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Reflexões filosóficas e religiosa sobre o sofrimento humano:

 

Sofrer é algo que incomoda o ser humano em sua existência, fazendo com que, para muitos, a vida se torne longa demais. Parece mesmo que, quanto maior o fardo a se carregar, mais demorada se torna o tempo de jornada do sofredor. Muitos filósofos buscaram explicar os fundamentos de tal coisa ou, pelo menos, tentaram esclarecer de alguma forma. O mesmo aconteceu em muitas religiões. Para os primeiros, os filósofos, a resposta pode ser encontrada sem motivos sobrenaturais. Já, entre os segundos, os religiosos, são muitas as razões que escapam ao mundo natural. Bem, não se trata, aqui, de apontar quem está com a razão, mas de promover mais algumas discussões que possam estar servindo de parâmetro, complemento ou simplesmente de um início ao diálogo a respeito de algo tão vasto. Para isso, foi necessário escolher, aqui nestas reflexões, dois filósofos que tratam do tema e uma religião que é bastante conhecida por ter como lema central a “cessação da dor, porque tudo é dor”. São três perspectivas que contribuem para a aprendizagem humana dessa condição, que lhe é tão própria: o sofrimento. Afinal, tudo indica não existir, em termos concretos, experiência vital sem esse dado tão importante a ser tratado. Como assim, importante? É que, através dele, uns podem alcançar uma maturidade do espírito e outros, infelizmente, ficam a desejar esse crescimento. Necessário é não esmorecer.

Então, sofrer é uma necessidade para se alcançar uma visão melhor da vida? Depende muito de como essa propriedade, que não é somente humana mas de qualquer ser vivo, apesar de o foco estar, nestas linhas, em torno do ser humano, é trabalhada por certos tipos de pensamento. Mais interessante ainda é que as abordagens realizadas neste texto começam com Siddartha Gautama (+- 556-476 a.C.), o Buda histórico; depois com o filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860) e, em seguida, com Friedrich Nietzsche (1844-1900). Por que interessante? Talvez porque muitos esperem que se fale de Deus ao se tratar do sofrimento. O Buda histórico não fala de Deus, originalmente o budismo não era teísta (baseado numa crença em Deus ou qualquer deus); Schopenhauer também não cria em Deus e Nietzsche, filho e neto de pastores, também desacreditou de Deus. Mas, o que um hindu e dois alemães têm a ensinar sobre o sofrimento, sem a revelação de Deus? Muito, já que a questão não é a de um julgamento religioso-teológico sobre o que está sendo discorrido aqui, além de que, qual é aquele que pode se arvorar como profundo conhecedor das surpresas de Deus? Portanto, deixando de lado as preocupações até com o fanatismo, é possível dialogar com o diferente sem preconceitos, pois os exclusivistas fanáticos até o momento só acabam mesmo é por dividir a humanidade entre si, gerando, em consonância com os problemas políticos e sociais, até guerras longas e muito sangrentas. Após isso, com abertura de espírito, o que não significa falta de prudência, cada reflexão pode ser delineada neste breve espaço.

Começando com Buda, o que ele pensa sobre o sofrimento humano? O próprio Siddartha, o qual seria mais tarde o Buda, fazia parte de uma casta hindu, a dos “kshatria” (guerreiros) e possuía tudo aquilo que uma vida de príncipe lhe podia oferecer. Com o incentivo do pai, casara-se cedo e sua esposa chamava-se Yassodhara, que era sua prima. Após dez anos de casado, tivera um filho, que chamaram de Rahula. A verdade, é que Siddartha sempre vivera encastelado, numa “redoma” e não conhecia o sofrimento. Um dia, porém, resolveu sair do palácio para conhecer a vida do seu povo. Foram quatro saídas. Na primeira, deparou-se com a figura assustadora de um velho extremamente trêmulo e enrugado. Na segunda, impressionara-se com um homem muito doente. Na terceira, presenciara a morte em um cortejo fúnebre e, finalmente, na quarta saída do palácio, encontrara um asceta e notara-lhe a fisionomia serena. Conclusão: a existência humana é consumida pela velhice, pela doença e pela morte. Toda sua vida de luxo nada podia contra isso. A primeira solução para resolver sua angústia foi procurar o ascetismo . Abandonara esposa e filho, que mais tarde o seguirão quando ele se tornar Buda (O Iluminado) e deixara tudo e todos do palácio. Saíra à procura de um significado para a vida. Após várias tentativas, viu que seu caminho não era o da ascese, de cessar o sofrimento com mais sofrimento ainda, pois judiava de seu corpo. Até agora, conhecera os extremos: os prazeres do castelo e a privação do asceta; concluiu, pois, que tudo isso era ruim. Faz, então, sua grande opção e constrói seu próprio caminho, tornando-se, a partir de sua descoberta, o Buda (O Desperto, O Iluminado. Era aproximadamente o ano de 521 a.C.).

