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A educação das crianças e dos jovens é uma prioridade missionária radicada no espírito de Maria, Mãe e educadora

No decorrer do capítulo geral que congregou os quatro Institutos que formam a Família marista, o Santo Padre enviou a todos os presentes, a quem recebeu em audiência na manhã de 17 de Setembro no Palácio Pontifício de Castelgandolfo, uma Mensagem de saudação e agradecimento pelo trabalho realizado nos seus diversos campos de apostolado através das gerações passadas, mas sem se esquecer de apontar os caminhos de futuro no novo milénio que os espera. Num trabalho sempre difícil de educação das novas gerações, João Paulo II convidou-os a não ter medo e a seguir em frente, confiando na Palavra de Deus, a exemplo de Maria, e olhando os jovens com o espírito do Bom Pastor. Convidou-os também a formar os leigos que com eles trabalham, para que vivam o carisma próprio desses Institutos e a não deixar de propor a vida consagrada aos jovens que procuram a verdade. Este é o texto da referida mensagem à grande Família marista: 

1. Saúdo com alegria todos os representantes da Família marista, nesta feliz ocasião que faz coincidir os capítulos gerais dos vossos quatro Institutos e que permite a vossa visita comum ao Sucessor de Pedro. Seja-nos permitido ver nisso como que um sinal do Espírito e um apelo a deixar-vos conduzir pelos caminhos de uma comunhão cada vez maior e de uma colaboração cada vez mais intensa! Agradeço ao Pe. Joaquim Fernandez, Superior-Geral da
Sociedade de Maria, as suas palavras amigas que refletem o espírito em que viveis os vossos capítulos, as vossas raízes marianas e o vosso cuidado missionário.

2. Escolhestes na Igreja a vida de consagrados, à imitação de Maria, na fidelidade às intuições dos vossos fundadores e ao carisma dos vossos Institutos. Os vossos predecessores dedicaram-se à evangelização nas paróquias, à educação das crianças e à promoção da mulher. Depois, comprometeram generosamente toda a Família marista no anúncio do Evangelho aos povos da Oceânia oriental, assinalando esta obra com a sua marca:  de modo especial a educação com zelo cristão e o cuidado pelas vocações locais. A Igreja aceita hoje com reconhecimento o trabalho missionário realizado e os dons da graça de Deus manifestados na vida dos vossos Institutos. Ela reconheceu estes dons de maneira particular como frutos de santidade em São Pedro Chanel e São Marcelino Champagnat.

3. Hoje, compete-vos manifestar de uma maneira original e específica a presença da Virgem Maria na vida da Igreja e dos homens e, para isso, desenvolver uma atitude mariana. Esta caracteriza-se por uma alegre disponibilidade aos apelos do Espírito Santo, por uma confiança inabalável na Palavra do Senhor, por uma caminhada espiritual em relação com os diferentes mistérios da vida de Cristo e por uma maternal atenção às necessidades e sofrimentos dos homens, especialmente dos mais pequenos. "A relação filial com Maria constitui o caminho privilegiado para a fidelidade à vocação recebida e uma ajuda muito eficaz para nela progredir e vivê-la em plenitude" (Vita consecrata, 28). É, pois, voltando-vos para Maria com fidelidade e coragem, deixando-vos guiar por ela para "fazer tudo o que vos disser" (cf. Jo 2, 5), que vós encontrareis os caminhos novos para a evangelização do nosso tempo.

4. Pondo-se a caminho, às pressas, rumo às montanhas da Judeia, para ir ao encontro de sua prima Isabel, não nos ensina porventura Maria a liberdade espiritual? Com efeito, é importante que não vos deixeis monopolizar unicamente pela gestão da herança do passado, mas discernir o que convém deixar, com um espírito de pobreza e sobretudo com a liberdade evangélica que nos torna disponíveis aos apelos do Espírito. Diante da multiplicidade das solicitações, é precisa, efectivamente, uma verdadeira liberdade para discernir as urgências. "Faz-te ao largo!"; estas palavras de Jesus a Pedro convidam-nos a "seguir em frente, com esperança" sobre os caminhos do mundo, seguros de que "neste caminho, nos acompanha a Virgem Santíssima" (cf. NMI, 58).

5. Maria deu-se totalmente ao Senhor, dando confiança em tudo à palavra de Deus. Como não vos ensinaria ela a permanecer na força desta palavra, a escolher, como a outra Maria, a melhor parte (cf. Jo 10, 42)? No mundo de hoje, a dispersão espreita facilmente os discípulos de Cristo, porque a abundância dos bens materiais pode desviá-los do essencial e são múltiplas as solicitações pastorais. Como escrevi recentemente a toda a Igreja, temos necessidade de contempalr o rosto de Cristo (cf. Novo millennio ineunte, 2), de tentar aprofundar cada vez mais o seu mistério, porque ele é a verdadeira fonte onde beber o amor que nós quereríamos comunicar. Não deixeis desprender este laço essencial de consagração a Cristo! Escolhei antes pôr-vos humildemente na companhia do Senhor, à maneira discreta de Maria!

