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INÍCIO DE UMA FORTE FILOSOFIA CRISTÃ POR SANTO AGOSTINHO: Mauro
Araujo de Sousa[1]
Bem, as reflexões para entender a filosofia
cristã de Agostinho devem perpassar toda sua produção, porém na sua
autobiografia Confissões há
uma síntese dela. Mas, por que, ainda hoje, em especial tal livro se
mostra tão atual? Porque narra a experiência humana e o seu conflito
entre a finitude e infinitude. Agostinho deixa um rastro de esperança
nesse seu escrito. As variações dos sentimentos estão fortemente presentes
na obra. O que muitos buscam, afinal, é a bonança após a tempestade
e parece que Confissões traz essa quietude após as tormentas pelas quais passa
a alma humana e, de certo modo, o bispo de Hipona, ao falar de si, tratou
de seu elo comum com o restante da humanidade. A pensar, por uma outra
ótica, terminou por generalizar as condições intrínsecas a cada um.
Não seria o ser humano uma “caixinha de surpresas”? Mas, enfim, o que
em Agostinho se fez teoria da graça divina, e isso ele conseguiu demonstrar
por sua própria conversão, deixou, a muitos, indagações para uma auto-reflexão,
pois também trabalhou na esfera do livre-arbítrio, a capacidade de cada
qual optar pelo que quer, mexendo com a responsabilidade individual.
O que o filho de Mônica pretende é a exposição daquilo que tanto preza
o Evangelho: o arrependimento dos pecados e a misericórdia de Deus,
que se entrelaçam nas suas teorias da graça e do livre-arbítrio. Confiando
nisso, entrega-se a Deus, como ele mesmo cita ao dirigir-se a Ele: “Só
na grandeza da vossa misericórdia coloco toda a minha esperança. Dai-me
o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes”[2].
Isso sempre é perceptível nas diversas exaltações que o bispo hiponense
faz ao Sagrado específico, reconhecendo a grandeza de Deus dentro de
sua pequena existência de ser humano. É o esplendor hierofânico tomando
conta de um grande sentimento religioso que o Santo expressa em seu
livro, pelo qual compartilha sua vida diante do desafio do livre-arbítrio
e, ao mesmo tempo, o abandono à graça divina, demonstrando confiança
e, dessa maneira, é que acaba por exortar seus leitores a saírem de
sua pequenez de fraquezas através da força de Deus. Filosoficamente, se retrata a dualidade
de Platão em Agostinho, porém, é claro, cristianizada, pois o contraste
entre a miséria humana e a grandeza de Deus faz-se fortemente presente.
Aliás, durante a Idade Média, e mesmo depois, não serão poucas as marcas
dessa filosofia agostiniana na Igreja Católica. Inclusive, no surgimento
de novas ordens religiosas, o embate entre, por exemplo, corpo e alma,
seguem de maneira forte. Para isso, basta que se tenha acesso à hagiografia
e à devida contextualização. A idéia de culpa, sem dúvida, também está
implícita. Ninguém se confessa caso não se sinta culpado com relação
a algo, pois é de arrependimento que se trata aqui. E o que sobra ao
homem pecador confessar senão as suas fraquezas. Agostinho quer, como
cristão, abrir a outros o caminho que trilhou para a conversão. No fundo,
essa sua obra é um incentivo àqueles que se sentem perdidos e confusos.
O filho de Mônica vem trazer o apoio da graça divina ao espírito perturbado.
Quis dividir sua experiência com todos os que tivessem acesso à sua
obra, do contrário não a teria escrito. Por outro lado, quis também
revelar a infinita misericórdia daquele que o salvou, assim entendia
a graça divina: salvadora. É o “amém”, o obrigado, de Agostinho dirigido
a Deus, que lhe reconhecera nas profundezas de seu espírito e a ele
desvelara os segredos mais recônditos de sua consciência. Se outro título
tivesse essa obra, poderia passar por testemunho, pois que não é outra
coisa senão isso. E também aí, cumpre-se o lado de apóstolo do Evangelho,
em recorte paulino e, portanto, com marcas gregas e claramente platônicas.
Novamente, às voltas, Agostinho e Platão, agora via São Paulo Apóstolo.
