“Os limites da razão e as razões da fé”
Ninguém, em sã consciência,
pode ignorar o Iluminismo como fenômeno cultural que submeteu as mais
variadas crenças, sobretudo as religiosas, a uma profunda crise de identidade.
A razão passa a ser o novo critério de referência.
1.1.
História e tradição O pensar teológico, por sua ligação com a filosofia, enfatizou sobremaneira a dimensão racional do ser humano. Foi assumindo cada vez mais as feições de um pensamento racional, elaborado segundo os cânones da razão. A
argumentação e demonstração constituíam as expressões de toda sua elaboração.
A própria escritura, entendida como Revelação no sentido literal, enquanto
comunicação de verdades pelo próprio Deus, foi utilizada como fonte de
demonstração. 1.2.
O advento do iluminismo Iluminismo – segundo Kant, a “Idade da razão”. Dali em diante, nada mais poderia ser aceito sem passar pelo crivo da racionalidade. O que não cumprisse essa norma seria considerado superstição e alienação. Isso afetou a teologia. A teologia católica ficou um pouco à margem desse processo. Em tempos recentes, incorporou, com muito vigor, sua influência. Desenvolveu-se um complexo de inferioridade. Somente uma mente não evoluída seria capaz de aceitar um dado de fé, aderir às informações teológicas. Como reação surgiram modelos teológicos impregnados pelo espírito do Iluminismo, a ponto de se chegar a uma total descaracterização da fé e da teologia. O que ocorreu na verdade, foi uma profunda reviravolta antropológica que, ao recuperar elementos esquecidos pela teologia, como é o caso da centralidade do ser humano, situou a antropologia em flagrante oposição à teologia. Ficou quase impossível acreditar simultaneamente em Deus e no ser humano. Descaracterização
de Jesus, que passa a ser somente modelo de conduta moral. 1.3.
Formas de reação Surgimento da Teologia Dialética – É a teologia da ruptura. Distancia Deus do homem. A diferença infinita entre Deus e o homem é a única relação entre ambos. Teologia Histórica – Verdades relevantes da fé, tais como a divindade de Jesus e sua ressurreição dentre os mortos, poderiam ser reconhecidas e aceitas por toda pessoa intelectualmente honesta que fizesse uso adequado do método da Ciência Histórica. Teologia Política – Operando uma desprivatização da fé, enfatizando a dimensão política da vida e morte de Jesus, enquanto resultado de um conflito com os poderes constituídos, e pondo em destaque a responsabilidade política dos cristãos. O
ser humano é essencialmente racional e, no exercício da racionalidade
lógica,atinge o ponto mais alto de sua expressão. Daí a dificuldade de
aceitar enunciados, formulações e até posturas que não se enquadrem nos
cânones da racionalidade. Uma reflexão passa a ter valor a partir de sua
lógica ou de sua demonstração.
A teologia nem sempre teve consciência de que, ao sustentar a definição do ser humano como animal racional, e ao compreender a razão como origem e limite de todo conhecimento humano e sua expressão como argumentação e demonstração, a realidade da fé torna-se literalmente inviável. A própria fé, evidentemente, busca compreensão e expressão na racionalidade. Se a razão determina o limite intransponível do ser humano, a revelação só poderia ser interpretada como comunicação de verdades a cargo de Deus e o ato de fé deveria situar-se aquém da razão, revelando-se com isso irracional e, por conseguinte, inaceitável. Há que se reconhecer, infelizmente, que a teologia em tantos séculos de história, em suas intermináveis polêmicas, não se deu ao trabalho de buscar e explicitar a raiz antropológica do ato de fé. Temos aí uma tarefa das mais urgentes se quisermos que o discurso teológico tenha o seu espaço e seja capaz de oferecer uma palavra de sentido para a humanidade. Alguns professores de antropologia acreditam que não seriam levados a sério se não excluíssem de forma veemente toda postura não racional que se inspirasse na fé, especificamente na fé religiosa. Como, no entanto, ninguém vive de enunciados bem elaborados e de asserções inspiradas na lógica da razão, é bem mais comum de quanto se possa imaginar, o caso de implacáveis racionalistas no espaço de toda espécie de crendices e superstições, de temores irracionais e até mesmo de uma autêntica vida de fé. Wolfhart Pannenber, em sua obra “Antropologia em Perspectiva Teológica”, insinua que as deformações neuróticas que encontramos em nosso tempo, poderiam ser explicadas, mais do que em razão de outros fatores, sobretudo por causa da supressão da religião e da função que ela exerce na busca do sentido. O
que podemos constatar é que a argumentação e a demonstração deixam a descoberto,
justamente, as dimensões mais fundamentais e significativas da existência
humana. A argumentação e a demonstração não têm qualquer incidência nas
experiências do amor e da amizade, que permitem ao ser humano atingir
os pontos mais altos de realização e plenitude. Pelo contrário, elas traem
as exigências mais elementares da lógica e jamais podem ser produzidas
artificialmente. Nelas, as capacidades produtivas do ser humano, em termos
de razão e de trabalho, para nada servem, uma vez que em seu interior
o próprio ser humano é substancialmente receptivo e não produtivo.