Em suma, Buda ensina o “Caminho do Meio”, o equilíbrio, e as Quatro Nobres Verdades: 1-nascer, ficar doente e morrer são males da vida, porque tudo é dor. 2-o que gera a dor? O apego num mundo onde tudo é passageiro; qualquer desejo gera ansiedade, que é má. 3-como chegar ao fim da dor? Com a completa anulação dos anseios, dos apegos. Através da renúncia. 4-Qual o caminho para isso? Boas crenças, boas intenções, boas palavras, boa conduta, boa vida (sem excessos), bom esforço, bom pensamento e boa concentração (o denominado Óctuplo Caminho Sagrado). E lembrar-se sempre disso: querer que a alegria também dure eternamente é apegar-se a ela, isso também é sofrimento. Agir com sabedoria é não esquecer que tudo é impermanente e que o caminho do meio é a melhor forma de viver até o nirvana total, a libertação.

Já, com Arthur Schopenhauer, apesar da forte influência que teve do Oriente e, principalmente do budismo, a saída é outra. Em vida, esse filósofo foi um solitário, um pessimista, mas também tem algo a ensinar com suas experiências e seus escritos. Para ele, “viver é sofrer”, até porque ninguém vive como quer, há sempre algo de insaciável. E o que provoca isso no ser humano é uma vontade cega que domina o mundo e que se projeta dentro dos seres vivos como um “querer viver”. Na reprodução das espécies, essa vontade sai vitoriosa e é nisso que todos cumprem o seu papel: essa vontade absoluta continua a existir desse modo. De mais, “a natureza está sempre pronta a abandonar o indivíduo que não somente está exposto a perecer de mil modos (...) como também e, desde o princípio, [está] destinado a uma perda certa (...) apenas haja satisfeito a missão que tem de conservar a espécie.” (SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação. São Paulo: Brasil Editora, 1963, p. 27).

Quem é o ser humano para esse filósofo? Um acidente desse querer universal, dessa vontade absoluta que domina o mundo. Inclusive, apesar de ser contra o suicídio, ele afirma que aquele que se suicida não é porque não quer viver, mas sim porque não vive como quer e não suporta isso. É essa vontade, tratada aqui, que está vencendo ainda. Isso é forte. Entretanto, como fica a razão humana diante de tal vontade? É uma farsa, pois também está a serviço desse “querer viver universal”, porém é um paradoxo (o contrário dessa farsa, um dilema). É um momento casual em que o ser humano pode escolher e vencer a vontade absoluta. É fazer do veneno a vacina. E qual a via de escape indicada pelo filósofo? Ao concordar com o “tudo é dor” do budismo, por um lado, por outro se distancia de Buda e segue o ascetismo. O asceta, para ele, é o único que pode conseguir anular o “querer viver universal” dentro de si mesmo, não apegar-se a nada e ir mais longe que os outros. O asceta, por isso, pode aconselhar outras pessoas. Aqui, é possível perceber o quanto Schopenhauer se distancia do “Caminho do Meio” de Buda. Só pelo ascetismo, alguém torna-se sereno e livre da ilusão, apesar de continuar vivendo em meio ao “mundo como vontade e representação”. Essa é a decisão filosófica de alguém que se aproximou do budismo para, depois, traçar seu próprio caminho.