Interessante é essa trilogia, já que se aproximam em forte dualismo
presente na ordem cronológica Platão, Paulo e Agostinho. Nas Confissões, é possível fazer também uma outra leitura. Uma apologia
pessoal de Agostinho, já que este tinha que enfrentar-se diretamente
com seus inimigos doutrinais, os chamados “hereges”, os quais sempre
lhe lançavam ao rosto sua vida desregrada da mocidade. Em tom de humildade,
o Santo consegue vencer os sarcasmos de seus perseguidores, pois entrega
a eles sua autobiografia e não há melhor modo de defender-se. Assim,
não mais haveria motivos para que os inimigos de Agostinho encontrassem
nele algo de escondido. Também, outro dado relevante, é que dessa maneira
ele expunha-se a todo e qualquer questionamento sem dar aberturas às
invenções que o detratariam. Foi um bom advogado de si mesmo, olhando
desse aspecto. Adiantou-se ao que poderiam fazer consigo e fê-lo primeiro,
seguindo mais uma vez o Evangelho, porque “convidado a dar um passo”,
deu dois. Pela sua ação, calou os que tentavam caluniá-lo e assim se
justifica: “Não me caluniem os soberbos, porque eu conheço bem o preço
da minha redenção”[3]. Certamente,
que as tentativas continuaram, mas o bispo de Hipona, em muito, dificultara
as atitudes de seus adversários. Sabia, portanto, fazer política? Sabia,
do ponto de vista da condução de seus ideais em contextos diversos pelos
quais passara. Ademais, não foi sem porquê que o haviam feito bispo,
lembrando ainda de sua carreira como professor de retórica, uma das
artes importantíssimas para alguém sobreviver politicamente, pois é
a arte do bem falar, de bem saber empregar as palavras corretas na hora
certa. Há que se considerar ainda as posturas que assume nas Confissões,
as quais revelam quão bem sabia lidar com os problemas que lhe apareciam
ora como professor de retórica, ora como filósofo em busca da verdade
pelo enfrentamento dos desafios existenciais e, logicamente, como teólogo
que observava a desvelamento de Deus na história humana e na sua própria.
Do ponto de vista político também, teoricamente fundamentou os dogmas
da Igreja Católica, que, com o pensamento deste que a Instituição fizera
Santo, atravessara um longo percurso histórico. É interessante perceber
que Agostinho conhecera antes de sua conversão os lados de seus adversários
e enquanto, agora, converso e dedicado ao serviço de sua missão eclesiástica,
podia muito bem explorá-los. Quanto à questão da Literatura, na
obra Confissões, apresenta
uma flutuação de gêneros literários e parece estar mais próximo de diálogos
ao modo platônico, dissertando porém sua biografia com um profundo conhecimento
bíblico. Ora narra, ora descreve... e assim segue o filho de Mônica.
Trabalha também com aspectos epistolares, o que prende o leitor à sua
experiência vivida. Por momentos, chega a salmodiar ao Deus que o convertera
pela graça via as palavras de Paulo. Na realidade, Agostinho caminha
pela Bíblia, mostrando-se grande conhecedor da mesma, sentindo-a presente
em suas vivências, pois escrevia a partir de sua ótica religiosa. Duas
coisas destacam-se ao percorrer esse seu escrito, porque de um lado
há o temor a Deus e, de outro, a confiança na Sua infinita misericórdia.
O autor sente-se mesmo como filho amparado pelo Pai e nisso encontra
forças para tudo enfrentar na vida. O que fica bem nítido na leitura
é a grande fé que acompanha esse Doutor da Igreja. A familiaridade com
o divino fica explícita. Também é um livro em que a exortação à luta
interior tem um grande foco, pois, sem esta, todas as outras nada valem.
Nesse sentido, Agostinho chega a fazer drama ao contar suas experiências
estando longe e perto do bem. De outra perspectiva, pode ser sua obra
olhada como incentivadora no que diz respeito aos que se sentem perdidos,
angustiados, cansados enquanto descrentes a vagar por mares sem ancoradouro.