Dois fatores profundamente ligados entre si precisam ser levados em consideração: o mistério da pessoa e a indeterminação da liberdade. Por sua dimensão de mistério, o ser humano não pode ser desvelado por inteiro e, portanto, ser possuído, dominado, instrumentalizado. Nenhuma ciência humana, por mais bem elaborada que seja, consegue desvendar o enigma humano. Se o mistério fosse desvendado, a pessoa se tornaria um objeto. A razão só poderia ocupar posição de primeiro plano, por conseguinte, se fosse possível desvendar o mistério da pessoa. A razão guiaria o homem, e sua liberdade seria suprimida, sendo que, não tendo o mistério desvendado, o homem goza de liberdade e é imprevisível. No
ato de fé, o ser humano encontra o espaço e o momento inspiradores de
suas mais significativas experiências e realizações. Ao contrário do que
supõem os racionalistas, a fé eleva e não deprime a existência humana.
Se, diante da realidade conhecida, podemos mover-nos com segurança, em
face do mistério a razão se cala, tantas vezes em muda contemplação. Mesmo
que não adentremos para o terreno da fé religiosa, uma vez que não podemos
ultrapassar o reconhecimento de sua experiência e de seu valor, sem jamais
provar a existência de seu objeto, há que se concluir que, sem fé, pelo
menos na dimensão antropológica, a vida é literalmente impensável.
É o momento em que o ser humano sente que deve admirar e que não poderá exprimir em palavras. É o momento em que as categorias racionais tomam consciência de suas próprias limitações, não podendo atingir justamente o que há de profundo e significativo. É o momento em que a lógica rigorosa cede seu espaço para a expressão artística e para a linguagem poética. Aqui a razão cede seu lugar à atitude contemplativa. Não
devemos diminuir, em nada, a razão humana. Sem ela, o homem está privado
da capacidade de discernimento. Devemos reconhecer sua dignidade e elevação.
Não é quando ela é aplicada com rigor que surgem os problemas, e sim,
quando ela exorbita, pretendendo preencher todos os espaços e proferir
a última palavra. Ela precisa ceder espaço para a experiência mística,
que possibilita ao ser humano vivenciar o inexprimível em atitude contemplativa.
Nem
sempre a fé se expressa em dimensão religiosa. Assim, para vivenciar uma
vida de fé, o homem não precisa acreditar que existe Deus e uma vida após
a morte em comunhão com Ele. 5.1.
