” contra a “Cidade dos Homens”.


[1] Doutorando em Filosofia, mestre em Ciências da Religião e especialista em História pela PUC-SP, com formação graduada em Filosofia e História pela FAI-SP e Franca-SP.

[2] Quanto a isto é interessante prestar atenção, em especial, ao capítulo 20 do Livro VII, na I Parte das Confissões. O mesmo é intitulado: Do platonismo à Sagrada Escritura.

[3] Teoria esta, cara a Agostinho, que, como já visto, defende que o mal é um afastamento do bem realizado pelo livre-arbítrio humano, além de que o mal não é uma substância e sim é ausência dela, o mal não existe: é um não-ser. Mal significa apenas afastar-se do bem pelo livre-arbítrio. Para saber mais, ler: Agostinho. Confissões. I Parte. Livro VII (reparar todos os capítulos que tratam do mal).

[4] Quanto a tal assunto, ler: Agostinho. Confissões. II Parte. Livro X, em que predominam a descrição da memória e a análise às seduções dos pecados.

 
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