Agora, é hora de tratar de um outro filósofo, tido por muitos como pessimista, mas que amava a vida como ela é. Quem é ele? Friedrich Nietzsche, que sofreu influências da leitura do livro de Shcopenhauer já citado, mas que foi além e fez, também, a sua própria senda. Esse outro filósofo alemão difere de Buda e do “viver é sofrer” schopenhaueriano. Para começar, ele já admirava os gregos por serem um povo apto ao sofrimento e afirma isso numa de suas obras, O Nascimento da Tragédia. Para os gregos, não sofrer era separar-se da existência. Bem, diante disso, o olhar nietzscheano, não é, como pode parecer, masoquista. Não se trata de sentir desejo pela dor, pelo sofrimento, apenas é preciso entender que, entre as condições da vida, também a dor faz parte. Não significa também submissão à existência, ou seja, de se conformar já que não tem outro jeito mesmo. Nada disso. Nietzsche está longe de qualquer acomodação e seu sim à vida é de concordância no aspecto de viver como se é, procurando sempre ser melhor, o que para ele se traduz em viver com plenitude e não desprezar a vida porque a dor também está junto dela. Na vida, há domínio, há exploração, mas há amor e amá-la sem restrições é a melhor posição a que chegou Nietzsche. Seu conhecido “amor fati” (amor ao destino) não é outra coisa senão afirmar a vida quantas vezes for necessário, eternamente. Esta vida, para ele, está num movimento contínuo de construção e destruição, o que implica em especificar a morte como parte da vida. Toda satisfação ou insatisfação faz parte do impulso vital, formando a realidade de tudo o que vive. Por isso, não há maior absurdo do que querer separar a dor da vida ou identificar esta somente com a dor.

E o filósofo é bem claro ao abordar a vida como forças em constantes relações, eterna luta; o que permite esta mesma vida ser o que é, fazendo parte dela o sofrimento. Para ele, muitas vezes, o que faz o sofrimento piorar para quem sofre é a mentalidade de que sofrer é castigo, fruto de alguma fúria divina. Toda idéia de culpa é rechaçada por Nietzsche. No fundo, outra versão, é que as pessoas buscam um “porto seguro”, gerando um ideal, uma visão de paraíso, o que lhes mostra a realidade sem subterfúgios como lugar de sofrimento. Isso, no viés nietzscheano, é a negação da vida. O ressentimento também, assim como a mágoa, é o que enfraquece o espírito e, para o filósofo, não há distinção entre corpo e espírito. É a visão dele e isso quer dizer que corpo e espírito ficam corroídos, até com a prática da vingança que, muitas vezes, brota do ressentimento e da mágoa. Finalmente, qual é a solução de Nietzsche para o sofrimento? “Uma única pessoa sem alegria basta para criar numa casa inteira um mau humor contínuo e para a envolver numa nuvem escura: e é um milagre que esta pessoa não esteja presente! É preciso muito para que a felicidade seja doença contagiosa. De onde é que isso vem?” (NIETZSCHE, F. W. A Gaia Ciência. Lisboa: Guimarães Editores, 1996, pp. 166-67). Parece que o filósofo mexe mesmo é com o estado de espírito das pessoas.

Agora, caro leitor, após o sofrimento ter sido refletido sob três óticas distintas, cabe a cada um a sua conclusão, pois os pensamentos expressos neste texto não revelam as suas vivências mais particulares, mais íntimas, que podem apontar para outras respostas. Tanto Buda, Schopenhauer e Nietzsche, ofereceram suas contribuições, mas cada qual deve fazer mais leituras, comparações e chegar ao seu próprio juízo, sem fechar a questão, pois é importantíssimo a abertura a novas abordagens e somente não faz isso quem teme o contato com o outro, com o diferente. Trocar experiências é fundamental para a existência humana, porque não há ser humano que não sofra, de uma ou de outra maneira. A decisão cabe a cada um, porque não se trata de julgamento, mas de ponto de vista, de perspectiva e, principalmente, de experiência de vida.

Referências:  texto adaptado para artigo expresso. Consultar o original na Revista Lumen de Estudos e Comunicações da Universidade da FAI-SP, edição especial, volume 6, número 13, dezembro/2000 e na Revista da APG da PUC-SP, número 24 (no prelo, a sair publicamente em março de 2001). Ps.: procurar nos sumários das revistas pelo nome do autor, Mauro Araujo de Sousa, e por artigos sobre o sofrimento.

Texto desenvolvido por: Mauro Araujo de Sousa

Mestre em Ciências da Religião e especialista em História pela PUC-SP;

licenciado em Filosofia pela Universidade da FAI-SP.

 
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