Trabalhai com ela para fazer a unidade da vossa vida no Espírito porque, como lembra São Francisco de Sales, "uma das condições requeridas para receber o Espírito Santo será estar com Maria" (Sermão 1 para o Pentecostes), e deixai-vos configurar cada vez mais com Cristo! Então, a vossa vida e a vossa missão encontrarão o seu significado profundo e produzirão frutos para os homens e mulheres de hoje!

6. Guardai viva a tradição missionária da vossa Família! Com Maria, ela leva-vos a estar particularmente atentos às angústias dos nossos contemporâneos, daqueles que, nas nossas sociedades modernas, estão privados de dignidade, de reconhecimento e de amor.

A Igreja tem necessidade de vós, particularmente num domínio essencial para a Família marista:  a educação das crianças e dos jovens. Esta prioridade missionária enraíza-se no espírito de Maria, mãe e educadora de Jesus em Nazaré, e mais tarde na primitiva comunidade cristã. O mundo da educação é difícil e exigente, pedindo sem cessar aos educadores que se adaptem aos jovens e às suas novas expectativas. Não vos deixeis desencorajar pelas dificuldades do momento, as da idade que aparentemente vos afasta dos mais jovens, a da falta de meios e, sobretudo, de operários para trabalhar na vinha! Olhai antes os jovens com os olhos do Bom Pastor, como uma multidão que caminha sem pastor (cf. Mt 9, 36), mas também este campo que se torna dourado para a ceifa e que dará fruto no tempo desejado (cf. Jo 4, 35-38)! Formai igualmente os leigos que trabalham convosco, a fim de que vivam o carisma que vos anima. Durante a vossa existência, sois chamados a fazer descobrir aos jovens a alegria que há em seguir a Cristo na vida consagrada. Não tenhais medo de propor esta caminhada à juventude em procura da verdade!

7. Os capítulos gerais que estais a viver valorizam a fidelidade ao espírito fundador, mas também a renovação necessária, conservando e enriquecendo o património espiritual dos Institutos. Que eles vos ajudem a encontrar os novos sinais da comunhão entre os vossos quatro Institutos, a reforçar uma colaboração que dará frutos para a realização fiel da vossa missão! A Virgem Maria vos oriente ao longo destes caminhos de encontro!

8. É com estes sentimentos que me sinto feliz por vos saudar a vós, por meio de vós, os membros da grande Família marista, espalhados pelo mundo nos seus vários apostolados. Saúdo em particular, e com gratidão, os vossos superiores, o Pe. Joaquim Fernandez, o Ir. Bento Arbués, a Ir. Gail Rencker e a Ir. Patrícia Stowers, que nestes últimos anos desempenharam o difícil serviço da autoridade nos vossos Institutos. Os meus votos vão também para os seus sucessores, que serão eleitos muito em breve, para que, a exemplo de Maria, conduzam com audácia e fidelidade a Família marista nos caminhos do novo milénio!

Confiando-vos a Nossa Senhora de Fourvière, que viu nascer os vossos Institutos, concedo-vos de boa vontade uma particular Bênção apostólica, assim como a toda a Família marista.

Castelgandolfo, 17 de Setembro de 2001.

IOANNES PAULUS PP. II


(©L'Osservatore Romano - 29 de Setembro de 2001)


Ontem foi um dia obscuro na história da humanidade mas o mal e a morte não são a última palavra