A mesma matriz São três as dimensões do ser humano: a física, a psíquica e a espiritual, que integra o chamado universo religioso, no qual ocorre, de forma consciente, a experiência do sagrado. Embora tenda a expressar-se nas situações do cotidiano, a dimensão religiosa emerge nas situações limites: a experiência da dor, a busca do sentido último, as razões da esperança, o sentimento do absurdo, a perspectiva inevitável da morte. Quem já não experimentou, no fracasso, na frustração, no desespero, o surgimento de energias ocultas, de forças impensadas, de razões de esperança? Quem já não vivenciou um sentido de vida quando tudo ao redor parecia sem sentido? Quem já não clamou, em face do caos e do absurdo, por uma ordem significativa? Quem já não se extasiou, em face da exuberância da natureza, indagando por uma causa? Mesmo que essas indagações não possam provar a existência do objeto da religiosidade, há que se reconhecer que ali se levantam perspectivas essenciais, que permitem ao ser humano viver com dignidade, superar os impasses que afligem seu peregrinar pela história. Não é possível ignorar que, na ambiguidade da condição humana, a religião também seja fonte de fanatismos, de irracionalidade, de toda espécie de neuroses. Mas seria insensato fechar os olhos para o fato de que autênticas experiências religiosas inspiraram, e continuam inspirando, equilíbrio, maturidade, gestos radicais de generosidade, até o ponto de sacrificar a própria vida. A
supressão da religião, no ponto desta perspectiva, teria efeitos desastrosos
na vida das pessoas. Sabemos perfeitamente que a materialização do objeto
maior da experiência religiosa (Deus e a plenitude da vida no encontro
com Ele) pode levar à ilusão, e por conseguinte, à alienação. Mas isso
ocorre com todas as experiências cujas perspectivas alimentam a esperança. 5.2.
Uma diferença de gênero No
fundo, toda pessoa sensata reconhece o valor do ato de fé. As reações
em contrário costumam ocorrer apenas quando está em jogo a fé religiosa.
Nunca é demais enfatizar, com toda força, que o objeto da fé religiosa
não pode ser provado, da mesma forma como todo objeto de fé não religiosa
que alimenta a esperança humana. As chamadas religiões históricas insistem
em proclamar que encontraram alguém capaz de assegurar plenitude a toda
existência humana. Isso quer dizer: Deus não seria um objeto cuja existência
se demonstra e, sim, uma pessoa que se encontra nas vicissitudes da história.
As religiões perdem credibilidade para as pessoas conscientes quando não
conseguem buscar suas raízes na existência humana, embora sejam capazes
de seduzir as pessoas desprovidas de senso crítico. 5.3.
A fé cristã e as aspirações humanas fundamentais Há
uma consciência de fundo entre o conteúdo do Evangelho e as mais profundas
aspirações humanas. A fé cristã proclama a existência de um Deus criador
e reconhece que o ser humano tem consciência de que não é ele mesmo o
autor da sua existência. Ela envolve as pessoas na realização do projeto
do Reino de Deus e nele afirma a possibilidade de uma vida em plenitude.
Ela reconhece em Jesus Cristo o Filho de Deus, e o percebe inteiramente
coerente com tal projeto, a tal ponto de permitir crer que Ele mesmo seja
o Reino de Deus, ou que tal Reino não sobreviva sem sua pessoa. Ela crê
no Mistério da Comunhão dos Santos e dá-se conta de que a vida de comunhão
constitui desejo profundo de todo ser humano. Concluindo Terá a teologia alguma significação no século que se aproxima e no 3º Milênio? Se, mesmo ligando com o Mistério, e justamente por isso, ela pretender competir com as ciências, elaborando-se como saber trabalhado pela razão e por ela controlado, revelar-se-á fatalmente irrelevante. Ela deve alimentar a consciência serena de que a razão jamais poderá deter a última palavra, mesmo devendo discernir, distinguir e julgar em face dos constantes desafios que lhe são lançados pelo tempo, pelo espaço, por todo o universo cultural. Em síntese: a teologia tem futuro se, além de se elaborar rigorosamente como ciência, ela puder atingir as sublimes elevações da sabedoria. A fé vem depois e não antes da razão. Se ela viesse antes, seria fatalmente irracional, descaracterizando-se como valor. Vindo depois, ela respeita a instância que a precede e a supera na experiência do inefável, que é o húmus da mais alta dignidade humana. Texto
de * Pe. Hermilo E. Pretto é professor de Teologia Sistemática do ITESP (Instituro Teológico de São Paulo). |
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