Sim, o bispo de Hipona também soube ser poeta ao não perder de vista
os sentimentos mais profundos da alma humana. E exorta a todos a se
escutarem, para encontrarem aí a voz de Deus: “Ouça, pois, vossa voz
em seu interior, quem puder!”[4].
Apesar da forte dicotomia entre homem e Deus, salvação e danação, verdade
e mentira, do que seria, em termos atuais, o secular e o profano, soube
explicitar-se com muita destreza naquilo que mais acreditava, na graça
divina. Sobre o Imutável que a tudo move, lança nisso uma lembrança
daquele teor aristotélico do Ato Puro, do “motor imóvel”, que movimenta
todas as coisas sem ser movido por ninguém. Também de Aristóteles procede
essa parte: “ (Na adversidade e na prosperidade)... Entre estes dois
extremos, qual será o termo médio onde a vida humana não seja tentação?”[5].
E, por assim dizer, nas Confissões,
Agostinho não somente expõe seus variados conhecimentos filosóficos
e teológicos, claro que submetendo os primeiros ao serviço da fé, como
também vai revelando, aos poucos, os caminhos que percorreu para chegar
a ser o que foi. Neste viés, foi bastante singular e autêntico, porque
é da sua experiência que fala. Santo Agostinho divide sua vida em
antes e depois da conversão, sendo esta o marco no qual sua grande paixão
secular não deixa de pulsar, porém recebe uma iluminação pelo que o
espírito e alma de um homem em busca de sentido de viver continua apaixonado.
O fogo que consumia o do filho de Mônica, passou a arder de outra maneira.
Na realidade, ele nunca deixou de ser um ser humano de grande envergadura
passional, apenas que, após a conversão, seu “pathos”, esse impulso
vital, se redirecionava. Toda sua energia se canalizava ao serviço da
fé cristã, porém, tal processo, ele buscou compreender pela via da razão
também. O que chama a atenção é que, nisso tudo, o dualismo de corpo
e alma está em choque. O conflito dessa relação entre matéria e espírito
identifica o espaço da luta humana para entender-se nessa construção.
É onde faz parecer que potencialmente o Sagrado está presente no profano.
Basta um toque, um acontecimento, para que tudo se esclareça. Foi assim
com o bispo de Hipona. Nele, razão e sentimento se entrecruzam no caminho
da fé. Muitas vezes, para expressar o que seria inexprimível, a utilização
de metáforas acabou por ser a solução. Para entender Agostinho, é necessário
penetrar no seu interior através dos seus escritos e, em especial, nas
Confissões. É preciso ler com os olhos
da vida, o que significa lê-lo com todas as experiências por que se
passa numa existência, pois essa foi e continua sendo sua obra. Alguns
preferem apreciar seus escritos somente pela ótica da influência platônica,
o que de fato é fortíssimo nele. Porém, ir além é imprescindível, afinal
não é aconselhável, em se tratando desse Doutor da Igreja, esquecer
de seu forte lado místico, até porque do poético já fora comentado em
seus estilo de escrever. A mística é essa união que um ser humano consegue
na sua relação com o Sagrado. [1] Doutorando em Filosofia, mestre em Ciências da Religião e especialista em História pela PUC-SP, com formação graduada em Filosofia e História pela FAI-SP e Franca-SP. [2] Agostinho. Confissões. II Parte. Livro X. Capítulo 29. Agostinho não somente cria na infinita misericórdia divina como também acreditava que fazia parte da graça de Deus o crer n’Ele. Pois, a partir dessa graça, viriam as outras como conseqüência. [3] Agostinho. Confissões. II Parte. Livro X. Capítulo 43. O bispo de Hipona se dirigia assim também àqueles a quem considerava como hereges: os neoplatônicos, apesar dele ter aproveitado de Plotino a concorrência para a idéia do Uno, que em muito o auxiliaria a respeito do monoteísmo judaico-cristão. [4] Agostinho. Confissões. II Parte. Livro XI. Capítulo9. E o autor aproveita para narrar sobre a ação do Verbo divino nele mesmo, concedendo também nisso toda a graça a Deus. [5] Agostinho. Confissões. II Parte. Livro X. Capítulo 28. Aqui é bom lembrar da busca pela justa medida, que Aristóteles tanto perseguiu e comentou em seus escritos. |
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