Depois dos acontecimentos que ensanguentaram o povo americano e fizeram tremer o mundo no dia 11 de Setembro, João Paulo II mudou o esquema habitual das suas Audiências de quarta-feira, para lamentar o sucedido e fazer com todos os presentes uma sentida oração pelas vítimas de tamanha violência. Apesar de tudo, o Santo Padre transmitiu uma palavra de esperança a um mundo em que a palavra de Cristo ainda "pode dar uma resposta às interrogações que se agitam" no coração de todos. Perante uma violência "sem rosto e sem nome", o mundo treme e toda a humanidade sofre. Resta-nos esperar, com o Sumo Pontífice, "que não prevaleça a espiral do ódio e da violência". Até porque são sempre mais numerosas as vítimas inocentes do que os verdadeiramente culpados. Em vez disso, citamos novamente João Paulo II, que a "Virgem Santíssima, Mãe de misericórdia, suscite pensamentos de sabedoria e propósitos de paz nos corações de todos".
Estas são as palavras do Santo Padre aos  presentes  na  Audiência  de  12  de Setembro: 
Não posso começar esta Audiência, sem expressar a minha profunda dor pelos ataques terroristas que no dia de ontem ensanguentaram a América, causando milhares de vítimas e numerosíssimos feridos. Apresento a expressão das minhas profundas condolências ao Presidente dos Estados Unidos e a todos os cidadãos americanos. Diante de acontecimentos de um horror tão inqualificável, não podemos deixar de ficar profundamente inquietos. Uno-me a quantos nestas horas expressaram a sua condenação indignada, afirmando de novo com vigor que os caminhos da violência nunca conduzem para as verdadeiras soluções dos problemas da humanidade.
Ontem foi um dia obscuro na história da humanidade, uma ofensa terrível contra a dignidade do homem. Logo que tomei conhecimento da notícia, acompanhei com intensa participação o desenvolvimento da situação, elevando ao Senhor a minha premente oração. Como podem verificar-se episódios de crueldade tão selvagem? O coração do homem é um abismo de que, às vezes, emergem desígnios de ferocidade inaudita, capazes de abalar de repente a vida serena e operosa de um povo. Todavia, nestes momentos em que todo o comentário parece ser inoportuno, a fé vem ao nosso encontro. A palavra de Cristo é a única que pode dar uma resposta às interrogações que se agitam na nossa alma. Mesmo quando a força das trevas parece prevalecer, o crente sabe que o mal e a morte não são a última palavra. A esperança cristã fundamenta-se nisto; e é aí que se alimenta, neste momento, a nossa confiança orante.
Com profundo afeto, dirijo-me ao povo dos Estados Unidos nesta hora de angústia e de terror, em que a coragem de muitos homens e mulheres de boa vontade é posta à dura prova. De maneira especial, abraço os familiares dos defuntos e dos feridos, enquanto lhes garanto a minha proximidade espiritual. Confio à misericórdia do Altíssimo as vítimas inermes desta tragédia, pelas quais hoje de manhã celebrei a Santa Missa, implorando para elas o descanso eterno. Deus dê coragem aos sobreviventes, assista com a sua ajuda a obra benemérita dos socorristas e dos inúmeros voluntários, que nestas horas dedicam toda a sua energia para fazer frente a uma emergência tão dramática. Convido-vos também a vós, caríssimos Irmãos  e  Irmãs,  a  unir-vos  à  minha oração.
Imploremos ao Senhor para que não prevaleça a espiral do ódio e da violência. A Virgem Santíssima, Mãe de misericórdia, suscite pensamentos de sabedoria e propósitos de paz nos corações de todos.


O Reino de Deus é preparado por aqueles que realizam as suas atividades com modéstia e humildade

Caríssimos Irmãos e Irmãs
1. Com o início de Setembro, a vida social volta a assumir os seus ritmos ordinários. Depois da pausa do Verão, recomeçam as várias atividades e já está às portas o novo ano escolar.
Neste contexto é particularmente significativa uma expressão bíblica tirada do Livro de Sirácide, que ouvimos na liturgia de hoje:  "Meu filho, pratica as tuas obras com doçura, e serás amado mais do que o homem rico. Quanto maior fores, mais te deverás humilhar, acharás misericórdia diante de Deus" (Ecli, 3, 17-18).
Trata-se de palavras claramente contra a corrente. A mentalidade do mundo, de fato, convida a emergir, a fazer carreira, talvez com astúcia e sem escrúpulos, afirmando-se a si próprio e aos próprios interesses. No Reino de Deus são premiadas a modéstia e a humildade. Ao contrário, nos assuntos terrenos não raramente prevalecem o arrivismo e a prepotência; as conseqüências estão sob o olhar de todos:  rivalidade, abusos e frustrações.
2. A Palavra do Senhor ajuda a ver as coisas na óptica justa, que é a da eternidade. No Evangelho deste Domingo, Cristo afirma:  "todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado". (Lc 14, 11). Ele mesmo, o Filho de Deus feito homem, percorreu com coerência o caminho da humildade, passando a maior parte da sua existência terrena na vida obscura de Nazaré, com a Virgem Maria e São José, empenhado no trabalho de carpinteiro.
Jesus realizou a exortação do antigo sábio:  "Filho, na tua atividade sê modesto... Quanto maior fores, mais te deves humilhar". Desta forma quis dizer aos homens de todos os tempos que a superficialidade e o arrivismo, mesmo se obtêm qualquer êxito imediato, não constituem contudo o verdadeiro bem do homem e da sociedade. Mas, o Reino de  Deus  é  preparado  eficazmente pelas  pessoas  que  realizam  de  maneira séria e honesta a própria atividade, não desejando coisas demasiado altas, mas resignado-se, com quotidiana fidelidade, às mais humildes (cf. Rm 12, 16).
3. Para realizar o seu desígnio universal de salvação, Deus "olhou para a humilde condição da sua serva" (Lc 1, 48), a Virgem Santíssima. Enquanto nos preparamos para celebrar, daqui a alguns dias, a festa da Natividade de Maria, invoquemo-la com confiança, a fim de que todas as atividade, profissional ou doméstica, se possa realizar num clima de autêntica humanidade, graças ao humilde e concreto contributo de todos.
No final da alocução Mariana do Angelus, o Papa saudou em várias línguas os peregrinos presentes, pronunciando em português estas palavras: 
Dirijo agora uma saudação amiga aos peregrinos de língua portuguesa, extensiva às suas famílias e comunidades cristãs, desejando que possam, através de uma fiel escuta do Espírito Santo, encher-se dos Seus frutos, nomeadamente do amor, da alegria e da paz, que para todos imploro ao dar-vos a Bênção apostólica.

(©L'Osservatore Romano - 8 de Setembro de 2001)


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