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IMAGEM MATERNA DO AMOR DE DEUS.

No Brasil, maio é marcado pelo Dia das Mães e pelo costume católico da devoção a Maria. As comunidades católicas veneram Maria, invocando-a sob diferentes nomes e formas. O catolicismo popular é tão marcado pela figura dela que isso provoca dificuldades com outras igrejas. Em 1997, após anos de reflexão e diálogo, representantes de diversas igrejas publicaram o documento Maria na vida da Igreja e na comunhão dos santos, o qual ajuda-nos a aprofundar a fé e a dialogar melhor com outros cristãos. É importante retomar os elementos deste documento e aprofundar o lugar de Maria na nossa fé.  

Diversos títulos da mãe do Senhor

A divisão entre católicos e protestantes começa pelo modo de designar a mãe de Jesus. Os primeiros a chamam de Nossa Senhora e, no decorrer dos tempos, lhe deram muitos títulos e nomes, cada qual com sua própria imagem: Nossa Senhora do Carmo, da Glória, da Aparecida. São imagens e títulos da única mãe de Jesus, mas nem sempre isso é claro.

Os evangelhos são muito discretos sobre Maria. Assim mesmo neles descobrimos alguns de seus títulos fundamentais. O primeiro é o nome que Deus lhe dá. A tradução mais comum é cheia de graça. O grego usa um termo único: Kecharitomene. Seria graciosa. Este título descreve a vocação de Maria e o mistério mais profundo de seu ser. Nela, tudo é graça. Maria foi a primeira salva por Deus, através de seu filho Jesus. Isabel a recebe em casa e chama mãe do meu Senhor!, bem aventurada e crente (cf. Lc 1,39-45). A própria Virgem se intitula serva do Senhor, na resposta ao seu anjo: “Eis aqui a serva do Senhor” e no cântico com o qual agradece a Deus o que ele fez a sua humilde servidora.

O evangelho de João a chama mãe de Jesus, presente na festa de casamento em Caná e também ao pé da cruz do Senhor. Nestas duas ocasiões, o próprio Jesus a chama com o misterioso título de mulher. Maria resume e refaz a sua vocação da mulher e da humanidade na criação e na história da salvação.

Maria, Imagem de Israel e da Igreja

As comunidades cristãs se sentiram herdeiras da tradição espiritual de Israel. Para elas, Jesus é o resumo do Israel fiel a Deus e, ao mesmo tempo, o cumprimento da promessa de Deus ao seu povo. Maria é a imagem da comunidade de Israel, fiel ao Senhor. O evangelho conta o anúncio do anjo a Maria (cf. Lc 1,26-38), inspirando-se em Sofonias capítulo 3, versículo de 12 a 20. Maria é a virgem filha de Sião, como no tempo do profeta, Israel empobrecida esperava a salvação do Senhor, seu esposo. Nas bodas de Caná também a mãe de Jesus é a imagem de Israel obediente (cf. Jo 2,1-11).

O Concílio Vaticano II chama Maria de figura do novo povo de Deus e mãe da Igreja (Lúmen Gentium, 8). A Igreja é sinal de porção desse novo povo de Deus, mas este não se restringe à Igreja. Em Maria, contemplamos a humanidade reunida e reconciliada. Não por algo que ela tenha feito, mas por sua vocação de acolher a graça e gerar o filho de Deus. No século 7°, dizia São João Damaceno: “Maria gerou o Verbo (a palavra de Deus) primeiramente em seu coração e somente depois no seu ventre materno” (Lc 11,28).

Maria e o Ecumenismo

Existem preconceitos de lado a lado. Católicos dizem: “Os protestantes não amam a Virgem Maria” e os evangélicos acusam os católicos de adorá-la. Essa divisão não existia no  início do protestantismo. Lutero e outros reformadores tinham profundo amor por Maria. Em 1521, Lutero começa seu comentário ao Magnificat, dizendo: “Que a doce mãe de Deus me dê um espírito capaz de fazer do seu cântico um comentário útil e profundo”. No final, completa: “Que Cristo nos conceda uma justa compreensão do Cântico da Virgem, pela intercessão de sua querida mãe Maria. Amém”.

Os reformadores protestaram contra desvios e exageros na devoção Mariana no final da Idade Média. Parecia que o povo adorava Maria. Era preciso insistir que Jesus Cristo é o único Salvador e Mediador junto ao Pai (cf. 1Tm 2,5). O Concílio Vaticano II reintegrou a devoção a Maria na comunhão dos santos, centrada na mediação única de Jesus Cristo. Hoje existe a Sociedade Ecumênica da Bem-Aventurada Virgem Maria, fundada em 1969 por católicos e protestantes, na Inglaterra, com a finalidade de mostrar que Maria pode ser sinal de unidade e não de divisão entre os cristãos. Conta com 2 mil membros, organizados em cédulas locais espalhadas por diversos países. É coordenada por um bispo católico, um anglicano e um metodista. A preocupação com a unidade nos faz aprender uns dos outros e nos converter juntos a Cristo.

Devoção ecumênica a Maria
O Apocalipse liga a figura da mulher que gera o Messias (Maria) com a terra e a humanidade nova (cf. Ap 12). Na América Latina, o amor que as comunidades têm a Maria é herança da relação de nossos antepassados com a mãe terra. As comunidades não adoram Maria nem isolam seu culto da intercessão de Jesus, nosso Salvador. A sensibilidade evangélica nos pede para tomar cuidado com a idolatria. É idolátrico atribuir a Deus o que é da criatura. Mas não é idolatria reverenciar a dimensão divina que Deus pôs em toda criatura. Maria é figura e profecia disso como mãe da compaixão; uma das figuras bíblicas do Espírito de Deus.

 

Marcelo Barros é monge beneditino, teólogo e escritor

Família Cristã

maio de 2000

 
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